SOMÁLIA: A Fome Aproxima-se Enquanto Trabalhadores Humanitários Fogem

NAIRÓBI, 25/08/2008 – Até Dezembro deste ano, as agências de ajuda humanitária calculam que o número de deslocados e famintos que precisa de ajuda humanitária na Somália aumente para 3 milhões e meio — quase metade da população do país. No entanto, à medida que a seca e os conflitos pioram a crise, já quase desapareceu o espaço em que as organizações humanitárias procedem à distribuição de produtos alimentares e outro tipo de auxílio essencial nesta zona em conflito. “No mar, os navios que transportam a ajuda enfrentam a ameaça da pirataria, em terra (os trabalhadores humanitários enfrentam) assaltos à mão armada e raptos,” diz Abdullahi Musse, somali que trabalha para uma organização humanitária internacional. “Depois, ao chegarmos aos nossos armazéns mas também aos beneficiários, os camiões não podem avançar sem escoltas de segurança e têm de passar por inúmeros pontos de controlo que não podem ser atravessados sem se pagar uma 'taxa' a uma variedade de grupos armados.

“É uma actividade de alto risco com garantias mínimas de segurança,” afirma Musse.

Nos últimos meses, até isto se tornou quase impossível. Só este ano, 20 trabalhadores humanitários, incluindo estrangeiros, foram mortos. Dezassete trabalhadores humanitários foram libertados depois de terem sido raptados com vista ao pagamento de resgate, ao passo que outros 13 continuam em cativeiro.

Todos os trabalhadores humanitários internacionais e o pessoal das Nações Unidas foram forçados a sair do país devido às lutas contínuas entre os grupos islamitas rebeldes e as forças do Governo de Transição Federal (TFG) apoiado por tropas etíopes. Ambos os lados acusam o outro de atacar os trabalhadores humanitários e prometem protegê-los. Acrescente-se a isto as redes profissionais dedicadas ao rapto, encorajadas pelos vultuosos resgates pagos por estrangeiros para libertarem os navios capturados por piratas.

As agências das Nações Unidas e nove organizações internacionais ainda mantêm a sua presença em Mogadíscio, mas confiam exlusivamente no pessoal local. Musse disse à IPS por via telefónica de Mogadíscio que também os trabalhadores somalis estão agora a ser visados e que a ajuda humanitária está completamente suspensa.

Existem 250 campos informais de deslocados em Mogadíscio e mais 200 ao longo da estrada em Afogye. As Nações Unidas indicaram que até Junho mais de 857.000 pessoas tinham sido deslocadas de Mogadíscio e que dependiam da ajuda internacional. Outras regiões agrícolas na zona sul e central da Somália, o principal palco do conflito, não têm tido chuva esta estação, sendo grande a escassez de bens alimentares.

“Uma das razões pelas quais muitas pessoas fugiram de Mogadíscio e estabeleceram campos em Afgoye (a 45 quilómetros da capital) é o facto de ser mais acessível aos trabalhadores humanitários do que a própria cidade,” afirma. “Muitas famílias dividiram-se para obter a ajuda que não conseguiam em Mogadíscio. Nas últimas duas semanas, as pessoas nos campos no corredor de Afgoye também têm protestado, frustradas pela ausência de ajuda humanitária.”

Se não for possível aumentar a distribuição de produtos alimentares em quantidade suficiente e outro tipo de ajuda humanitária nos próximos meses, a Oxfam International antevê a possibilidade de haver fome grave: “Se persistirem estas condições e as agências de ajuda humanitária não conseguirem prestar um auxílio adequado, então a situação poderá transformar-se em fome em diversas regiões da Somália no fim do ano.”

Num discurso proferido no Conselho de Segurança no dia 23 de Julho, o representante especial do Secretário-Geral para a Somália, Ahmed Ould-Abdalla, apelou à formação de escoltas navais internacionais para acompanharem os navios de transporte de ajuda humanitária do Programa Alimentar Mundial e mais segurança para os trabalhadores humanitários.

