Madri, 11/09/2008 – A União Européia deve recuperar seu papel de protagonista e liderar o apoio na luta a favor do desenvolvimento da América Latina e do Caribe, disse ontem à IPS o presidente da Costa Rica, o prêmio Nobel Oscar Arias.
A esse respeito esclareceu que, se realmente a UE quer contribuir com o desenvolvimento, “deve garantir que essa contribuição seja concreta”, evitando “carregar pesos do passado e em especial o de um gasto militar que por si só é uma grave ofensa aos 200 milhões de pessoas que na América Latina vivem na pobreza”. Na conferência recordou que em 2007 “o gasto militar da América Latina chegou a US$ 36 bilhões”, apesar de essa região estar livre de guerras, “com exceção da Colômbia”, imersa em um conflito armado interno desde o início dos anos 60.
Com esse dinheiro “seria possível alcançar todos os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em matéria de educação e meio ambiente no mundo”, disse a título de exemplo tomando como referência os oito grandes compromissos assumidos pelos governos em 2000 na Organização das Nações Unidas, que incluem esses dois aspectos. Por isso, Arias destacou que “as nações desenvolvidas não devem apoiar, com assistência e recursos, a decisão dos que preferem equipar seus exércitos em lugar de cuidar de suas crianças ou proteger os recursos naturais que permitam à humanidade respirar”.
Em conversa com a IPS, o presidente costarriquenho disse não acreditar que no curto prazo seja possível cumprir o tratado de não-proliferaçao armamentista, “pois cinco grandes países vendem 50% das armas”. É muito difícil que na ONU se avance neste assunto “e talvez tenham de passar seis ou sete anos ainda, pois não estão prontas as condições”, disse Arias, ganhador do Nobel da Paz em 1987 e que conta em seu histórico uma presidência anterior de seu país (1986-1990). Sobre as anunciadas manobras militares da Rússia e Venezuela no mar do Caribe disse que respondem a uma reação lógica, “mas desnecessária”, diante da estratégia belicista dos Estados Unidos que alarma esses países.
Arias qualificou de “indigno” o fato de se querer reabrir a Guerra Fria e afirmou que “ninguém venha dizer que (as manobras norte-americanas) são para proteger o Irã”. Hoje – prosseguiu – “os verdadeiros inimigos são a fome, o analfabetismo e a degradação ambiental, entre outros problemas humanos”. Na hora de falar de coisas positivas e negativas deu como exemplo do primeiro a Costa Rica, que estabeleceu a educação gratuita obrigatória há quase 140 anos. Embora atualmente – ressaltou – na América Central “um em cada três jovens nunca foi à escola secundária e apenas um em cada 10 entra na universidade”.
Acrescentou que seu país lidera uma cruzada internacional contra o aquecimento global e a deterioração do meio ambiente, mas que a América Central “também é culpada de dois terços da perda de cobertura florestal mundial neste século XXI”. Arias negou que considere seu país como um enclave de prodígios em meio a uma região com problemas, pois ressaltou que nenhum dos êxitos de seu país terá muita serventia “se não se assegurar maior desenvolvimento desde o rio Bravo até o Cabo Horns”, ou seja toda a América Latina e o Caribe.
Arias diz que os desafios costarriquenhos estão ligados aos do resto da América Latina, mas alertou que “também o estão os desafios europeus e em particular os da Espanha”. Isso – prosseguiu – porque “a pobreza não precisa de passaporte para viajar e, enquanto as desigualdades entre Europa e América Latina continuarem sendo tão abismais, milhares de imigrantes ilegais continuarão chegando a cada ano no litoral europeu, em busca das oportunidades que não têm em seus próprios países.
Afirmou, ainda, ser compreensível que existam quase dois milhões de imigrantes latino-americanos adultos vivendo na Espanha, mas que “não dá para entender que não tenhamos compreendido ainda que nem leis nem muralhas serão suficientes para deter este fluxo de pessoas, mas apenas um desenvolvimento aceitável na América Latina”. A seu ver, é indispensável promover a ajudar o desenvolvimento, porque se os países do Sul “não forem capazes de exportar cada vez mais bens e serviços, acabaremos exportando cada vez mais pessoas”. Nessa linha, o acordo de associação entre América Central e a União Européia, que se negocia, “é a oportunidade mais próxima, mais clara e mais imediata de que dispõe a Europa para revigorar sua presença na América Latina”, afirmou Arias.
O mandatário explicou também o chamado Consenso da Costa Rica, uma iniciativa de seu governo “pela qual são criados mecanismos para perdoar dividas e apoiar com recursos financeiros internacionais os países em desenvolvimento que investirem cada vez mais em proteção do meio ambiente, educação, saúde e moradia para seus povos. Cada vez menos em armas e soldados”, afirmou. Após lembrar que em 1948 “a Costa rica ter declarado a paz ao mundo”, ao abolir suas forças armadas, agora também declara a paz “com a natureza”.
Essa paz compromete seu país “a ser neutro em emissões de carbono a partir de 2021”, ano em que comemorará dois séculos de independência. Para conseguir isso, em 2007 converteram a Costa Rica no país com mais árvores por pessoa e por quilômetro quadrado no mundo, com a plantação de cinco milhões de árvores. “E neste ano estamos plantando mais sete milhões de árvores, o que nos dará a liderança de uma cruzada internacional contra o aquecimento global e a destruição do meio ambiente”.
Arias concluiu afirmando: “se dermos apoio decidido ao Acordo da Associação entre UE e América Central e à abertura comercial em geral, estimularmos os países mais pobres a investir na vida e não na morte, detivermos a guerra contra a natureza, talvez chegue o dia em que não precisaremos debater sobre a forma de alcançar um futuro melhor, mas sobre como conservá-lo”. (IPS/Envolverde)

