Hong Kong, 13/08/2008 – Enquanto o mundo está ligado nos Jogos Olímpicos de Pequim, os habitantes de Hong Kong, a ex-colônia britânica sobre a qual a China recuperou o controle em 1997, manifestam notável indiferença. “Não sou o dono deste táxi, apenas dirijo”, esclarece rapidamente Lee Tam, o motorista. O interior do automóvel está repleto de adesivos com a imagem dos Fuwa (crianças da boa sorte), os cinco mascotes dos Jogos (Beibei, Jingjing, Huanhuan, Yigying e Nini), que provocaram muitas piadas na China e no exterior.
Lee, que há mais de uma década trabalha como motorista de táxi meio período, não se mostra impressionado com a movimentação esportiva, da mídia, de relações públicas e política no território continental. “Hong Kong não está realmente envolvida”, afirmou. Este é um ponto de vista comum nesta cidade autônoma, que recebeu o status de região administrativa especial quando foi reincorporada à China. Um jovem programador gráfico descreveu o papel de Hong Kong nos Jogos Olímpicos mais como o de um subordinado do que de um sócio ou participante real.
A cidade recebe as provas hípicas, fundamentalmente devido a um foco de enfermidades eqüinas em território continental e pela falta de instalações adequadas para manter os animais em quarentena ali. Por outro lado, Hong Kong tem uma vibrante cultura eqüestre, herança dos britânicos. Mas, além dos grandes brilhantes cartazes onde se vê a equipe de esportes hípicos de Hong Kong montada em seus cavalos, o interesse do público até agora tem sido escasso. As imagens dos mascotes são comuns, mas sua presença não é esmagadora.
De fato, as pessoas se reúnem na Piazza Olímpica, no centro cultural de Hong Kong, onde um Fuwa em tamanho real distribui brindes. Mas o lugar, pensado para mostrar em gigantescas telas de plasma informação de sites da Internet sobre os Jogos e entretenimentos parece ser mais popular com os turistas estrangeiros do que entre os locais. O desinteresse inicial pode mudar se começarem a acumular as medalhas olímpicas para a China. “Acho que as pessoas de Hong Kong estão indiferentes”, afirmou Nikki Lau, de 28 anos, uma tradutora de filmes que divide seu tempo entre esta cidade e os Estados Unidos desde sua adolescência. “Diante de um terremoto ou algum êxito internacional, somos todos chineses, mas, no resto do tempo somos muito, mas muito cuidadosos em nos definirmos como cidadãos de Hong Kong”, acrescentou.
”Existe, realmente, um sentimento em relação à China. Houve muita solidariedade depois do terremoto”, disse à IPS Diana Beaumont, ativista pelos direitos trabalhistas, em um restaurante vegetariano perto da estação Sheung Wan, uma área predileta dos membros de organizações não-governamentais proibidas na China. Hong Kong apresentou nos Jogos uma equipe de 35 esportistas, que viajaram com a esperança de conseguir medalhas em ciclismo, ping-pong, windsurf e badminton. Participam de 11 especialidades, entre elas hipismo, natação, esgrima, tiro, remo e triatlo.
Embora Hong Kong sempre tenha garantido a liberdade de expressão e os direitos democráticos, aumentou as medidas de segurança às vésperas dos Jogos e soube-se que proibiu a entrada de três ativistas pró-democráticos antes da cerimônia inaugural, na sexta-feira passada. Além disso, um estudante foi retirado, no sábado, do estádio onde aconteciam as competições eqüestres por levantar uma bandeira do Tibet. Também foi negada a entrada em Hong Kong de ativistas pró-tibenetanos em maio, durante a passagem da tocha olímpica pela cidade.
Poucos dias antes de começarem os Jogos, membros da associação religiosa Falun Dafa, proibida na China, distribuíram nas ruas volantes detalhando abusos e torturas cometidas pelas autoridades de Pequim. Poucas pessoas pararam para lê-los, mas ninguém demonstrou hostilidade. “Podemos fazer isto em Hong Kong, mas não na China”, disse um dos integrantes do grupo religioso.
“Definitivamente, há mais liberdade em Hong Kong”, assegurou Mui Chi Yam, que se radicou na cidade há 15 anos e trabalha como porteiro e guarda de segurança em um complexo de apartamentos. Ao contrário dos nascidos em Hong Kong, está entusiasmado com os Jogos Olímpicos. “Não sou um fanático por esportes, mas sinto que há muitas mudanças para as pessoas de Hong Kong e da China”, afirmou Henry Chu, criador de paginas para a Internet, sentado com seu computador portátil em um café Starburck’s. “Há grandes expectativas, todo mundo teme que algo possa sair errado”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

