JOGOS OLÍMPICOS: China pede que política seja deixada de fora

Pequim, 04/08/2008 – O presidente da China e secretário-geral do Partido Comunista, Hu Jintao, pediu que não se politize os Jogos Olímpicos, que começarão em Pequim na próxima sexta-feira. As crescentes críticas internacionais pelas extremas medidas de segurança e pelos limites à liberdade de expressão impostos semanas antes do começo dos Jogos parecem ter sido o fator que levou à intervenção de Hu. Em uma nada comum entrevista coletiva com correspondentes estrangeiros, convocada na sexta-feira, o líder chinês também criou expectativas sobre mudanças induzidas pelos Jogos Olímpicos, prometeu uma série de reformas econômicas e políticas para ajudar a concretizar os sonhos de seu povo de “um renascimento nacional”.

Hu, que promoveu um modelo de “harmonia social”, empregou um tom conciliador ao se referir às críticas internacionais pelo histórico de direitos humanos na China em temas como liberdade de expressão, a situação no Tibet e seu apoio ao governo do Sudão, acusado de cometer genocídio na convulsionada região ocidental de Darfur. “É inevitável que pessoas de diferentes países e regiões não coincidam entre si em diversos temas”, afirmou. Além disso, disse que politizar os Jogos contraria o espírito olímpico e as esperanças compartilhadas pelos povos de todo o mundo.

“Devemos iniciar consultas em pé de igualdade para reduzir nossas diferenças e expandir nossas coincidências com base no respeito mútuo”, acrescentou Hu. Mas, seu tom conciliador contrasta com a dura rejeição por Pequim às criticas que recebeu nos últimos dias, depois que a Câmara de Representantes dos Estados Unidos aprovou uma resolução pedindo urgência à China no sentido de honrar suas promessas de melhorar a situação em matéria de direitos humanos antes dos Jogos.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Liu Jianchao, condenou a resolução norte-americana, qualificando-a de “odiosa”. Também disse que Washington deveria deixar de “usar os assim chamados temas religiosos e de direitos humanos para se voltar a pontos políticos”. A resolução dos legisladores dos Estados Unidos, aprovada na quarta-feira passada por 419 votos contra um, cobra da China o “fim imediato dos abusos contra os direitos humanos de seus habitantes, o fim da repressão dos cidadãos tibetanos e de origem uygur, e suspenda seu apoio aos governos da Birmânia e do Sudão”.

Essas medidas “garantirão que os Jogos Olímpicos de Pequim acontecerão em um clima que honre as tradições olímpicas de liberdade e abertura”, acrescentou o texto. Os legisladores norte-americanos também pediram ao presidente George W. Bush que se pronuncie firmemente sobre a situação dos direitos humanos durante a visita que realizará a Pequim para assistir a cerimônia de abertura dos jogos. O chamado se deu um dia depois de uma reunião entre Bush com cinco destacados dissidentes chineses, na Casa Branca. Harry Wu, Wei Jingsheng, Rebiya Kadeer, Sasha Gong e Bob Fu criticam sistematicamente há muito tempo as violações dos direitos humanos por parte do governo e seu país.

Liu descreveu o encontro como uma “grosseira interferência” nos assuntos internos da China e criticou os “comentários irresponsáveis sobre a situação religiosa e de direitos humanos” feitas nele. A dura troca de declarações coincidiu com uma intensificação do exame sobre a forma com que o governo chinês trata os cidadãos e as imprensa que viajou para cobrir os Jogos Olímpicos.

Como anfitriã, a China se comprometeu a realizar uma série de reformas em seu fechado sistema político, para garantir a liberdade de expressão e o acesso irrestrito à informação durante os Jogos. Em 2001, quando Pequim foi escolhida como sede, o secretário-geral do Comitê Olímpico chinês, Wang Wei, disse que “daremos aos meios de comunicação completa liberdade para informar. Temos a esperança de que os Jogos não beneficiem apenas nossa economia, mas que também melhorem as condições sociais, incluindo os direitos humanos”.

Mas, às vésperas de seu início, as draconianas medidas de segurança amordaçam tanto os jornalistas quanto os críticos do governo. Ativistas pelos direitos humanos receberam a advertência de não falarem com os jornalistas estrangeiros, e pessoas consideradas “problemáticas” foram levadas para fora da capital. “Infelizmente, estas medidas recordam as adotadas pela polícia soviética durante as Olimpíadas de 1980, quando os dissidentes foram forçados a abandonar Moscou”, disse na sexta-feira a organização Repórteres Sem Fronteiras, dedicada ao fomento da liberdade de expressão.

O crescente enfrentamento entre os organizadores do Jogos e os jornalistas estrangeiros foi parcialmente desativado na sexta-feira, quando alguns sites foram desbloqueados desde os centros de imprensa. Entre os vedados estava o da organização de direitos humanos Anistia Internacional. A promessa das autoridades de permitir protestos em áreas da capital reservadas para esse fim também está sob atento exame, depois que na semana passada foram rejeitados vários pedidos para realização de demonstrações públicas.

Os cidadãos chineses têm o direito legal de protestar, e para isso devem pedir autorização do Escritório de Segurança Pública, mas a autorização quase nunca é concedida. Quando realizam algumas, habitualmente o fazem sem consentimento oficial. Ativistas pelos direitos humanos expressaram sua preocupação sobre essas áreas especiais para manifestações apenas serem uma manobra de relações públicas sem nenhuma função real. Meios de comunicação de Hong Kong informaram que a tentativa de proprietários de terras da cidade de Suzhou em obter autorização para a realização de um protesto foi frustrada em Pequim e terem recebido ordens de retornarem.

Na entrevista, Hu prometeu que audazes reformas políticas serão divulgadas coincidindo com a atenção internacional voltada para a China neste momento e que essas mudanças, tanto políticas quanto econômicas, continuarão uma vez encerrados os Jogos Olímpicos. “O sonho do povo chinês é acelerar a construção de um país moderno e concretizar o grande renascimento da nação chinesa”, acrescentou Hu. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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