Washington, 01/08/2008 – Os Estados Unidos devem implementar o quanto antes grandes mudanças em suas políticas de desenvolvimento e ajuda de emergência para enfrentar a crise internacional dos grãos, que coloca em risco os recentes avanços na redução da pobreza em muitos países do Sul. É o que sugere um trabalho preparado por um grupo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, que também propõe, pelo menos, duplicar a ajuda alimentar norte-americana ara US$ 3,2 bilhões ao ano e rever a forma com esta assistência é entregue, como parte de uma estratégia que pode receber forte apoio tanto do governante Partido Republicando quanto do opositor Partido Democrata.
Washington também deve colocar o desenvolvimento rural e a produtividade agrícola dos países pobres no topo da lista da agenda de ajuda externa, revisando o contínuo apoio com subsídios aos biocombustíveis para minimizar seu impacto na disponibilidade de cultivos-chave, além de fazer a promoção da agricultura de um país em desenvolvimento ser o principal objetivo da política comercial norte-americana. “O custo de nada fazer, de ficar de lado, é inaceitável e pode fazer com que cem milhões de pessoas a mais sejam arrastadas para a fome”, alertou o senador democrata Robert Casey, que liderou o grupo de estudo.
“Este é o momento para a liderança norte-americana no cenário mundial. Em um tempo em que esta liderança é considerada fraca e em bancarrota moral no exterior, é nossa oportunidade para demonstrar a força dos Estados Unidos e seu compromisso moral”, afirmou Casey. O estudo, intitulado “Um chamado para um enfoque norte-americano estratégico para a crise alimentar mundial”, chega em meio a um alarme internacional pelo aumento recorde dos preços dos grãos. Junto à comparável alta dos preços da energia, a crise alimentar ameaça jogar pelo menos cem milhões de pessoas na pobreza absoluta, segundo a Organização das Nações Unidas.
Muitos governos se vêem obrigados a aumentar drasticamente seus subsídios alimentares para conter o descontentamento popular, enquanto outros 30 países limitaram ou proibiram as exportações de grãos para manter os preços internos o mais baixo possível. De fato, a crise dos alimentos é considerada conseqüência do colapso, na terça-feira, da última rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio em Genebra. Os países pobres resistiram às pressões dos Estados Unidos e de outros grandes exportadores de grãos para que deixem de aplicar tarifas de importação e outras medidas destinadas a proteger sua própria produção.
Em carta endereçada aos líderes do Grupo dos Oito países mais poderosos, às vésperas de sua cúpula realizada no início deste mês no Japão, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, alertou que esse organismo e sua instituição irmã, o Fundo Monetário Internacional, necessitavam de pelo menos US$ 10 bilhões para fornecer créditos de curto prazo aos países necessitados a fim de enfrentarem o que eles qualificaram de “catástrofe causada pelo homem”.
O estudo cita meia dúzia de causas da crise, incluindo o drástico aumento nos preços da energia e dos biocombustíveis à base de milho, a crescente demanda de cereais, particularmente nas economias de rápida expansão com China e Índia, a redução da produção pelo “mau tempo, possivelmente vinculada à mudança climática”, e a falta de investimentos nas décadas passadas na agricultura e tecnologia do Sul.
Também assinalou “graves distorções” na produção agrícola mundial e no sistema comercial, que “estruturalmente favorece a produção dos países ricos e prejudica os produtores nas nações pobres”. Além disso, indica que, no caso de emergência alimentar, os Estados Unidos tardariam pelo menos seis meses para alcançar os afetados devido ao requisito de que toda ajuda tem de ser produzida internamente e transportada em navios norte-americanos.
Para resolver esses problemas, o informe propôs reformar o programa de assistência norte-americano, e que Washington aumente para US$ 3,2 bilhões seu orçamento de ajuda alimentar anual, dos quais pelo menos 50% devem ser destinados a agências multilaterais, como o Programa Mundial de Alimentos, e a instituições privadas de caridade que estejam o mais perto possível das áreas necessitadas. Dentro de cinco anos, pelo menos 75% da ajuda deveria ser fornecida desta maneira, propõe o informe. (IPS/Envolverde)

