Kingston, Canadá, 26/06/2008 – A mudança climática arrasa os Estados Unidos para “uma crise muito mais séria” do que as Segunda Guerra Mundial, alertou o ambientalista David Suzuki na Conferência Mundial sobre Energia Eólica. Há 20 anos, um dos mais destacados cientistas norte-americanos, James E. Hansen, advertiu o Congresso de seu país sobre a ameaça da mudança climática e considerou em um informe perigoso deixar o tempo passar sem tomar medidas para minimizar o fenômeno.
Hansen, que trabalha na Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa), acaba de publicar novas pesquisas segundo as quais a concentração de gases causadores do efeito estufa chegou a um ponto em que pode desatar mudanças na atmosfera e nos oceanos que exigiriam milênios para serem revertidos. Para evitar isso, Hansen cobrou drásticas reduções nas emissões de dióxido de carbono, começando quase que imediatamente, e o abandono até 2030 das usinas de energia elétrica alimentadas com carvão. Os especialistas consideram que se trata de um grande desafio, mas que é possível conseguir isso.
Suzuki lembrou aos delegados que participaram da conferência que os Estados Unidos conseguiram responder ao enorme desafio que representou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), assim como há 50 anos, quando hoje a extinta União Soviética colocou o primeiro satélite no espaço e depois o primeiro cosmonauta. “Os Estados Unidos estavam muito atrasados, mas a nação não se rendeu”, afirmou Suzuki. Esse país, que se beneficiou enormemente de seus investimentos em pesquisa espacial através de novas tecnologias como satélites, telefone celular, pilhas de combustível, etc., também criou o clima que deu a ele a supremacia no campo da pesquisa científica.
“Responder ao desafio da mudança climática não só reduzirá riscos para o planeta, como também a dependência dos combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que criará centenas de milhares de novos empregos e propiciará muitos benefícios tecnológicos”, disse Suzuki. A Alemanha já avançou em matéria de pesquisa técnica e desenvolvimento de políticas. Mais de 14% da energia consumida nesse país são de fontes renováveis, principalmente solar e eólica. Por outro lado, apenas 3,4% da eletricidade utilizada no mundo são gerados em fontes renováveis.
O Ministério do Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha estima que em aproximadamente uma década um terço da eletricidade produzida por esse país virá de fontes renováveis e não-nucleares. “A Alemanha tem mais de 240 mil postos de trabalho nesse setor”, disse à IPS Hermann Scheer, presidente do Conselho Mundial para a Energia Renovável, organização de empresas com sede em Bonn. “É o único caminho para resolver os dois maiores problemas que o mundo enfrenta: a energia e a mudança climática”, acrescentou.
Scheer é reconhecido como responsável pelo impulso da revolução alemã na área da energia renovável. Foi quem propôs a idéia, amplamente aceita, de reduzir seu preço por lei, bem como permitir a famílias e empresas gerar energia de fontes renováveis e vendê-la à rede elétrica por um preço superior ao triplo do em vigor no mercado. Os preços da energia aumentarão na medida em que se esgotarem os combustíveis fosseis. O uso mundial de energia aumentou 50% na última década, o que obriga os países em desenvolvimento a gastar com ela grande parte de seus recursos. Scheer destacou que a geração de energia é a que maior quantidade de água consome no mundo.
Considera uma fantasia pensar que a maioria das nações africanas ou em vias de desenvolvimento poderão construir novas unidades elétricas alimentadas com carvão ou nucleares, simplesmente por carecerem da água que elas requerem. “Sem energia nada funciona, por isso a humanidade caminha inevitavelmente para uma era de conflitos sangrentos”, afirmou. Mas, isso pode ser evitado se os governos colocarem como prioridade o uso de energia renovável, já que é falso dizer que não se pode gerar a quantia necessária, disse Scheer. “É completamente possível um pais como a Alemanha obter a totalidade de sua energia de fontes renováveis. Fizemos estudos que comprovam isso”, assegurou.
O Canadá poderia acabar com sua dependência dos combustíveis fósseis quadruplicando o número de turbinas de vento que tem atualmente a Alemanha, disse Paul Jipe, especialista em energia radicado nos Estados Unidos. “Como o Canadá emprega intensamente a energia hidrelétrica, poderia ser o primeiro país a se abastecer unicamente de fontes renováveis”, afirmou aos delegados. Mas, isso não acontecerá, porque o atual governo canadense está firmemente comprometido com os combustíveis fósseis. O Canadá se negou a patrocinar a conferência sobre energia eólica e a participar dela. Foram outros países e instituições, como a Alemanha e a Organização das Nações Unidas, que deram os fundos para que representantes do Sul pudessem estar na reunião.
O poderoso grupo de pressão da indústria dos combustíveis fósseis quer continuar obtendo lucro com seus investimentos na infra-estrutura existente, disse Scheer. Por isso, se deixar-se que as companhias elétricas tradicionais assumam a promoção da energia renovável haverá poucas mudanças, ressaltou. Não só é possível obter toda a energia necessária de fontes renováveis como, também, pode ser feito mais rapidamente e a um custo menor do que construindo usinas nucleares ou alimentadas com carvão, garantiu Scheer. “O público e o setor da energia renovável terão de pressionar duramente os governos para que as coisas mudem”, concluiu. (IPS/Envolverde)

