ESPANHA: A ETA à beira do abismo

Madri, 24/07/2008 – A polícia espanhola colocou, na terça-feira, à beira do precipício a organização extremista ETA, com a prisão das nove pessoas que formavam seu grupo mais ativo, talvez o único que lhe restava após sofrer um golpe após outro. O ministro do Interior, Alfreedo Pérez Rubalcaba, informou aos jornalistas sobre a operação e disse que não podia assegurar que o grupo preso fosse o único remanescente, “mas, sei que era o mais ativo, dinâmico e procurado desde a ruptura da trégua” pela ETA, considerada terrorista pelo governo e pela justiça da Espanha. O ministro garantiu que o grupo é responsável por 80% a 90% dos atentados atribuídos à ETA desde que em junho de 2007 rompeu o cessar-fogo que havia declarado em março de 2006.

Desde o começo do ano passado assassinou três membros da Guarda Civil, corpo policial militarizado, e um vereador socialista, elevando para 823 as mortes causadas desde seu nascimento, há 40 anos. Desde janeiro de 2007, acrescentou o ministro, foram detidas 306 pessoas acusadas de integrarem a ETA. Mas, segundo fontes bascas ouvidas pela IPS, o grupo não tinha essa quantidade de membro “nem muito menos”, por isso a cifra de Rubalcaba pode ter incluído ativistas de seu braço político.

A importância destas detenções se refletiu nas declarações do líder da oposição, Mariano Rajov (centro-direita), que não vacilou em qualificar de “sucesso indiscutível” a operação policial. “Este é o caminho, a derrota da ETA com a lei, a polícia, a Guarda Civil, e com a colaboração internacional”, acrescentou o principal dirigente do Partido Popular. As palavras de Rajov permitem presumir que na reunião que manterá hoje com o primeiro-ministro, o socialista José Luis Rodrigues Zapatero, a ETA não estará na lista das discordâncias, como em ocasiões anteriores.

Fontes judiciais disseram à IPS que a operação foi fruto da investigação policial, mas, sobretudo, da realizada pelo juiz Baltasar Garzón, que supervisionou inclusive as detenções, viajando à cidade de Bilbao, no País Basco, uma das 17 comunidades autônomas da Espanha. Entre os presos se destaca Arkaitz Goikoetxea, considerado o chefe do grupo operacional e suposto número um da ETA – embora não haja provas policiais concludentes -, notório nos últimos anos por organizar atos de violência de rua, atividade que abandonou no começo de 2006 para se converter em um “liberado”, ou militante que vive de rendas.

Euskadi ta Ascatasuna (ETA-Pátria Basca e Liberdade, em basco) surgiu como grupo armado há 40 anos, levantando a bandeira da independência basca, quando a Espanha ainda era governada pelo ditador Francisco Franco (1939-1975). Suas ações letais diminuíram nos últimos tempos, já que desde o início de 2007, quando rompeu seu cessar-fogo, matou quatro pessoas. Em seu começo a ETA não recebia condenações unânimes dos setores que lutavam contra a ditadura. Pouco depois de se iniciar a transição democrática foi legalizado o Batasuna, o partido político sob cuja bandeira a ETA elegeu deputados tanto para o parlamento espanhol quanto para o do País Basco.

Nessa oportunidade a ETA se dividiu em dois grupos, um envolvido com a democratização, abandonou a violência e se voltou à política local, e outro prosseguiu a via armada. Hoje a lei a proíbe apresentar candidatos nas eleições espanholas, mas através da inscrição de forças políticas com outros nomes conseguiu fazer isso no País Basco, onde conta com um grupo parlamentar próprio. A política Leire Pajín, nova secretária de organização do governante Partido Socialista Operário Espanhol, disse à IPS que a união das forças democráticas fortalece muito a luta contra a ETA, com demonstra o golpe desferido terça-feira.

Se há algo para dizer “com voz clara e forte é que a única saída dos terroristas é acabar na prisão e que todo peso da lei caia sobre eles”, afirmou Pajín, que iniciou sua atividade pública adolescente, com ativista e depois presidente da organização não-governamental Solidariedade Internacional. O governo do País Basco, liderado pelo moderado Partido Nacionalista Basco (PNV), felicitou o Ministério do Interior e as forças de segurança, destacando que a ação “representa um duro golpe para a rede do grupo terrorista, evitando, assim, futuros atentados”.

O deputado do PNV, José Ramón Beloki, cobrou da ETA que deixe de matar e causar sofrimentos. Os presos preparavam novas ações violentas e com eles foram encontradas identidades falsas da Guarda Civil, além de cinco mapas de cidades espanholas e portuguesas, armas e explosivos, segundoRubalcaba. Goikoetxea, disse oministro, liderou os ataques do último ano a três quartéis da Guarda Civil e a uma delegacia da Policia Nacional.

A detenção do grupo foi possível graças ao encontro de um dos automóveis utilizados no atentado contra a casa-quartel de Legutiano, no País Basco, abandonado pelos etarras com uma lata de gasolina e um detonador que não chegou a explodir. No veiculo havia impressões digitais que permitiram orientar a investigação. A queima dos carros que utiliza, quase todos roubados, é uma técnica da ETA para não deixar pistas, que, neste caso, falhou. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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