Nações Unidas, 01/07/2008 – Quando se reunirem nos próximos dias no Japão, os chefes de Estado e de governo do Grupo dos Oito países mais poderosos não aceitarão um convite para visitar o Museu da Paz, na cidade de Hiroxima.
Emiko Okada, uma sobrevivente que hoje tem 71 anos, enviou cartas aos líderes do G8, integrado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia, pedido que visitem o museu de Hiroxima. “Somos as pessoas que podem lhes oferecer a melhor perspectiva sobre o horror das armas nucleares, pois sofremos seus efeitos. Muitos de nós sofremos muitas doenças nos últimos 62 anos e perdemos entes queridos por causa das explosões”, afirmou Okada, que escreveu em nome de outros sobreviventes. Mas, nenhum dos líderes do G8 tem intenção de fazer a visita.
Segundo a agencia de noticias japonesa Kyodo, os chefes de Estado e de governo de Alemanha, Estados Unidos e Grã-Bretanha responderam a carta de Okada, lamentando que a carregada agenda da cúpula os impedirá de ter o tempo necessário para viajar até Hiroxima. A única resposta solidária, segundo Kyodo, foi a de Helmut Hoffman, diretor da Divisão de Não-Proliferação e Controle de Armas Nucleares da Alemanha: “Sua carta é um chamado e um incentivo para que defendamos a visão de um mundo livre de armas nucleares”, disse Hoffman em nome de seu governo.
Em agosto, uma Declaração pela Paz adotada pela cidade de Hiroxima descreveu o dia 6 de agosto de 1945 como “o inferno na terra. Os olhos das meninas que olhavam o pára-quedas (que se formou no céu antes da explosão) derreteram. Seus rostos se transformaram em gigantescas bolhas calcinadas. A pele das pessoas que buscavam ajuda descolava de suas unhas”, diz o texto. O Japão, em aliança com a Alemanha nazista e a Itália fascista, entrou na guerra em 1941, como correlato de sua política expansionista baseada no conceito da superioridade racial, que já o levara a invadir a china em 1937 e arrasar a cidade de Xangai. Nos países que ocupou antes e durante o conflito, centenas de milhares de pessoas foram massacradas ou escravizadas e submetidas a “experiências cientificas”. Milhares de mulheres foram forçadas a satisfazer sexualmente as tropas invasoras. Muitos dos sobreviventes das explosões nucleares de 1945 ainda sofrem de leucemia, câncer de tireóide e outras doenças.
O prefeito de Hiroxima, Tadatoshi Akiba, disse no mês passado em uma conferência organizada pela Rede Global de Religiões para as Crianças, com sede em Tóquio, que sua cidade lidera uma proposta para livrar o mundo de armas nucleares até 2020. a instituição internacional Prefeitos pela Paz apresentou em abril o Protocolo de Hiroxima-Nagasaki, durante a reunião preparatória dos signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que aconteceu em Genebra.
O grupo de prefeitos cobrou dos diplomatas presentes à reunião que preparem uma “década decisiva em matéria de desarmamento nuclear. Agira de boa fé para eliminar estas atrozes e totalmente desnecessárias ameaças para nossa sobrevivência ou permitirão sua proliferação, muito provavelmente para que sejam usadas?”, perguntou Akiba. O prefeito de Hiroxima disse que se não for aceita a proposta de eliminar as armas nucleares até 2020 “serão parcialmente responsáveis pelo holocausto nuclear que sofreremos antes dessa data, e não tenho dúvida sobre isto. Faço uma exortação no sentido de não ser ignorada a seriedade e urgência desta decisão”.
O diretor-executivo do Comitê de Advogados sobre Política Nuclear, com sede em Nova York, John Burroughs, disse à IPS que a proposta ressalta “a necessidade de ação que ponha fim à atual dependência dos países mais poderosos em seus esforços nucleares como instrumentos centrais de suas políticas nacionais”. Mas, alertou, embora “exista maior vontade para promover medidas como a proibição de testes de armas nucleares ou as produção de materiais fissionáveis para a fabricação de armas, há poucos sinais de que os líderes das potências que têm essas armas assuma a tarefa de marginalizá-las e eliminá-las”.
Burroughs considera que existe apoio popular para eliminar as armas nucleares. Como representante de Prefeitos pela Paz disse que uma resolução pedindo o fim delas até 2020 foi aprovada na conferência anual de prefeitos dos Estados Unidos, que se reuniu entre 19 w 23 de junho na cidade de Miami. Nesse texto se pede ao governo norte-americano que “considere de forma urgente” um acordo como o Protocolo de Hiroxima-Nagasaki para cumprir a promessa da erradicação até 2020. Isto permitirá cumprir o mandato de 1996 do Tribunal Internacional de Justiça sobre “concluir as negociações que levem ao desarmamento nuclear em todos seus aspectos e sob um rígido e efetivo controle internacional”. Como parte da campanha, prefeitos de todo o mundo assinarão um Chamado das Cidades para promover o Protocolo de Hiroxima-Nagasaki. (IPS/Envolverde)


