Pequim, 08/05/2008 – Os distúrbios no Tibet foram aplacados. Funcionários chineses se encontraram com enviados do líder espiritual tibetano, o Dalai Lama, e prometeram que continuarão negociando. Mas, não se vê perspectivas de avanço. O problema do Tibet, território invadido pela China em 1950, ofusca a imagem do gigante asiático, como tantas outras questões relativas aos direitos humanos neste país em incessante e acelerado progresso econômico. Enquanto representantes das duas partes se reuniam no final de semana na cidade chinesa de Shenzhen, a propaganda oficial a partir de Pequim mantinha seus ataques habituais ao Dalai Lama e seus seguidores.
The China Daily, jornal governamental impresso em inglês na edição de segunda-feira qualificou o Dalai Lama de “advogado do terrorismo”. Também assegurou que as organizações independentistas tibetanas solicitaram apoio de grupos extremistas como a islâmica Al Qaeda. O Diário do Povo, porta-voz do Partido Comunista, alertou que o Dalai Lama tinha como meta real a independência tibetana e que, para escondê-la, “joga com as palavras”. As duas partes concordam em continuar dialogando, mas a campanha da imprensa chinesa contra a dissidência tibetana continua, com a pretensão de ganhar a guerra de relações públicas desatada após a repressão dos protestos pacíficos de 14 de março em Lhasa e nas províncias de Qinghai, Gansu e Sichuan.
“É impossível saber o que realmente pensa o governo chinês, devido à falta de transparência de seu sistema público”, disse o acadêmico tibetano Wang Lixiong, morador na capital chinesa. “Este governo não é como o de Mão Zedong, que agia por motivações ideológicas. Os líderes atuais são oportunistas e operam de acordo com seus interesses”. A China está sob uma intensa pressão internacional poucos meses antes da abertura dos Jogos Olímpicos que acontecerão em agosto em Pequim. Prevê-se que atletas, políticos e turistas de todo o mundo viagem para a cidade.
Mas a repressão aos protestos no Tibet desatou uma rejeição internacional que se manifestou na Europa, Austrália e Ásia, nos diferentes pontos de passagem da tradicional tocha olímpica rumo a Pequim. Autoridades afirmam que 22 pessoas, a maioria da etnia chinesa, morreram nos distúrbios de março. Por outro lado, simpatizantes da causa tibetana asseguram que os mortos dessa nacionalidade passam de cem. Líderes ocidentais e do Japão pressionaram a China pela restauração do diálogo com o Dalai Lama. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, despertou o fantasma do boicote aos Jogos Olímpicos ao anunciar que poderia não comparecer à cerimônia de abertura se nas negociações não sejam reiniciadas.
Os representantes do Dalai Lama, Lodi Gyari (morador em Washington) e Kelsang Gyaltsen (residente em Zurique) se reuniram a portas fechadas com Zhu Weiqun e Sitar, altos dirigentes do Departamento de Trabalho da Frente Unida, órgão do governante Partido Comunista encarregado do vínculo com as minorias nacionais. Mas, houve seis rodadas de negociações entre delegados das duas partes entre 2002 e 2007, sem que as diferenças fossem vencidas. O primeiro ponto de conflito é que o Tibet está falando. O Dalao Lama diz representar os sete milhões de tibetanos, enquanto Pequim acredita que fala em nome dos 2,8 milhões radicados na Região Autônoma do Tibet.
Isto ocorre porque a maioria dos tibetanos vive nas províncias de Sichuan, Yunnan, Gansu e Qinghai em razão dos limites delineados pelo regime chinês nos anos 50. O Dalai Lama já não reclama a plena independência do Tibet. Agora pede uma autonomia genuína e que inclua um respeito maior pela identidade religiosa e cultural de todos os tibetanos residentes na China. Entretanto, Pequim suspeita que os seguidores do budismo lamaísta tibetano mantenham em segredo suas ambições independentistas, e no passado se negaram a dialogar com eles até que seu líder espiritual renunciasse à “secessão”. Nesta ocasião, reiteraram essa estratégia.
Esperamos que o Dalai Lama respeite sua palavra e detenha realmente as atividades separatistas e deixe de provocar atividades violentas que perturbam os Jogos Olímpicos, para, assim, criar condições para futuros contatos”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Qin Gang. Porém, o governo tibetano no exílio disse que se a repressão em áreas tibetanas continuar será difícil manter o diálogo em curso. “Sentimos que será difícil iniciar negociações, a menos que a crítica situação no Tibet melhore”, afirmou o “ministro” tibetano Ksang Yangkyi Takla, residente em Bruxelas. A imprensa oficial chinês informou sobre um tiroteio nos arredores do povoado de Dari, em Qinghai, na semana passada, no qual teria morrido um policial e um ativista tibetano. O episódio gerou novos protestos na área e a conseguinte repressão. (IPS/Envolverde)

