Nações Unidas, 04/08/2008 – Quando o ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas Kofi Annan liderou uma mediação para acabar com o caos pós-eleitoral que deixou cerca de 300 mortos no Quênia, demonstrou que a prevenção de conflitos dá mais dividendos do que a manutenção da paz. O sucesso de sua gestão, que evitou uma sangrenta guerra civil no começo deste ano, custou apenas US$ 208 mil, segundo seu sucessor na ONU, Ban Ki-moon. Ban recordou que a Corporação Rand, centro de estudos com sede nos Estados Unidos, calculou que os conflitos armados no mundo diminuíram 40% desde 1992.
Este fenômeno deve ser atribuído ao aumento dos esforços de manutenção e construção da paz e de prevenção de conflitos pelas Nações Unidas, disse Ban. Embora o orçamento anual de manutenção da paz da ONU tenha aumentando até chegar a US$ 7 bilhões, essa quantia ainda é pouca diante do bilhão de dólares que o mundo gasta em operações militares e compras de armas, destacou o secretário-geral. E essa quantia não inclui “os custos humanos maciços da guerra”, acrescentou.
A ONU supervisiona 20 operações de paz no planeta, com cerca de 110 mil soldados, disse esta semana à imprensa o subsecretário-geral da ONU para Operações de Manutenção da Paz, Jean-Marie Ghéhenno. Quando a missão das Nações Unidas e a União Africana em Darfur (Unamid) estiver em pleno funcionamento até o final deste ano o total de pacificadores aumentará para 136 mil. Guéhenno também destacou elementos-chave para a manutenção da paz que fogem ao controle do Departamento de Operações de Manutenção da Paz da ONU, entre eles a vontade dos grupos em luta para dar passos rumo à pacificação duradoura.
Também destacou o grau de compromisso e unidade atingido na matéria pelos 192 países que integram a ONU, especialmente pelos 15 representados no Conselho de Segurança. Nos casos em que o Conselho se mostra dividido, como no do Sudão, surgem resoluções débeis, explicou. Mas, “quando o Conselho de Segurança está verdadeiramente unido, é uma força formidável. A noção de que é possível impor a paz é errada. O que se pode fazer é dissuadir as partes, pois os que fazem a guerra são os que têm de fazer a paz”, afirmou.
Apesar dos riscos, das complexidades e sensibilidades políticas no terreno, as operações de paz da ONU são hoje uma das principais funções desse fórum mundial, acrescentou. Mas, ainda é preciso mais apoio financeiro e político dos países que o integram. “Em vários lugares, como Libéria, Haiti e Serra Leoa a ONU fez uma diferença. É importante que possa continuar marcando-a, porque para muitos essa é a única esperança, e as Nações Unidas são o último recurso”, disse Guéhenno. Desde junho deste ano, a força total da Unamid foi de apenas 11.359 soldados, bem abaixo dos 26 mil previstos.
Ban disse no mês passado ao Conselho de Segurança que o envio de tropas para Darfur foi “substancialmente atrasado” devido a vários fatores, entre eles a contínua insegurança no Sudão e o ritmo lento dos preparativos de envio. Além disso, culpou a falta do equipamento necessário para incorporar batalhões de infantaria à missão aos critérios de financiamento e ao tamanho da ONU, bem como a dificuldades de transporte e fornecimento no terreno. Por outro lado, a empresa privada que fornece alojamento e infra-estrutura à Unamid “está atrasada e não trabalha como se esperava”, disse Ban.
Segundo Guéhenno, a crise no Sudão deve evoluir significativamente para um acordo de paz solidamente apoiado. “Se isso falhar, nem mesmo uma força de paz reforçada será capaz de atender as expectativas nela depositadas. De certo modo me causa indignação estarmos ali, querendo marcar uma diferença mas sem os recursos necessários”, afirmou. (IPS/Envolverde)

