Jerusalém, 14/08/2008 – Após os últimos combates entre Rússia e Geórgia, Israel se encontra em uma posição incômoda devido à sua venda de armas a essa república. Israel teme que seus amistosos negócios com a Geórgia provoquem uma represália por parte de Moscou na forma de fornecimento de armamentos aos seus rivais Irã e Síria. Quando eclodiram os combates no final da semana passada entre as forças georgianas e as russas, pelas separatistas províncias de Ossetia do Sul e Abkhazia, e que terminaram na última terça-feira, o Ministério das Relações Exteriores de Israel recomendou suspender a venda de todas as armas e todos equipamentos de defesa relacionados à Geórgia, informou o jornal Haaretz.
O diário citou um funcionário governamental não identificado dizendo que Israel necessitava “ter mais cuidado e sensibilidade neste dias. Os russos vendem muitas armas para Irã e Síria, e não há necessidade de oferecer-lhes uma desculpa para vender ainda mais armas avançadas”, afirmou. A preocupação imediata de Israel é que a Rússia venda um sistema de mísseis S-300 ao Irã, que permitiria a esse país defender suas instalações nucleares de um eventual ataque aéreo estrangeiro. O governo israelense, como o dos Estados Unidos, acredita que o programa nuclear iraniano tem a intenção de desenvolver uma bomba, e por isso não descarta a possibilidade de realizar um ataque preventivo.
Recentemente Israel realizou um grande exercício no leste do Mediterrâneo e na Grécia que foi considerado uma preparação para um possível ataque contra as instalações nucleares iranianas. Mas, enquanto Washington e União Européia voltam a apelar para a pressão diplomática em forma de sanções para dissuadir Teerã, Israel teme molestar a Rússia, que até agora se opôs a impor novas e mais duras penas contra o Irã. As relações de Israel com a Geórgia são estreitas, em parte pelo fato de existir uma grande comunidade georgiana judia em Israel.
E, nos últimos anos, os vínculos também adquiriram certa dimensão militar. As indústrias israelenses da área de defesa enviaram à Geórgia US$ 200 milhões em equipamentos desde 2000. Estas vendas incluem aviões pilotados e com controle remoto, mísseis, equipamentos de visão noturna e outros sistemas eletrônicos, bem como programas de capacitação dados por altos funcionários israelenses. “Israel deve estar orgulhoso de seus militares, que treinaram soldados georgianos”, disse em hebreu à Rádio do Exército de Israel o ministro para a Reintegração da Geórgia, Temur Yakobashvili, de origem judia, pouco depois de começaremos combates.
Israel não é o maior fornecedor de armas a Tbilisi, que são Estados Unidos e França. Mas, as vendas israelenses atraíram a atenção da imprensa em parte pelo papel desempenhado por algumas figuras de alto perfil israelenses, incluindo Roni Milo, ex-prefeito de Telavive, que fez negócios na Geórgia em nome da companhia estatal Indústrias Militares Israelenses. Segundo a imprensa, Gal Hirsch, comandante na guerra de 2006 contra o Líbano, e que renunciou depois da divulgação de seu informe crítico à forma com essa ofensiva foi realizada, trabalhou como assessor das forças de segurança georgianas.
A venda de armas israelenses para a Geórgia também chamou a atenção no começo deste ano quando um jato russo derrubou um avião-robô de fabricação israelense que era operado pelos georgianos. Mesmo com as transferências de armas israelenses sendo modestas em seu alcance, diplomatas russos expressaram seu mal-estar por essa assistência à Geórgia, incluindo os programas de treinamento. Israel decidiu há quase um ano limitar suas exportações militares a equipamentos de defesa e capacitação. Desde então, não foram aprovados novos contratos de venda de armas. Um pedido de Tbilisi para a compra de 200 tanques avançados israelenses, por exemplo, não foi aceito. Houve informações em Israel de que a venda de tanques não se concretizaria em razão de um desacordo a respeito da comissão que deveria ser paga como parte do acordo. (IPS/Envolverde)

