Lisboa, 13/08/2008 – A morte de um brasileiro e os graves ferimentos causados em seu companheiro, também brasileiro, por atiradores de elite da política portuguesa na repressão a um assalto a banco, na semana passada, desencadeou uma polêmica com ingredientes a favor e contra a imigração. Os dois homens, de 35 e 23 anos, ao verem frustrado o assalto ao banco, optaram por fazer reféns, que mantiveram por oito horas, em um ato desesperado em busca de uma via de fuga.
Durante os 20 minutos finais antes do trágico desenlace, ambos apareceram na porta do banco para mostrar suas pistolas apontadas para a cabeça dos reféns, que eram um cliente e uma funcionária do Banco do Espírito Santo (BES). Em um momento de descuido dos assaltantes, os atiradores de elite da Polícia de Segurança Pública (PSP) abriram fogo, matando o brasileiro mais velho com um disparo certeiro na cabeça e ferindo gravemente no peito o mais jovem, que está entre a vida e a morte em um hospital de Lisboa.
Da operação, transmitida ao vivo pelos três canais de televisão, participaram cerca de 120 policiais e estima-se que foi a transmissão de maior audiência dos últimos cinco anos, desatando uma polêmica de resultados imprevisíveis. As maiores críticas à “nova criminalidade”, levadas a Portugal supostamente por cidadãos do maior país de língua portuguesa do mundo, foram proferidas por Francisco da Moita Flores, ex-inspetor-chefe da Policia Judiciária (PJ) e atual prefeito de Santarém, cem quilômetros ao norte de Lisboa, uma das principais cidades do país.
Segundo Flores, a operação policial “acabou mal, mas, acabou bem, porque ganharam os bons e apenas um dos maus morreu” em uma ação que descreve como de “sintomas de grande criminalidade, sintomas perigosos”. O ex-policial, que também é professor de criminologia em uma universidade local, afirmou que “este tipo de criminalidade está aparecendo em Portugal e chegou para ficar”. Mas, as opiniões de Flores divulgadas por um canal de televisão privado foram repudiadas por especialistas e através de cartas de leitores e telespectadores.
Em declarações ao jornal Público, de Lisboa, a sociólogo Hugo Seabra recorda que “os estrangeiros estão ajudando o crescimento do país, mas o que vende são as noticias sobre a participação de imigrantes em crimes”. O jornal publicou ontem um estudo de Seabra e Tiago Santos, no qual se demonstra que, em termos proporcionais à população nacional e à quantidade de imigrantes, “a criminalidade dos estrangeiros é igual à dos portugueses”. Em 2005, os dois sociólogos calcularam os índices brutos de criminalidade, de 11 condenações em cada mil portugueses, é exatamente igual ao de idêntico número de estrangeiros, levando em conta o mesmo sexo (masculino), idade e condições de trabalho. “A maior criminalidade dos estrangeiros frente aos portugueses se revela, assim, uma mentira”, concluem os sociólogos, desvirtuando o suposto rigor acadêmico de Moita Flores.
Na longa vigília do assalto, os repórteres de rádio e televisão no local registraram frases de alto teor nacionalista, tais como “matem todos, matem esses brazucas”, termo depreciativo para se referir aos brasileiros, equivalente a “sudacas”, a maneira xenófoba usada na Espanha para se referir aos imigrantes latino-americanos. Na rua, na Internet e nos debates abertos nos meios de comunicação audiovisuais, a menção à nacionalidade dos assaltantes dominou os comentários, com muitas mensagens de ódio e racistas, em uma clara tentativa de associar criminalidade e imigração.
O pesquisador do Centro de Estudos Geográficos, Jorge Macaísta Malheiros, citado pelo jornal, estima que os três casos criminosos mais citados pela imprensa envolve minorias étnicas ou estrangeiros: caboverdianos, brasileiros e ciganos, que mereceram as primeiras páginas e as manchetes dos noticiários. “São fenômenos pontuais que ganham grande visibilidade” e que acabam evidenciando “manifestações encobertas de racismo”, diz o pesquisador. Mas, a julgar pela reação dos telespectadores do programa de televisão com Moita Flores, muitos portugueses não compartilham sua visão.
