Bruxelas, 12/06/2008 – Os líderes da Alemanha e França, os maiores produtores de automóveis da União Européia, parecem seguir a linha marcada pela publicidade, sedutora e sofisticada, à qual recorrem as montadoras para vender seus produtos. Assim como esses anúncios comerciais buscam transmitir a impressão de que os veículos são “amigáveis” com o meio ambiente, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nickolás Sarkozy, trataram de apresentar seu acordo sobre limites às emissões de dióxido de carbono dos automóveis novos como uma bênção para a ecologia.
Após o entendimento bilateral alcançado na segunda-feira, Merkel declarou estar muito feliz porque seu país e a França agora apoiavam o objetivo da UE de que todos os novos automóveis emitam 120 gramas de carbono por quilômetro até 2012. “Realizamos um importante avanço em um tema no qual nossas posições iniciais era muito divergentes’, afirmou. Quando os ambientalistas analisaram o texto desse acordo, disseram que a realidade não coincide com as declarações de Merkel e Sarkozy. Segundo o Greenpeace, se deixa às montadoras uma considerável margem de manobra, já que algumas lacunas no acordo permitirão que sejam colocados no mercado carros emitindo em média até 138 gramas de carbono por quilômetro.
Merkel afirmou que em lugar de insistir com um rígido cumprimento do teto de 120 gramas deve-se dar ênfase a uma redução global das emissões, promovendo tecnologias “ecológicas” inovadoras. “Estamos muito longe do que deveríamos estar fazendo”, disse Anne Valette, ativista do Greenpeace. “Com um objetivo tão diluído a UE corre o risco de não respeitar os compromissos assumidos sob o Protocolo de Kyoto”, que fixou metas obrigatórias de redução de gases causadores do efeito estufa, em parte responsáveis pelo aquecimento global.
Segundo esse documento, estabelecido em 1997, a UE deve reduzir suas emissões de dióxido de carbono, um dos principais gases causadores do efeito estufa, em 8% em relação aos níveis de 1990, até 2010. O setor de transporte é o único na Europa que aumentou as emissões contaminantes nos últimos anos: 26% em relação a 1990. Os automóveis representam 12% do total europeu. O Greenpeace também critica a forma como Alemanha e França modificaram substancialmente os planos da Comissão Européia, órgão executivo da UE, para penalizar os fabricantes que não respeitarem os limites.
A proposta original recomendava multar as montadoras em US$ 31 para cada grama de dióxido de carbono emitido além do limite até 2012, que subiria para US$ 146 em 2015. mas, Merkel e Sarcozy pediram “clemência” para os que violarem as disposições. Alguns ativistas afirmam que o acordo franco-alemão, e suas modificações no plano da UE, implicará um atraso de uma década para que circulem na Europa automóveis com menores níveis de emissão. Também afirmam que o titubeio nas ações manterá a União Européia altamente dependente das exportações de petróleo.
“Os dois maiores países produtores de automóveis na Europa fecharam um acordo para manter durante a próxima década, ou mais, fora da mãos dos usuários veículos eficientes em matéria de consumo de combustível”, disse Aat Peterse, da Federação Européia para o Transporte e o Meio Ambiente. “Querem manter a Europa preocupadamente dependente do petróleo importado do Oriente Médio e da Rússia e nada fazem para reduzir a fatura da compra de hidrocarbonos estrangeiros, que na sexta-feira passada chegava a mais de US$ 1,5 bilhão por dia”, acrescentou. “O mais grave é que este plano fará com que cumprir as metas seja muito mais complicado para cada um dos membros da UE. Eles deveriam velar por seus interesses e jogar este acordo no lixo”, ressaltou.
A decisão de Mekel e Sarkozy aconteceu às vésperas da posse, pela França, da presidência rotativa da UE, que irá de 1º de julho até o final do ano. Paris espera realizar grandes progressos em matéria de estratégia do bloco referente à mudança climática, incluindo a questão dos automóveis, durante esse período. Embora a França tenha apoiado as propostas da Comissão Européia, a Alemanha havia se manifestado contra. As montadoras francesas se especializam em veículos médios e pequenos, enquanto os fabricantes alemães, em sua maioria voltados para o segmento de carros de luxo, argumentavam que ficaria complicado cumprir os limites originais. (IPS/Envolverde)

