JOGOS OLÍMPICOS-CHINA: Corrida com obstáculos pela qualidade

Pequim, 20/08/2008 – A China aproveita os Jogos Olímpicos para promover a qualidade da produção nacional e tentar apagar sua imagem ruim. Sua grande arma é a tradição, começando pela gastronomia e seguindo pela seda, porcelana, sândalo. Sibaritas e intelectuais do gigante asiático discutem, levantando as sobrancelhas, quais pratos representam melhor a paradoxal conjunção de refinamento e simplicidade da antiga cultura chinesa. Mas a decisão está nas mãos das massas de estrangeiros que invadem a capital chinesa por ocasião dos Jogos Olímpicos, que começaram dia 8 e terminarão no próximo dia 24.

Os turistas provam finas bebidas à base de chá à sombra dos grandes beirais de antigas mansões manchúes na cidade velha. Também inundam o mercado da Rua da Seda e compram produtos típicos feitos com esse tecido, como o cheongsam, o aipao ou as pantufas. Os mais audazes se atrevem a gozar de uma verdadeira experiência chinesa: beber “bai jiu”, um licor ardente fabricado a partir do sorgo. Mas, o rito obrigatório de todo visitante a Pequim continua sendo o pato laqueado. Prato imperial chinês criado com exclusividade para a corte da dinastia Yuan, hoje é uma delícia popular.

Esse pato assado e com glacê envolto em um fino panqué (tipo de pão) é servido em suculentas porções, tanto em simples cantinas em estreitos becos como em restaurantes elegantes. No final de semana, o prato ganhou, com a mesma facilidade que os atletas chineses, várias medalhas de ouro em popularidade. “Tivemos de aumentar o fornecimento de pato pequinês de 300 para 600 pratos por dia”, informou Deng Yaping, subdiretora da Vila Olímpica com quatro medalhas de ouro em tênis de mesa. “É um prazer para os atletas”, disse. “O famoso pato pequinês é um candidato ao ouro da popularidade gastronômica nos Jogos Olímpicos”, disse orgulhoso um jornalista da agência estatal de notícias Xinhua.

Muito antes do começo dos Jogos, os organizadores desenharam estratégias para usá-lo como plataforma de lançamento da produção chinesa. Nesse sentido, analisaram como os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, contribuíram para a popularidade internacional do sushi japonês, e os de Seul conseguiram algo parecido em 1988 como o kimchi coreano. “Por fim, chegou a vez da china”, disse Yang Guang, da consultoria Zhengyitang Strategic. “Os estrangeiros querem fazer o mesmo que os pequineses. É a melhor oportunidade para divulgar os produtos chineses”, disse.

Mas, ao contrário da Coréia do Sul e do Japão, com culturas relativamente unitárias, a China é um país multicultural e de grande diversidade. “O correto é deixar que floresçam cem flores que compitam cem doutrinas’, afirmou o especialista em cultura chinesa Cui Puquan, parafraseando um antigo provérbio. “Este país tem uma cultura tão rica e antiga que seria uma lástima promover alguns produtos tradicionais em prejuízo de outros”, acrescentou. Com tamanha oferta multiplicaram-se as dificuldades para criar uma campanha de promoção, disse Yang Guang.

Desde o chá e a porcelana fina até os leques de sândalo e os vestidos de seda, Pequim é como um tesouro escondido de intrincados artesanatos. Conscientes de que a frase “feito na China” se associa com produtos de baixa qualidade em muitos países do mundo, as autoridades aproveitaram a oportunidade dos Jogos para exibir algumas das marcas tradicionais do país, disse Yang, cuja empresa assessorou algumas indústrias. “Nos concentramos nas ‘laozihao’, ou seja, nas marcas consagradas”, afirmou.

A intenção de internacionalizar produtos e marcas tradicionais da China está por trás da mudança da aparência da rua Qianmen, ao custo de US$ 300 milhões. Trata-se de um dos poucos passeios típicos de Pequim, junto com a Cidade Proibida e a praça de Tiananmen. Qianmen abrigou os vendedores de roupa, a alta culinária, o chá e as ervas medicinais, mais apreciados do império. Há um século, mais de cem “laozihao” prosperavam nessa rua, uma das zonas comerciais mais prósperas da Cidade Imperial.

Entre eles está Ruifuxiang, comércio de seda que confeccionava a roupa dos mandarins da corte imperial e que criou o primeiro pavilhão da República Popular, Tongrentang, fornecedor exclusivo de ervas medicinais para a corte desde 1723, e Quanjude, decano dos restaurantes que servem o pato laqueado. O abandono e a destruição causada pelas campanhas políticas radicais no final dos anos 60 fecharam uma cortina sobre o outrora famoso centro comercial. Mas a escolha de Pequim como sede dos Jogos Olímpicos em 2001 levou a prefeitura a aproveitar a chance de reativar essas marcas tradicionais.

Totalmente modernizada, a rua Qianmen teve uma espécie de reinauguração às vésperas dos Jogos, com uma grande fanfarra. Promotores imobiliários disseram de sua intenção em capitalizar o interesse dos visitantes pelo “chinês”. Os “turistas estrangeiros podem comprar produtos de seda no centenário comércio de Ruifuxiang”, disse Wang Chengguo, funcionário do distrito capital de Chongwen, onde fica Qianmen. “Também podem comprar sapatos bordados de Neiliansheng, uma das fábricas tradicionais de maior renome”, acrescentou. Com seus tradicionais edifícios iluminados, semáforos do tipo jaula e a volta dos famosos bondes elétricos dos anos 20, a rua se converteu em um imã para os turistas.

Mas, o veredito sobre a experiência de compra e a autenticidade de seu ambiente resultou menos estático. “Isto é falso”, afirmou Lianga Chunrong. A imagem que ela guarda dos contos de seus pais é uma miscelânea excitante de salões de chá, comércios de sopas de macarrão e vendedores espertos”, disse. “Isto parece um museu de coisas chinesas”, afirmou a turista francesa Amelie Bernard, que preferiu o mercado da Rua da Seda para fazer compras. “No mercado se encontra o autêntico regateio e as verdadeiras opções”, disse. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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