BIRMÂNIA: A esperança democrática é a última que morre

Bangcoc, 12/08/2008 – Aung Moe Zaw mantém viva a esperança de que a democracia lance raízes na Birmânia, 20 anos depois que centenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Rangun para se oporem à ditadura militar. “Muito mais gente se uniu ao nosso movimento pela democracia. Estamos muito otimistas”, disse em uma entrevista este homem de 41 anos por ocasião do aniversario mais conhecido no país como 8-8-88 (8 de agosto de 1988), dia em que este espírito democrático floresceu. Isso ocorreu 26 anos após os militares terem tomado o poder em um golpe de Estado em março de 1962, passando a governar a Birmânia com mão de ferro e uma política isolacionista.

“Ainda temos o ânimo, se virmos o que ocorreu desde então. A comunidade internacional está do nosso lado e está mais consciente do que em agosto de 1988”, acrescentou o líder do Partido Democrático para uma Nova Sociedade, o segundo maior partido político do país. Mas, em contraste com esses sentimentos de esperança por um episodio histórico crucial na luta pela democracia está a brutalidade e o derramamento de sangue que também marcou essa data. A ditadura militar sufocou com força o levante. Soldados atiraram contra a multidão desarmada. Cerca de três mil manifestantes morreram.

Mas, isso não é tudo. Esse ataque continua, adotando outros métodos de repressão. Os partidos pró-democráticos surgidos dos protestos dos 8-8-88 enfraqueceram. Milhares de dissidentes foram calados. Um deles é Aung Moe Zaw, que não podia falar com liberdade exilado político na Tailândia. Como tantos outros legisladores eleitos nas eleições de 1990 (convocadas pela pressão popular do 8-8-88), teve de fugir do país. O regime se negou a reconhecer os resultados dessas eleições, nas quais a Liga Nacional pela Democracia (NLD), partido de oposição que se formou após os protestos, conseguiu uma esmagadora maioria.

Os parlamentares birmaneses que fugiram do país estabeleceram o Governo da Coalizão Nacional pela União da Birmânia no exílio. Aos líderes pró-democráticos que decidiram ficar e lutar, o regime respondeu com detenções e longos períodos na cadeia ou em prisão domiciliar. A mais conhecida é Aung San Suuy Kyi, prêmio Nobel da Paz e líder da NLS, que passou 12 dos últimos 189 anos sob prisão domiciliar. O outro é Min Ko Naing, líder dos estudantes universitários da “Geração 88” que dirigiram os protestos do 8-8-88, hoje na prisão pela terceira vez nas duas últimas décadas.

Cerca de mil ativistas políticos foram presos desde as manifestações de agosto de 1988. destes, dois mil ainda estão atrás das grades. Nas duas décadas transcorridas, 137 ativistas morreram nas prisões birmanesas ou enquanto eram interrogados. “As manifestações de 1988 produziram muitos novos líderes para o movimento democrático da Birmânia, mas lhes foi negada a liberdade. Foram presos ou mantidos em prisão domiciliar”, disse a ex-presa política Bo Kyi.

Alguns “foram soltos e não deixaram de trabalha pela democracia, como Min Ko Naing e os outros líderes da Geração 88”, afirmou Bo Kyi, integrante da Associação de Ajuda aos Presos Políticos, entrevistada por telefone desde a fronteiriça localidade tailandesa de Mãe Sot. “Estarem politicamente ativos foi uma decisão muito difícil que tomaram. Sabem que podem ser mandados de volta à prisão. E sabem como sofrem lá”, acrescentou.

“Antes, uma sentença de prisão por atividade política durava sete anos ou um pouco mais. Mas desde o 8-8-88 os ativistas recebem condenações de 20 a 50 anos”, disse Win Min, birmanês especialista em segurança nacional que dá aula na universidade da cidade tailandesa de Chiang Mai. “O regime usou as prisões para sufocar o espaço político. Hoje há menos espaços do que no período imediatamente anterior ao levante de 1988”, disse em entrevista por telefone desde Chiang Mai. “Os militares usaram um poder mais coercitivo para controlar o processo político, e parecem relativamente mais fortes do que organizações da oposição”, acrescentou.

Os amigos que a junta encontrou depois de 1988, como China, Índia, Rússia e os governos da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, formada por Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia, Vietnã e Birmânia) também ajudou para que continuasse no poder. Esta rede protetora internacional saiu em resgate ao regime em setembro do ano passado, depois que foi condenado pelas brutais medidas que tomou para sufocar pacíficos protestos pela democracia liderados por dezenas de milhares de monges budistas.

Pode ser um panorama político desanimado, mas, jovens líderes políticos da Birmânia, com Aung Moe Zaw, estão longe de admitir a derrota. Querem manter vivo o legado do 8-8-88, recordação de um país que necessita de uma reforma política. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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