Roma, 20/06/2008 – Os lugares onde se preserva a memória dos campos de concentração da era soviética na Rússia e do terrorismo de Estado na América Latina não são muito diferentes. Suas historias são paralelas e seu papel atual também é semelhante.
Há quase 10 anos, o Museu Lower East Side Tenement, de Nova York, chamou os responsáveis por locais semelhantes de todo o mundo, na convicção de que podiam ter um papel fundamental na promoção da participação democrática. A princípio, obteve oito respostas. Uma delas foi a do Museu District Six, que recorda o apartheid, o regime de segregação racial institucionalizada contra a maioria negra que vigorou na África do Sul até 1994. Também responderam ao chamado o Museu Gula, o único campo de concentração do stalinismo preservado na Rússia; a Maison dês Esclaves do Senegal; um centro de transporte de escravos do século XVIII, e o Museu da Guerra de Libertação de Bangladesh. Outras instituições somaram-se depois, desde Argentina e República Checa, passando pela Fundação Escola da Paz de Monte Sole, na Itália. Atualmente, a Coalizão integra 17 “sítios de consciência” e inclui mais de 150 membros e 1.800 patrocinadores em 90 países.
IPS – Por que a Coalizão escolheu a Itália para realizar sua conferência, entre 16 e 20 deste mês?
Liz Sevcenko – A Coalizão veio à Itália para aprender com a Fundação de Monte Sole, local de um massacre cometido em 1944 por nazistas alemães com a ajuda de fascistas locais. Mais de 700 pessoas foram assassinadas e várias aldeias destruídas nesta área. A Escola da Paz desenvolveu programas inovadores que empregam a história local para promover o dialogo, especialmente entre os jovens, sobre assuntos contemporâneos como a violência, o racismo e a xenofobia.
IPS – Qual é o papel desses locais históricos na construção de uma cultura de direitos humanos?
Liz Sevcenko – Nos ajudam a recordar acontecimentos tanto dolorosos quanto positivos e experiências que deram forma ao estado dos direitos humanos em nossas sociedades. Mas, não constroem automaticamente uma cultura de direitos humanos. Devemos realizar um esforço consciente e deliberado para ativar esses sítios históricos através de programas inovadores, que unam as pessoas acima de suas diferenças para refletir sobre o passado e discutir seu legado.
IPS – O que as pessoas, especialmente os jovens, aprendem nesses lugares?
Liz Sevcenko – Os jovens, e, de fato, todos os visitantes, enfrentam diferentes desafios em relação aos direitos humanos. Ao explorar os exemplos do passado, os sítios de consciência oferecem formas de entender as decisões individuais que desenvolveram culturas de tolerância e intolerância. Sobretudo, relacionam questões sociais com o poder e a responsabilidade de cada indivíduo. Com esta base, ajudam os jovens a identificar o papel que podem ter para tratar os difíceis problemas que devem abordar.
IPS – Qual é a ligação entre as velhas lutas e os desafios atuais como racismo e a crescente xenofobia?
Liz Sevcenko – Alguns sítios de consciência se referem a questões contemporâneas que, direta ou indiretamente, estão ligadas ao que ocorreu ali no passado. O Museu Lower East Side Tenement preserva os departamentos dos séculos XIX e XX onde viveram os estrangeiros que então chegavam a Nova York, utilizando histórias da vida cotidiana como catalisadora de um diálogo sobre as semelhanças ou diferenças dessas experiências de imigrantes e como podem ser melhoradas.
Outros sítios se referem a matérias que hoje têm uma fisionomia completamente diferente. A Escola de Paz de Monte Sole não informa as pessoas sobre esse massacre da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mas as ajuda analisar os sistemas ou as culturas subjacentes que permitiram que essa violência ocorresse. Nos dois contextos, a violência e os sentimentos contra os imigrantes estão em alta. Os sítios oferecem diversas maneiras para que as pessoas liguem as lutas passadas com a atualidade. Também nos esforçamos continuamente para identificar quais questões estão assumindo novas formas e como encará-las.
IPS – Quais são os desafios que os sítios de consciência enfrentam hoje em dia?
Liz Sevcenko – Em alguns casos, pode parecer que as lutas lembradas nesses locais já foram resolvidas. De fato, muitos governos e muitas sociedades erguem sítios para assinalar que a questão foi resolvida e que não é preciso continuar considerando-a. Por exemplo, um visitante da Villa Grimaldi, um ex-centro de detenção e tortura no Chile, pode pensar que como hoje o país vive em democracia e o sistema de repressão oficial foi erradicado, o problema das violações de direitos humanos do regime do general Pinochet (1973-1990) está resolvido.
Mas, a Corporação Parque pela Paz Villa Grimaldi usa a história do lugar para ajudar os jovens a identificar as questões de direitos humanos que eles enfrentam hoje na escola, como a xenofobia e o assedio, e com avançam as culturas de violência e repressão. Desta forma, ajuda os jovens a fazer uma ligação entre o autoritarismo estatal, a repressão e os conflitos do presente.
IPS – Aceita-se normalmente essa ligação?
Liz Sevcenko – Os sítios frequentemente recebem apoio para preservar os materiais dos prédios ou contar as histórias do passado. Mas, podem ter obstáculos piores para abrir um diálogo sobre as complexidades e contradições da história, ou por se recusar a relegar ao passado as questões de direitos humanos, negando-se a considerá-las resolvidas. Por outro lado, os sítios de consciência buscam inspirar as novas gerações a identificarem por si mesmas os problemas que as afetam e estarem preparadas para enfrentá-las.
IPS – Existe algum tipo de cooperação entre os sítios da memória europeus ou vocês estão trabalhando nisso?
Liz Sevcenko – Nossa esperança é que, ao finalizar nossa conferência, com a liderança de Monte Sole, lancemos nosso primeiro projeto de Sítios de Consciência Europeus. Na reunião, os sítios europeus exploram os passos a dar para responder aos desafios mais urgentes na Europa de hoje, como podem ajudar-se mutuamente e de que apoio precisam da Coalizão Internacional. (IPS/Envolverde)

