Nações Unidas, 11/07/2008 – Governos africanos objetam as sanções propostas pelo Ocidente ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas contra o presidente Robert Mugabe e outros 11 altos funcionários do Zimbábue. Estados Unidos e União Européia querem que o Conselho aprove a resolução a esse respeito ainda esta semana e por unanimidade. Mas, segundo diplomatas africanos, as renovadas sanções apenas aumentarão a tensão entre o governo de Mugabe e os de seus vizinhos.
“Não há nenhuma unanimidade a respeito no Conselho”, admitiu o embaixador da Grã-Bretanha, John Sawers, após as deliberações desse órgão da ONU sobre o Zimbábue, na terça-feira. Londres “apóia o projeto de resolução e quer se seja aprovado o mais rápido psosivel”, disse Sawers. No mesmo dia da sessão do Conselho de Segurança, a cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo divulgava uma declaração deplorando a violência no Zimbábue, apoiava s esforços de mediação e propunha reforçá-los com um enviado da ONU.
Prevê-se que o Conselho vote o projeto ainda esta semana. O embaixador da França nas Nações Unidas, Jean-Maurice Ripert, disse à imprensa que os defensores da resolução haviam garantido nove votos. Mas, esclareceu, entre eles não figura o da Rússia, que tem poder de veto sobre as resoluções do Conselho de Segurança (como China, Estados Unidos, França e Grã-Bretanha). Além disso, a delegação russa manifestou suas reservas sobre a proposta.
O opositor Movimento para a Mudança Democrática (MDC) obteve mais votos do que a governante União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF) no primeiro turno das eleições presidenciais, em março. Mas o candidato do MDC, Morgan Tsvangirai, se retirou da disputa uma semana antes do segundo turno, devido à crescente violência política e à hostilidade contra seus simpatizantes. Mugabe assegura ter obtido 85% dos votos no segundo turno, dia 27 de junho.
O embaixador da África do Sul na ONU, Dumisani Kumalo, disse que o Conselho de Segurança deveria apoiar as gestões de mediação para uma solução política. “A União Africana disse categoricamente que não são necessárias sanções contra o Zimbábue. De fato, vários chefes de estado, incluindo o presidente da UA, disseram isso aos líderes do G-8 na cúpula realizada esta semana no Japão”, acrescentou. “Dissemos a eles que não deveriam ser tomadas medidas que complicassem a situação e que literalmente desmembraram o país”, ressaltou Kumalo.
As sanções a serem examinadas pelo Conselho de Segurança incluem embargo de armas e congelamento dos bens pessoais de Mugabe e de outros 11 altos dirigentes do país. Kumalo questionou o fato de “a resolução afirmar que a situação no Zimbábue ameaça a paz e a segurança internacionais”, pois “a UA não acredita nisso, nem os chefes de Estado africanos que estiveram em Toyako (Japão), nem os países vizinhos”. Por outro lado, perguntou: “se o Conselho de Segurança começar a certificar eleições, quando irá parar?”.
O diplomata sul-africano também criticou a inclinação favorável ao MDC do enfoque europeu sobre a crise no Zimbábue. “O presidente da UA disse abertamente que queria ver “Tsvangirai como presidente do Zimbábue”, recordou. “A África do Sul pediu-lhe que facilitasse a mediação junto com Angola. Ambos informamos à UA que, por sua vez, informou à ONU”, disse Kumalo. “Os europeus insinuaram que precisamos de um novo mediador que viria impor seu candidato ao povo. Isso apenas criará problemas. Somos vizinhos e sabemos com quem estamos lidando”, afirmou.
Por sua vez, o embaixador norte-americano, Zalmay Khalilzad, disse que a intenção das sanções é pressionar os que “têm as cartas, aqueles que devem mudar sua atitude para que haja avanços. Apoiamos a mediação, mas esta não foi efetiva até agora. Passou muito tempo. Portanto, agregamos alguns elementos à equação, como maior apoio da ONU, e por isso dizemos que o secretário-geral deve indicar alguém”, afirmou Khalilzad.
“A questão do Zimbábue desafia o mundo”, disse a subsecretária-geral, Asha-Rose Migiro, perante o Conselho de Segurança. “É o momento da verdade para a demcoracia na África. Quando acontecem eleições em um clima de terror e violência, seu resultado não tem legitimidade porque não está construído sobre a vontade do povo”, ressaltou. (IPS/Envolverde)
*Com a colaboração de Katie Vandever, das Nações Unidas.

