AIDS: Entre a Aldeia Global e o gueto

México, 08/08/2008 – Tratar com as pessoas transgênero pode ser confuso. Mesmo os organizadores da XVII Conferência Internacional sobre Aids que acontece no México não conseguiram oferecer ao terceiro gênero banheiros separados. “Fui ao banheiro masculino e me disseram que deveria usar o feminino, onde me indicaram para voltar ao dos homens”, disse indignada à IPS Agniva Lahiri, de 28 anos, na Aldeia Global, o local mais animado de todo o Centro Banamex, onde acontece a reunião que começou no domingo e termina hoje.

Lahiri afirmou que sua “identidade política é transgênero” e “não gay”. Ela é um homem que mantém sexo com homens e tem um companheiro masculino, mas assume um papel passivo na relação. Entretanto, se nega a fazer o trabalho doméstico em sua casa em Mumbai (Índia). Lahiri admitiu que as coisas estão mudando nas conferencias internacionais. Na última década, esteve em cinco. “A visibilidade dos transgêneros é muito melhor aqui do que nas anteriores”, insistiu.

Susan López, da norte-americana Desiree Alliance, elogiou a conferência de maneira semelhante. “As trabalhadoras sexuais são muito visíveis e sem dúvida há muitas outras sessões em torno de seus temas do que no passado”, afirmou. Ex-stripper, López se descreve como trabalhadora sexual e diz que e admira “terrivelmente” sua atividade. De fato, pela primeira vez na história da conferência sobre Aids (síndrome de deficiência imunológica adquirida), uma sessão plenária teve uma trabalhadora sexual como oradora.

“Este é um grande êxito”, disse a argentina Elena Reynaga, da RedeTraSex (Rede de Trabalhadoras Sexuais da América Latina e do Caribe), dando um comovente depoimento pelo pleno reconhecimento do trabalho sexual e dos direitos de quem o exerce. Reynaga afirmou que não se pode ignorar a contribuição das trabalhadoras sexuais na resposta cada vez mais efetiva na pandemia do HIV. Citou o exemplo de Kolkata, onde um forte movimento dessas trabalhadoras da área de prostíbulos de Songachi ajudou a aumentar o uso de camisinhas de apenas 1,1% em 1992 para 90% em 1998. “Elas lutaram por sua saúde defendendo que o trabalho sexual fosse reconhecido como legitimo e defendendo os direitos humanos das trabalhadoras sexuais”, disse Reynaga.

Esta ativista afirmou que se concede financiamento sem compreender as “necessidades reais” de quem realiza trabalhos sexuais. “Em muitas partes do mundo, os trabalhadores sexuais nem mesmo têm acesso a elementos básicos como suficientes camisinhas masculinas e femininas”, ressaltou. Também recordou as épocas em que os financiamentos eram dados sob condições. “Como vocês pensam que as trabalhadoras sexuais podem usar ABC (sigla em inglês de abstinência, fidelidade e camisinha) como uma ferramenta efetiva para prevenir o HIV? É uma afronta ao nosso trabalho. A única letra que nos é útil e a C”, insistiu.

Mas, há pessoas com Janaki Vidanapathirana, uma médica comunitária do Sri Lanka, que estão desconcertadas pelo fato de se dar tanta atenção ao trabalho sexual. “Ninguém em seu fórum intimo quer ingressar nessa atividade. Falam disto como se estivesse tudo em”, disse. Embora acredite que as trabalhadoras sexuais deveriam receber tratamento e cuidados e que se deveria criar programas preventivos para elas, já que é seu direito, se pergunta por que “as pessoas aqui não são capazes de encontrar a raíz para o fato de essas pessoas estarem vendendo sexo, que é pobreza, e apenas pobreza”.

Para Vidanapathirana, os especialistas falam sobre mudança de comportamento. Mas, a “ação universal agora”, que é o tema da conferência, também deveria incluir um desenvolvimento do comportamento. Tem de falar a quem ainda não se dedica à profissão de vender sexo, mas que, devido à pobreza extrema, é vulnerável a entrar nessa atividade. “Por que não falam mais em educação, assuntos relativos ao sustente e no poder econômico, para que elas abandonem este trabalho”, perguntou. Porem, a médica não conheceu López, que enfatiza que as pessoas devem entender que “algumas de nós escolhemos isto como profissão por livre vontade”.

