AMBIENTE-BRASIL: Construção sustentável dá os primeiros passos

Rio de Janeiro, 05/09/2008 – É urgente acelerar a adoção de métodos sustentáveis na construção brasileira, que crescerá 18% este ano, quando já são conhecidas as dramáticas perspectivas da mudança climática, afirmam defensores das boas práticas nesta indústria. Às dificuldades universais, como os interesses do mercado que priorizam o lucro no curto prazo, se somam as próprias do Brasil, por exemplo, a enorme informalidade do setor da construção. Sessenta por cento das edificações civis, casas e edifícios, são construídos à margem das normas, o que reduz a eficácia de instrumentos como certificações de eficiência ou qualidade.

Mas e, dois anos, ou pouco mais, a edificação sustentável decolará no Brasil, com a superação de muitos entraves que limitam seus avanços a uns poucos itens, disse à IPS Vanessa Gomes, uma das organizadoras do primeiro Simpósio Brasileiro de Construção Sustentável, que termina hoje em São Paulo. A construção é conhecida como “o setor dos 40%”, pois essa é a quantidade que se leva do consumo mundial de energia, água e recursos naturais. Além disso, emite 35% dos gases causadores do efeito estufa, responsáveis pela mudança climática, segundo o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável.

Incorporar critérios de sustentabilidade a esta indústria tem efeitos diretos no meio ambiente e na economia, por seu caráter tentacular, de receptor e fornecedor dos mais diversos setores. Por exemplo, a construção é destino do grosso da madeira amazônica, “em boa parte ilegal” e apenas 2% são certificados, disse Vanessa Gomes, arquiteta com doutorado em engenharia de construção e professora da Universidade de Campinas.

Foram feitas campanhas ambientais para que os governos municipais e estaduais adquiram apenas madeira certificada para suas obras. Houve várias adesões, mas representam uma pequena parte do mercado, lamentou a professora. Entre os itens nos quais a construção sustentável avançou no Brasil, segundo ela, estão a eficiência energética, cuja exigência prévia nos edifícios enfrenta o gargalo da simulação por computador, escassamente desenvolvida no País, e o melhor aproveitamento dos materiais, que responde mais aos lucros do que à preservação do meio ambiente.

Mas os avanços se concentram em São Paulo e Estados vizinhos. A logística é o maior obstáculo para que as práticas e os insumos sustentáveis sejam distribuídos por todo o território, lembrou a arquiteta. A capacitação de arquitetos e engenheiros “é um desafio pessoal” que Vanessa, como integrante do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), formado há um ano, pretende cumprir levando cursos e conceitos “que poucos conhecem” a graduados e professores. Um livro com conhecimentos e experiências acumuladas aqui e no exterior, mas traduzidas para a realidade local, é outro projeto para divulgar a sustentabilidade na construção civil.

A partir deste primeiro simpósio, o CBCS divulga em seu site uma orientação a construtores e usuários para selecionar o material e os edifícios adquiridos, observando seis pontos, como formalidade e responsabilidade sócio-ambiental dos fornecedores, as normas técnicas e advertências para reconhecer a “lavagem verde”. Esta lavagem está presente no uso de materiais reciclados, mas que consomem mais energia e água, ou na neutralização de emissões de carbono com a qual se tenta encobrir a manutenção de práticas insustentáveis, disse Vanessa.

Além de ser um conceito novo, que no Brasil começou a ser difundido na década passada, a construção sustentável exige mudanças de conduta que levam tempo. Falta desenvolver muitos fatores, como indicadores e análises do ciclo de vida dos materiais, que avalie a durabilidade e os impactos ambientais de cada um. O mercado conspira contra, por seu caráter imediatista. Um projeto imobiliário tem de oferecer rentabilidade em poucos anos para ser viável financeiramente, mas a sustentabilidade se torna efetiva no longo prazo.

Os painéis de energia solar se tornam economicamente vantajosos depois de muitos anos, e as instalações para aproveitar água da chuva – que em São Paulo ofereceriam “duplo benefício”, porque também reduziram as inundações – não interessam às construtoras e aos investidores por seu custo adicional, que apenas beneficia o usuário, disse Vanessa Gomes. Contra essa tendência seria preciso adotar políticas de estímulo, como isenções tributárias e leis, embora estas se vejam limitadas pela ampla informalidade, acrescentou.

No Brasil, os defensores da construção sustentável estimam que o consumo de energia e água dos edifícios poderia cair entre 30% e 40% com práticas adequadas. A economia seria enorme porque os prédios representam 45% do consumo energético nacional e essa proporção está crescendo. A posição do edifício em relação ao sol, em um país tropical como este, determina maior ou menor consumo de eletricidade em iluminação e ar-condicionado, que representam, cada um, 40% do total, destacou a professora. A informalidade e falta de políticas públicas que favoreçam a sustentabilidade agravam o quadro. Mas no Brasil, ao contrário da Europa, a adoção de métodos e critérios sustentáveis traria abundantes benefícios, pois, com um déficit de quase oito milhões de moradias, há muito por se fazer. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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