SANTIAGO, 15/07/2008 – (Tierramérica) As eras psíquicas da humanidade têm correspondência com a dinâmica histórica de transformação da psique humana, desde sua concepção, passando pela infância, juventude, fase adulta e maturidade reflexiva, que se configura a cada instante pela maneira como se vive e como se entende a natureza.
Neste sentido, o processo da história evolutiva que deu origem aos seres humanos não foi diferente do de outros seres vivos, e, provavelmente, como estes, seguiu um curso definido, instante a instante, pelas preferências, pelos gostos e desejos e, ainda pelas vontades. Isto é, pelas configurações sensoriais-relacionais que um observador vê em um organismo como suas emoções.
Um ser humano flui normalmente em seu viver em um espaço de coerências estruturais sensoriais e relacionais no qual suas interações o orientam momento a momento ao bem-estar psíquico-corporal, embora também possa viver, transitoriamente, e às vezes por longo tempo, em espaços de mal-estar que, se não desaparecem, acabam com seu viver.
Se este ser humano é movido pela curiosidade, pode se perguntar “o que é o viver que morre?”, “como surge a existência?”, “qual é o ser de todas as coisas?”, ou se pergunta, quando tem uma dor fisiológica, “por que tenho esta doença tão longa e dolorosa”, ou faz reflexões sobre uma dor relacional como “sinto que não posso me comunicar com meus filhos”, “tudo que faço é em vão”, ou faz reflexões como “gosto de viver o que estou vivendo?”, “quero o querer que quero?”, “como se faz para recuperar o encanto da minha vida, a alegria, a paz, a harmonia que alguma vez senti?”.
Estas perguntas reflexivas abrem o olhar e expandem a consciência das coerências sistêmicas do nicho psíquico-relacional, que vai surgindo com o viver e que terão, segundo vivam, profundas conseqüências na antroposfera que habitamos e, por fim, na própria biosfera. A partir da reflexão em torno destas perguntas, propomos olhar a evolução do humano abstraindo o que, de sua história biológica-cultural, nos mostram as sensorialidades e emoções fundamentais que a guiaram.
Assim, falamos de eras psíquicas para evocar as configurações do emocional do viver cotidiano que, segundo nosso parecer, caracterizaram diferentes momentos da história humana como distintos espaços psíquicos ou distintos modos de habitar quando se deram, e, de onde se derem, todas as dimensões do conviver relacional. Propomos que esse conviver relacional foi vivido, em cada instante de cada era psíquica, como um presente em contínua mudança, no qual o fluir do emocional surgia do cenário histórico-operacional e filosófico-epistemiológico imperante.
O que dizemos com esta afirmação é que, em cada momento das epigêneses histórico-operacionais que configuram as distintas eras psíquicas da humanidade, o ser humano conservou diferentes desejos, teve distintos gostos e preferências cujo fundamento esteve determinado pelo habitar do presente que se vive. Assim, as distintas eras psíquicas da humanidade se correspondem, segundo nosso pensar, com a dinâmica histórica de transformação integral da psique humana, desde sua concepção, passando pela infância, juventude, fase adulta e maturidade reflexiva, que se configura a cada instante pela maneira como se vive, para onde se orienta e como se entende a natureza e o sentido do humano em sua pertinência à biosfera.
Na visão mítica, este transcorrer da vida humana, da concepção ao seu fim, ocorre como uma dinâmica recursiva, na qual a sabedoria da maturidade leva ao começo de uma nova história psíquica na geração seguinte, que pode ser mais desejável porque implica a possibilidade da repetição do ciclo, mas com um deslocamento ampliado da consciência em uma coerência maior com o mundo natural. O suceder das eras psíquicas da humanidade do qual falamos realiza um ciclo mítico e possibilita um espaço reflexivo que no fundo é conhecido e re-conhecido a partir do próprio viver no conviver.
Este suceder de eras psíquicas ocorre desde a era arcaica, na origem do humano, até era pós-pós-moderna, na qual se recupera a consciência e as ações à mão, perdidas no transcorrer histórico, da pertinência humana à biosfera, o cenário de existência no qual é possível e ocorre o humano. Recuperar esta consciência torna possível abrir e ampliar o olhar sistêmico recursivo, que é constitutivo do humano, como um ser vivo que pode refletir sobre seu próprio viver e os mundos que gera nesse viver.
Que a história psíquica do habitar humano possa ser evocada como uma dinâmica cíclica no fluir mítico do nascimento, morte e renascimento, para que ao falar do suceder das eras psíquicas possamos falar de um processo que volta ao início em uma transformação consciente da consciência de pertinência ao viver e conviver em coerências sistêmicas, abrindo, assim, o caminho de fazeres oportunos que se constituem em ponto de partida para um novo ciclo.
Esta dinâmica mítica cíclica é conhecida de todos em torno da preocupação pela morte, e tem diferentes expressões ao longo da história humana, a partir da consciência do caráter cíclico dos processos do viver e da biosfera em que se dá nosso viver. É por isto que nosso habitar humano voltará a viver este processo na história cada vez que houver uma mudança de consciência fundamental, como o que agora, neste presente pós-pós-moderno , estamos começando a viver… Se assim desejamos.
* * Os autores são fundadores do Instituto de Formação Matríztica. Maturana é um premiado biólogo chileno. Dávila é especialista em relações humanas e família. Direitos exclusivos Terramérica.