“Eu tenho pena dos cidadãos somalis que constituem mais de 95 por cento dos trabalhadores humanitários no sul e no centro da Somália. Arriscam as vidas todos os dias e muitas vezes são as vítimas inocentes de assassinatos específicos,” disse Abdalla ao Conselho de Segurança.

Impasse Político

Infelizmente, este sentimento de urgência no sector humanitário não corresponde aos acontecimentos na área política. Com a ajuda das forças etíopes, o TFG controla algumas cidades no sul e no centro do país, ao passo que uma variedade de grupos islâmicos continua o seu domínio sobre a maior parte do país. (As regiões da Puntlândia e da Somalilândia no norte e noroeste da Somália reivindicam um estatuto autónomo.)

O acordo de paz mediado pelas Nações Unidas em Djibouti entre o Governo de Transição Federal (TFG) e os dirigentes da União dos Tribunais Islâmicos dividiu o UIC. As facções islâmicas radicais rejeitam o acordo e aumentaram os ataques a sul e no centro do país.

Os tribunais islâmicos estão agora divididos em dois grupos principais: o grupo de Djibouti chefiado por Sheikh Sharif, signatário do acordo de paz com o TFG, e o grupo de Asmara sediado na Eritreia e chefiado por Hasan Dahir Aweys, veterano da guerra no Afeganistão, procurado pelos Estados Unidos sob a acusação de terrorismo pelas suas alegadas ligações à al-Qaeda.

“É difícil dizer que controlo estes dois grupos têm sobre Al-Shabab, um grupo que também se encontra na lista de terroristas dos Estados Unidos, e outros grupos rebeldes de 'mujaheddin' (guerreiros santos), que têm travado uma guerra com o objectivo de expulsar as forças etíopes da Somália,” refere Bashir Awale, jornalista da rádio sediado em Mogadíscio. Bashir afirma que muitos grupos anteriormente desconhecidos com nomes islâmicos recentemente proferiram ameaças contra os trabalhadores humanitários. “Mas as forças do TFG são igualmente culpáveis de desencorajar a ajuda humanitária,” aponta Bashir, que refere o facto de haver quatro pontos de controlo do TFG em poucos quilómetros de Mogadíscio até Afgoye, havendo dezenas mais na cidade.

Dada a natureza volátil e complexa do conflito, o representante especial das Nações Unidas procura obter uma força internacional de manutenção da paz para estabilizar o país e oferecer protecção às operações humanitárias. Ould-Abdalla acredita que no “actual contexto político favorável após o Acordo de Djibouti, chegou a altura para o Conselho de Segurança tomar uma acção ousada, decisiva e rápida.”

No entanto, quando lhe perguntaram se os Estados Unidos estariam dispostos a liderar uma coligação de países na Somália para implementar o acordo de paz, o Embaixador americano nas Nações Unidas, Zalmay Khalilzad, declarou: “Bem, sabem que estamos muito ocupados, em primeiro lugar. Em segundo lugar, há sempre problemas com a liderança de uma coligação por parte dos Estados Unidos…”

Culpando os grupos relacionados com a al-Qaeda pelos ataques aos trabalhadores humanitários, Khalilzad não concordou apelar ao Conselho de Segurança que tome providências. Adiantou que não será discutido qualquer plano para uma força de manutenção da paz antes do dia 15 de Agosto, altura em que se prevê que o Secretariado do Conselho de Segurança apresente um plano para o futuro da Somália. Uma força de manutenção da paz com um forte mandato poderá levar meses.

“A Somália continua a ser o lugar mais perigoso do mundo para os trabalhadores humanitários,” declara Abdullahi Musse, “mas, no entanto, as suas populações são as mais desesperadas em termos de auxílio humanitário. A resolução deste dilema exige a intervenção internacional imparcial e imediata, hoje.”

Najum Mushtaq

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