Bhanu Buduk, de 23 anos, é dalit (intocável, uma das castas mais baixas da Índia) e transgênero, e ganha a vida dançando em casamentos. “Não podemos encontrar trabalho, por isso fazemos isto. Não só nos pagam mal como, também, enfrentamos um assédio extremo, da polícia, de nossos clientes e, inclusive, às vezes, de nossos amos. Quando nos violam e denunciamos, a polícia nos pergunta como podemos ser violados se somos homens”, contou. Lahiri trabalha com este grupo para “reduzir a violência” em seu trabalho. “Estas bailarinas podem oferecer seus serviços, às vezes, a uma dúzia de homens em uma única noite, e se não podem ter um desempenho suficientemente bom apanham e sofrem ataques sádicos”, explicou.

Algo semelhante acontece nos Estados Unidos, onde, segundo López, quando uma prostituta é encontrada morta os arquivos policiais são apontados com as letras NHI (siga em inglês para nenhum humano envolvido). “Somos consideradas lixo, menos que seres humanos”, lamentou. “No ano passado, uma stripper de Irvine, no Estado da California, foi violada mas perdeu a causa na justiça porque o juiz lhe disse que ela era abertamente sexual e havia obtido o que queria”, contou López. Em outro caso, uma prostituta foi violentada por integrantes de um bando e a juíza do caso disse que se tratou de “roubo em serviço e não violação”, acrescentou.

López considera a Aldeia Global como um “gueto onde todos nós estamos recluídos”, e acrescentou: “Pagam às companhias farmacêuticas para nos manter fora dali”. De todo modo, é o lugar onde os especialistas e líderes que lutam por um mundo sem aids podem encontrar respostas para os problemas sobre os quais debatem dentro de salas fechadas e acéticas. Na Aldeia Global se pode encontrar exemplos gráficos de práticas sexuais entre homens e maneiras de colocar a camisinha, seja a masculina ou a feminina. Há mulheres fazendo a “dança do cano” ou “barra americana” e preservativos por todo lado, em uma oferta de cores e formas. Aqui, poucos têm tempo para ouvir o que os especialistas têm a dizer ou para o constante intercâmbio sobre a epidemia e sua prevenção.

Um desfile de modas organizado pela Davida, uma organização brasileira de trabalhadoras sexuais foi um enorme sucesso e reuniu multidões. Redes, peles, couros, beijos ao ar, poses sugestivas e camisinhas estourando. Tudo fez parte do espetáculo. “Queremos mostrar ao mundo que as trabalhadoras sexuais não são vítimas e queremos nossos direitos. Tenho um rosto e não estou envergonhada de meu trabalho”, disse Gabriella. “Quero mais respeito das pessoas”, afirmou Carmen, de 40 anos, que foi trabalhadora sexual comercial durante os últimos 24 anos. “Grandioso! Espetacular!”, foi como Palo Gomex, uma drag queen de 44 anos e HIV positivo, qualificou o show do qual também participou.

“Tomara que Peter Piot, diretor-executivo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida), passasse um tempo conosco”, disse Tara Abbe Sawyer, uma transexual dos Estados Unidos. Sawyer também se mostrou descontente com a curta aparição do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, na abertura oficial da Aldeia Global. (IPS/Envolverde)

Zofeen Ebrahim

Zofeen Ebrahim is a Karachi-based journalist who has been working independently since 2001, contributing to English dailies, including Dawn and The News, and current affairs monthly magazines, including Herald and Newsline, as well as the online paper Dawn.com. In between, Zofeen consults for various NGOs and INGOs. Prior to working as a freelance journalist, Zofeen worked for Pakistan’s widely circulated English daily, Dawn, as a feature writer. In all, Zofeen’s journalism career spans over 24 years and she has been commended nationwide and internationally for her work.

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