Washington, 12/06/2008 – O generalizado aplauso à proposta de criar uma “liga de democracias”, feita pelo candidato oficialista à presidência norte-americana John McCain, não o impediu de ouvir algumas vaias. A iniciativa de fundar uma organização multilateral de países democráticos que cumprirem certos requisitos políticos mínimos conseguiu apoio de internacionalistas e neoconservadores, e inclusive desde hostes do candidato de oposição à presidência, Barack Obama.
A base da “liga” é a idéia do filosofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), apresentada no ensaio “Sobre a paz perpétua” (Zum ewigen Frieden, ein philosophischer Entwurf, do final do século XVIII), segundo o qual as repúblicas são menos inclinadas a embarcar em guerras do que os regimes autocráticos. Segundo esta concepção, as nações republicanas poderiam se enfrentar em armas com as não-republicanas. A iniciativa já está a caminho, segundo o especialista neoconservador Robert Kagan, assessor de McCain, que vê uma “competição mundial” entre democracias e autocracias.
Kagan acredita que as ascendentes potencias autocráticas ameaçam a ordem internacional, em parte bloqueando as ações no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, em que dois países que qualifica como tais, China e Rússia, têm poder de veto. A “liga” tem o objetivo de dar às democracias com sintonia ideológica um veículo multilateral que autorizaria intervenções em casos em que o Conselho não pudesse atuar. Juntos, esses países poderiam atender crises humanitárias e de segurança embora não tenham convencido membros não democráticos da ONU.
As autocracias não democráticas bloquearam em ocasiões esforços da ONU em crises como as de Darfur ou a criada pelo ciclone na Birmânia, pois, em sua concepção, violavam a soberania nacional. A frustração causada pela paralisação do Conselho de Segurança nesses casos também levou alguns especialistas de idéias liberais e internacionalistas, – como Ivo Daalder, assessor de Obama – a apoiar a idéia, embora mudando sua denominação para “concerto de democracias”. Daalder e outros liberais publicaram escritos em apoio à iniciativa, embora o próprio candidato democrata ainda não tenha se pronunciado a respeito.
A “liga” redundaria em beneficio dos interesses norte-americanos, pois estabeleceria um novo mecanismo multilateral através do qual Washington poderia intervir com seus novos pares em crises internacionais que paralisam o Conselho de Segurança. O antecedente que citam como modelo é o bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte na Sérvia pela repressão em Kosovo, em 1999. ao mesmo tempo, a integração dos Estados Unidos em um fórum multilateral também ajudaria o país a melhorar sua imagem, prejudicada pelo unilateralismo do governo Bush.
O especialista Thomas Carothers, do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, acredita que a lógica por trás da proposta de McCain é potencialmente perigosa. Que as democracias aceitem a “paz perpétua” kantiana e anulem o recurso da guerra entre seus membros não implica que todos esses governos compartilhem as políticas internacionais baseadas em valores democráticos, segundo Carothers. Um exemplo caro é a reticência da democrática África do Sul em aderir à política internacional predominante no Ocidente.
O governo de Thabo Mbeki resistiu em apoiar ações contra o presidente a vizinha Zimbábue, Robert Mugabe, talvez por vê-las como uma manifestação de imperialismo ocidental. Também se negou a facilitar aos Estados Unidos a sede do novo comando militar na África. A Índia, a maior democracia do mundo, também se negou a participar de várias campanhas implementadas pelo Ocidente, como as de isolamento da Birmânia e do Irã. “Washington subestima muito o desagrado que sentem muitas democracias, especialmente no Sul em desenvolvimento, diante de sua perspectiva intervencionista”, disse Carothers em um fórum que discutiu a idéia da “liga”, organizado pelo Fundo Carnegie.
A maioria da meia centena de democracias do mundo em desenvolvimento se alinharia com a África do Sul e não com os Estados Unidos em questões de política externa, segundo o especialista. Mas o argumento de Kagan sobre o bloqueio que supõe para o Conselho o veto das “autocracias” não é verdadeiro. Os Estados Unidos mesmo bloquearam medidas contra o genocídio de 1994 em Ruanda e contra todas as ações bélicas de Israel contra o povo palestino e os países árabes.
De todo modo, Dallder acredita que uma “liga de democracias” poderia intervir em conflitos internos ou operações terroristas através de mecanismos que o Conselho é incapaz de desenvolver. O órgão da ONU, segundo este especialista, tem o objetivo de impedir a guerra entre grandes potências, e não entre países de menor porte ou aqueles conflitos onde intervenham entidades não estatais. Para Daalder, a “liga” teria a virtude de “socializar” a política externa dos Estados Unidos.
Tod Lindberg, assessor de McCain, acrescentou que “a liga de democracias” não teria impedido a aventura bélica dos Estados Unidos no Iraque, mas permitido um endurecimento das sanções contra o regime de Saddam Hussein de um modo que a teria tornado evitável. “Me agrada este enfoque”, disse Carothers no fórum. Mesmo assim, se disse preocupado com o tom nacionalista de McCain, o que o faz menos disposto a ouvir outros, como bush. “Me pergunto se o entusiasmo do senador McCain com a liga de democracias inclui a idéia de reduzir o apetite norte-americano por certas afirmações sobre a fortaleza da nação e a segurança nacional”, afirmou.
A “liga”, segundo os ex-funcionários do governo de Bill Clinton (1993-2001) Ted Piccone e Mort Halperin, “reaviva a mentalidade da Guerra Fria que enfrenta os bons rapazes (as democracias de mercado) contra os maus (as autocracias)”. Piccone e Haplerin impulsionaram desde Washington a criação da Comunidade de Democracias, um fórum multilateral com a finalidade de promover a democracia por meios não violentos. Os outros países “não estão interessados em substituir a ONU como fórum legítimo para a discussão de questões de segurança”, disse Halperin na reunião do Fundo Carnegie. (IPS/Envolverde)

