Manaus, 04/08/2008 – O Centro Internacional Terramérica de Desenvolvimento Sustentável e Defesa do Meio Ambiente realizou sua assembléia de fundação na última quinta-feira (31/07) em Manaus, coração da Amazônia brasileira, durante seminário para discutir os grandes desafios ambientais do mundo.
A assembléia aprovou por aclamação a proposta de que o Conselho Consultivo seja presidido por Marina Silva, Mariano Arana y Yolanda Kakabadse, ex ministros de Ambiente do Brasil, Uruguai e Equador, respectivamente. O projeto Terramérica é executado pela agência internacional de notícias IPS (Inter Press Service), com patrocínio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e do Banco Mundial. Representantes destas quatro entidades foram convocados pela assembléia do Centro Terramérica para participarem de seu Conselho Deliberativo, do qual também farão parte personalidades brasileiras e latino-americanas.
Com a criação do Centro, agora a informação se soma à pesquisa e à formação para “capturar a inteligência latino-americana” no diálogo entre intelectuais, jornalismo, organismos internacionais e a sociedade a favor do desenvolvimento sustentável, resumiu Mario Lubetkin, diretor-geral da IPS. Trata-se de “um novo salto qualitativo” do Terramérica, que começou há 13 anos com certa precariedade, mas logo ganhou “profissionalismo”, regularidade e um amplo alcance, e cuja contribuição para a sustentabilidade foi reconhecida este ano pelo Prêmio Internacional Zayed, concedido pelo governo do Emirados Árabes Unidos, recordou Ricardo Sánchez, diretor regional do Pnuma para a América Latina.
Terramérica “amplia a sustentabilidade política e ética” do desenvolvimento, que deve se basear no “encontro do melhor da tradição e da modernidade”, combinando “dois saberes”, o científico e o das populações tradicionais, afirmou a senadora Marina Silva em um vídeo no qual justificou sua impossibilidade de participar do ato. A América Latina deve reduzir os custos ambientais de sua economia, que cresce com o “uso intensivo de recursos naturais”, destacou Sánchez ao falar no seminário “Mudança climática, crise energética e alimentar, desafios ao desenvolvimento sustentável”, realizado quinta-feira e sexta-feira na sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
Esse custo é de 10% do produto interno bruto no México, país que exporta principalmente produtos industrializados – uma exceção regional – graças ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte, o que indica que o capital natural é gasto mais intensamente nos demais países latino-americanos, afirmou Sánchez. A eficiência energética, que somente aumentou 2% nos últimos 30 anos na América Latina, em comparação com 30% nos países em desenvolvimento, é o grande desafio da região, destacou o diretor do Pnuma.
O Estado do Amazonas assumiu a “vanguarda em questões ambientais’, ao aprovar no ano passado uma lei sobre mudança climática, a primeira do Brasil, estabelecendo um contexto legal e políticas para enfrentar o problema, disse Nadia Dávila Ferreira, secretária estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS). A questão climática será parte do ensino básico em todo o Estado, afirmou, após expressar seu desejo e o de seu governo de que o Centro Terramérica tenha sede em Manaus.
O Amazonas também inaugurou um mecanismo de remuneração por serviços ambientais através da Bolsa Floresta e reduziu o desmatamento de 1.582 quilômetros quadrados em 2002-2003 para ouço mais de um terço em 2006-2007, enquanto sua economia cresceu 9% ao ano, disse Virgilio Viana, ex-titular da SDS. As florestas amazônicas constituem uma “bomba biótica” que “reprocessa a água” e envia umidade para o sul as Américas do Sul e do Norte e para a Europa, portanto, sua preservação interessa a todo mundo, destacou Viana, hoje diretor-geral da Fundação Amazonas Sustentável, que realiza programas do governo estadual.
O desmatamento não se deve a “um ato de estupidez, mas de inteligência”, responde à lógica econômica e a estímulos de políticas indutoras, tanto do grande agronegócio da pecuária e da soja quanto de pequenos agricultores e comunidades tradicionais, cujo impacto individual é menor, mas, não se trata de milhões, acrescentou Viana. A tarefa do Centro Terramérica será conseguir “que a sociedade tenha mais informação sobre mudança climática e suas soluções de sucesso existentes, como fontes de inspiração”, concluiu.
O Amazonas conserva 98% de suas florestas e conta com um distrito industrial que produz US$ 26 bilhões e gera mais de cem mil empregos diretos em Manaus, destacou Flávia Grosso, anfitriã do seminário como superintendente da Suframa, que patrocina “projetos demonstrativos” para a industrialização de frutos da biodiversidade amazônica. A implantação em Manaus de muitas indústrias, especialmente eletrônicas, favorecida por estímulos fiscais desde a década de 60, foi decisiva para a forte expansão da cidade, que já tem 1,7 milhão de habitantes. A concentração econômica e populacional na capital é um dos fatores da preservação florestal no Estado.
Ao fim do primeiro dia do seminário, conduzido por Carlos Tibúrcio, assessor da Secretaria Geral da Presidência do Brasil, foi realizado o ato de fundação do Centro Terramérica, que ficou aberto para a adesão de novos sócios, além dos 24 iniciais, e elegeu uma direção provisória. Seu presidente interino é Tadao Takahashi, engenheiro especialista em planejamento estratégico que deu forma à Internet no Brasil, como funcionário do governo nos anos 90. A entidade nasce associada ao Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, que leva o nome do principal economista brasileiro. (IPS/Envolverde)