A maior quantidade dos portugueses que se manifestaram nos fóruns públicos compartilham a opinião de Eliana Bibas, presidente da Casa do Brasil, que afirmou que a imensa maioria da comunidade residente, calculada em cerca de 120 mil imigrantes, entre ilegais e legais, não se identifica com o assalto. Bibas insiste em afirmar que se trata de um caso isolado, mas admite que “este fenômeno negativo pode ter mais repercussão do que todas as questões positivas e todos os benefícios que os brasileiros trouxeram para Portugal”.
O telespectador Daniel de Oliveira, em mensagem enviada ao canal privado de TV Sociedade Independente de Comunicações (SIC) critica o ex-inspetor da Policia Judiciária, a quem qualifica de “especialista em especulação criminal e prefeito nas horas vagas”, por ter chamado a atenção sobre a nacionalidade dos seqüestradores. Oliveira fustiga o prefeito “quando optou por teorizar, ao afirmar que estes crimes estão associados a estrangeiros, porque eles vêm de uma cultura diferente da nossa, muito mais violenta”.
“Diferente da nossa? E as inúmeras declarações de identidade histórica, lingüística e cultural entre Portugal e Brasil por parte dos mais altos dirigentes políticos dos dois lados do Atlântico não passam de pura demagogia?”, disse à IPS Eduardo Tavares de Lima, ex-presidente da Assembléia Geral da Casa do Brasil em Lisboa. A cronologia dos seqüestros nos últimos anos em Portugal demonstra que nos casos anteriores “eram quase todos portugueses, apenas ninguém se lembrou, naturalmente, de mencionar sua nacionalidade”, afirmou por sua vez, ironicamente, Oliveira.
Outro telespectador que se identificou apenas como português disse que as afirmações do prefeito “já começam a produzir efeitos devastadores aqui em meu bairro”, devido ao teor de seu discurso “no qual se reconhece características fascistas”. E acrescenta: “você, sabendo disto, deveria pagar por cada barbaridade dita, porque este tipo de jornalismo de investigação criminal” promove a instigação das pessoas por meio da agitação social. É evidente que, a respeito do ocorrido no BES, estamos todos de acordo em repudiar este tipo de assalto, realizado por brasileiros, como poder ter sido realizado por ucranianos e, perdoe doutor Moita Flores, poderiam ter sido portugueses”.
Outro telespectador, que se identifica como não sendo português mas “tuga” (equivalente nacional a brazuca), pede ao ex-policial que não esqueça que os “imigrantes portugueses são os mais antigos, com 500 anos”. Ao consultar a opiniao de duas trabalhadoras brasileiras, a IPS constatou opiniões diametralmente opostas. “Estamos em uma terra que não é a nossa, mas quando enfrentamos dificuldades econômicas é preciso tentar resolvê-las da melhor maneira possível, sem recorrer à delinqüência”, disse Solange Dias, moradora em Portugal desde 2001 e hoje funcionaria do escritório de informática Articopy, de São João do Estoril, no distrito de Lisboa.
A forma como os assaltantes brasileiros atuaram “é horrível, pondo em perigo a vida de dois inocentes, ameaçando matá-los mesmo quando viram que tudo estava perdido e que não havia outra saída a não ser se entregarem”, disse Solange, procedente de São Paulo. A PSP, como “qualquer outra policia em qualquer país do mundo, fez o que se faz nestes casos, que é proteger a vida dos reféns acima da vida dos criminosos”, concluiu.
Opinião divergente tem Luciane Gonçalvez, que trabalha na “A Casa do Café” a poucos metros de distância de onde trabalha Solange, e que há seis anos chegou a Portugal, procedente do Recife. “Eles não eram assaltantes profissionais, que queriam dinheiro fácil, mas, por outro lado, só o que conseguiram foi um morrer e outro ficar ferido”, disse Luciane, que condena o ato desesperado, mas também condena a PSP, “porque há outros métodos, que deveriam ser esgotados antes de disparar contra eles, como se fossem animais”. Solange e Luciane concordam que o caso afetará mais do que ninguém os imigrantes brasileiros, embora ambas afirmem que desde o assalto ao BES nada mudou e continuam sendo bem tratadas pelos portugueses. (IPS/Envolverde)

