México, 06/08/2008 – É preciso avaliar a arquitetura global de resposta à pandemia de Aids, avançar em estudos de incidência do vírus que causa essa doença e aplicar estratégias efetivas de prevenção, afirmaram especialistas durante a XVII Conferência Internacional sobre Aids, aberta domingo no México. Deu frutos a extraordinária movimentação de recursos e pessoas em torno da pandemia de HIV (vírus da deficiência imunológica humana) causador da Aids, mas é necessário renovar esforços para continuar combatendo a doença, disse o medico mexicano Jaime Sepúlveda, um dos oradores da primeira sessão plenária denominada “O estado da epidemia”.
Segundo o último informe do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida), 33 milhões de pessoas viviam com o vírus em todo o mundo em 2007, com dois milhões de mortes vinculadas à aids no mesmo período. Sepúlveda recordou, ainda, que no ano passado três milhões de soropositivos de países com renda média e baixa receberam tratamento anti-retroviral (31% das pessoas que dele precisavam), mas que ao mesmo tempo foram registrados 2,7 milhões de novos casos de infecção com HIV. As mulheres representam metade dos que vivem com o vírus em todo o mundo, e a África subsaariana concentra mais de 60% das infecções.
Qual é o estado da epidemia? “Os números estão crescendo, mas, mais devagar do que antes. Ainda há muitas novas infecções, porém, estão sendo freadas pelas ações e pelos esforços feitos em relação à Aids”, disse à IPS o doutor em ciências Geoff Garnett, da Grã-Bretanha, um dos expositores da conferência. Entretanto, há grandes problemas para medir a incidência da enfermidade, isto é, as novas infecções que surgem pro ano, o que dificulta o conhecimento do grau de efetividade das estratégias de prevenção adotadas até agora, destacou Garnett, do Colégio Imperial de Londres. Além do mais, “não fazemos o suficiente para avaliar as variáveis sociais, estruturais e biológicas” imersas nas condutas de risco, acrescentou.
É preciso mais financiamento para a pesquisa científica e a realização de avaliações sobre tratamento e prevenção, disse Sepúlveda, que trabalha na Fundação Bill & Melinda Gates. “O que funciona? Em quais populações?”, perguntou Sepúlveda, fundador do Conselho Nacional para a Prevenção e o Controle da Aids no México. É necessário ampliar as “intervenções de prevenção combinadas”, aquelas que incluem acesso a terapias anti-retrovirais, circuncisão masculina a e integração do HIV com o planejamento familiar, entre outras, afirmou. O especialista também falou da necessidade de reformar as instituições que fornecem dinheiro para o combate da doença e as exortou a “trabalharem como uma equipe”, entre elas; a Onusida; o Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malaria; o Banco Mundial e o Plano Presidencial de Emergência para o Alivio da Aids (dos Estados Unidos).
No domingo, a sessão inaugural da XVII Conferência Internacional sobre Aids, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu aos países doadores que aumentem os fundos destinados à luta contra a doença para conseguir antes de 2010 o acesso universal à prevenção, aos cuidados médicos e ao tratamento. Mas a maioria dos especialistas considera que não serão atingidas essas metas, fixadas na Sessão Especial da Assembléia Geral da ONU sobre HIV/Aids em 2001. “Para dar resposta ao HIV e à Aids é preciso um financiamento sustentado e de longo prazo. Na medida em que aumenta o número de pessoas submetidas a tratamento e que, em conseqüência, vivem mais anos, os orçamentos terão de aumentar de maneira considerável nos países nas próximas décadas”, alertou Ban.
O médico Alex Coutinho, do Instituto de Doenças Infecciosas da Universidade de Makerere (Uganda), pediu programas para enfrentar a pandemia em zonas rurais e de difícil acesso e apoio a populações determinadas, como os migrantes. Também pediu a abertura de maiores espaços de participação para as pessoas com HIV a fim de serem geradoras de mudança, e se referiu às crianças que ficam órfãs por causa da Aids. “A melhor forma de apoiar essas crianças é manter seus país com vida”, disse na sessão plenária. A jovem Elisabet Fadul, da Rede Dominicana pelos Direitos da Juventude, recordou que 40% das novas transmissões ocorrem em todo o mundo entre pessoas com idades entre 15 e 24 anos. Por isso são necessários planos de saúde sexual baseados na evidência, com participação ativa dos adolescentes e que tenham em consideração a pobreza e a falta de emprego que os afetam. “As atuais estratégias de prevenção são efetivas? Estão baseadas em evidências?”, perguntou. Fadul felicitou os ministros de Educação e Saúde de 33 países latino-americanos e caribenhos, que no dia 1º deste mês acordaram na capital mexicana estratégias intersetoriais de “educação integral em sexualidade e promoção da saúde sexual”. Mas, pediu para não ficarem na retórica.
Até sexta-feira próxima, mais de 20 mil delegados de 188 países, entre especialistas, autoridades, doadores, ativistas e portadores de HIV discutirão sobre os avanços científicos, os desafios na área da prevenção e os recursos financeiros destinados à luta contra a pandemia, bem como o desafio do estigma e da discriminação persistentes, entre outros temas. (IPS/Envolverde)

