ECONOMÍA-EUA: está mal, mas vai bem, diz o FMI

Washington, 24/06/2008 – O Fundo Monetário Internacional apresentou na última sexta-feira (20) um panorama mais otimista sobre a economia dos Estados Unidos: previu que finalizará o ano com crescimento zero, mas começará a se recuperar gradualmente em 2009, e melhor do que previsões anteriores. Mas a análise do FMI alerta que o aumento nos preços das matérias-primas aparece como potencial nuvem negra no horizonte. Além disso, o desempenho em ascensão e as restrições orçamentárias limitam a capacidade das autoridades norte-americanas para responder a eventuais contratempos, acrescenta o Fundo.

O FMI, após a rodada anual de consultas com funcionários dos Estados Unidos, informou que, embora o crescimento dos EUA em 2008 será “aproximadamente” nulo, se fixará em torno de 2% em 2009. Em abril, o mesmo organismo havia previsto uma expansão do produto interno bruto de apenas 0,9% para o próximo ano. “A desaceleração foi menos acentuada do que o temido e a recuperação começará no ano que vem, quando forem superados fortes “ventos de proa”. Isto é possível, claramente, pelas políticas de estímulo e pela ativa resposta dos mercados financeiros para recuperar sua solvência”,destacou o FMI.

Os economistas da instituição, porém, admitiram que os Estados Unidos arrastaram em sua queda outros países. No segundo semestre deste ano, todas as nações ricas registraram crescimento abaixo da média pela primeira vez em quase uma década, afirmaram. A reativação norte-americana permanece sob ameaça, devido à disparada dos preços de alimentos e combustíveis, bem como pela fraca posição financeira dos bancos e das famílias. A avaliação do FMI parece fazer eco à avaliação da Reserva Federal (banco central) dos Estados Unidos, que minimizou os riscos de uma pronunciada recessão e reclamou medidas contra a inflação. O aumento de preços desestimula o consumo, responsável por aproximadamente dois terços do produto nacional bruto.

“A política monetária oferece agora sustentação à recuperação e um enfoque de manejo do risco sugere que se manterá”, disse o FMI em relação aos cortes na taxa de juros de referência aplicados desde setembro pela Reserva Federal, que acumulam 3,25%. Agora, é de 2% ao ano. Essas baixas foram adotadas para evitar que a crise nos mercados de crédito e imobiliário arrastassem a economia para uma profunda recessão. “É preciso vigilância, considerando os estímulos aplicados e o imperativo de manter sob controle as expectativas inflacionárias”, disse o FMI.

Uma pesquisa da Universidade de Michigan e da agência de notícias Reuters revelou na semana passada que os consumidores norte-americanos prevêem uma inflação anual de 3,4% nos próximos cinco anos, a maior desde 1995. Diversos estudos nos últimos meses mostraram que o índice de confiança do consumidor esta em seu nível mais baixo em três décadas. A avaliação do FMI foi conhecida às vésperas da reunião do comitê da Reserva Federal encarregado de determinar a taxa de juros, que começou ontem e termina hoje. Os investidores, tomando em conta as declarações do presidente do banco central, Bem Bernanbke, consideram que serão mantidas estáveis no momento, após sete quedas nos últimos 10 meses. As baixas dos juros alimentam a inflação, por oferecerem fundos baratos que podem ser destinados ao consumo, gerando maior demanda e pressões de alta nos preços, diz a teoria econômica.

Segundo o FMI, ouro e petróleo aumentam seu preço em mais de 1% cada vez que o valor cai 1%. A inflação é um dos fatores que prejudica a fortaleza das moedas. A Reserva Federal de Dallas, um dos bancos oficiais estatais que integram a Reserva Federal central, responsabilizou a fraqueza do dólar por cerca de um terço do aumento de US$ 60 no preço do petróleo entre 2003 e 2007. A moeda norte-americana caiu mais rapidamente nos últimos meses devido aos cortes nos juros. O FMI alertou que a receita para combater a inflação aumentando o custo do dinheiro através de uma alta da taxa de juros se vê limitada pelo aumento do desemprego, pois essas altas têm efeitos recessivos ao desestimular o gasto.

Por outro lado, o grande déficit do orçamento norte-americano limita a capacidade do governo para estimular a economia recorrendo a um nível maior de gasto público, disse o FMI. Funcionários dos Estados Unidos minimizaram a possibilidade de um cenário de estagflação, termo usado para descrever uma combinação de inflação com recessão, cunhado nos anos 70. Mas, ganhou nova popularidade: o aumento nos preços das matérias-primas e o dólar fraco alimentam a inflação, ao mesmo tempo em que a economia desacelera pela crise que causou o estouro da bolha especulativa imobiliária, que se estendeu a todo sistema financeiro.

Os economistas do Fundo disseram que se mais ações para resolver os problemas são necessárias devem visar os setores imobiliário e financeiro, “razão das atuais dificuldades”. O FMI fez uma advertência contra o perigo de resgatar temerários investidores e tomadores de crédito, que incentiva a adoção de novos riscos, mas acrescentou que uma proposta de legisladores do opositor Partido Democrata que sugere a liquidação das dívidas hipotecárias “merece consideração”. Isso permitira que os que tomaram empréstimos para a compra da casa se beneficiem com uma redução nas hipotecas em linha com a depreciação do valor de mercado de seus imóveis, para evitar que seu passivo supere o preço de venda do imóvel.

O governo dos Estados Unidos adotou medidas para evitar as execuções hipotecárias contra os endividados que enfrentam dificuldades para pagar o empréstimo. O FMI disse que “as políticas devem levar em conta o risco implícito desse resgate, mas, ações destinadas a limitar execuções de hipotecas que são evitáveis estão justificadas pelos riscos derivados do fato de os preços das moradias caírem abaixo do nível de equilíbrio”. (IPS/Envolverde)

Abid Aslam

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