Caracas, 11/09/2008 – Dois bombardeios estratégicos russos Tupolev TU-160 aterrissaram ontem a 60 quilômetros da capital venezuelana, na base aérea Libertador, a principal do país, para “realizar vôos de treinamento” na região, segundo o Ministério da Defesa da Rússia. “Yes (sim) para quem duvida, pitiyanquis”, confirmou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dirigindo-se aos seus opositores em um discurso pelas duas maiores redes de rádio e televisão que fez ontem. “E mais, vou pilotar um desses bichos”, acrescentou meio em tom de piada para confirmar que se trata de vôos de treinamento.
A Rússia havia anunciado há poucos dias que despacharia uma esquadra naval para o mar do Caribe e o porta-voz de sua Marinha, capital Igor Digalo, afirmou que os navios “farão uma série de exercícios, entre eles manobras conjuntas de busca e salvamente, bem como testes de telecomunicações”, com seus similares da Venezuela. O porta-voz da chancelaria de Moscou, Andrei Nesterenko, disse que as embarcações seriam o cruzador nuclear “Piotr Veliki” (Pedro o Grande) e a fragata anti-submarino “Almirante Shabanenko”, e acrescentou que aviões-caças anti-submarinos “permaneceriam provisoriamente” em uma base Venezuela. “Queremos calibrar nossa capacidade defensiva com nossos aliados estratégicos, e a Rússia o é”, disse Chávez ao pedir aplausos pela chegada dos TU-160.
Sean McCormack, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, disse que as manobras navais “serão observadas. Ainda não tenho a confirmação russa, mas se isso for verdade, então eles poderão encontrar alguns navios capazes de cobrir distancia tão longa”, afirmou a Agência Bolivariana de Notícias, do governo venezuelano. Marta Lucía Ramírez, que foi ministra da Defesa da Colômbia no primeiro ano do atual governo do direitista Álvaro Uribe, pediu que seu país “faça as consultas necessárias junto a órgãos internacionais, com a Uniao de Nações Sul-americanas e a Organização dos Estados Americanos”.
Ramírez pediu “que se discuta a conveniência de trazer para a América Latina as tensões globais entre potencias, que se trasladam aos cenários andino e caribenho e constituem um evento que ameaça a segurança e estabilidade da região”. Uma guerra entre Colômbia e Venezuela foi, durante décadas, hipótese de conflito externo estudada nas academias militares dos dois países. A ex-ministra recordou que Chávez “reagiu irado quando houve o boato sobre instalação de uma base antidrogas norte-americana (na fronteiriça península de la Guajira) e ameaçou com um confronto bélico se essa base se concretizasse”.
“Por que agora devemos aceitar exercícios bélicos de uma potência militar e o alojamento de seu equipamento aéreo na Venezuela? Devemos alertar sobre o desequilíbrio que causará. As tensões entre duas potências militares poderiam trazer trágicas conseqüências à região, com as que se apresentaram na Geórgia”, afirmou Ramírez. Nessa república do Cáucaso confrontaram-se – com grandes danos para a população civil – as forças da Rússia e da Geórgia, o que acelerou os planos de instalação na Polônia e na República Checa de sistemas de mísseis e radares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar do Ocidente.
Para o analista Thomas Gomart, do Instituto Francês de Relações Internacionais, ol envio de unidades militares russas “representa um duplo investimento de Moscou: um questionamento cada vez mais aberto à hegemonia dos Estados Unidos e um apoio às nacionalizações na áreas da energia, que Chávez tem como estandarte”. Por sua vez, Dmitri Orlov, da russa Agência de Comunicações Políticas e Economicas, os planos de cooperação militar com a Venezuela “significam que Moscou aumentará a presença militar em diferentes regiões do mundo. Não necessariamente uma política norte-americana agressiva, mas passos para defender seus interesses geopolíticos”. Chávez faz gozação com seus detratores, chamando-os de “pitiyanquis”, acusando-os de “verem a chegada do fantasma do comunismo da União Soviética, que já não existe, mas uma Rússia soberana e independente que se levanta”.
Também defendeu as aquisições de sistemas de armas na Rússia e China, por mais de US$ 4,5 bilhões em três anos, que incluem aviões-caça Sukhoi, helicópteros MI, fuzis Kalashinkov, radares, mísseis, barcos-patrulha, aviões de reconhecimento e, possivelmente, submarinos e outros equipamentos. “Os pitiyanquis criticam o fato de fazermos manobras conjuntas com a Rússia, mas nada dizem sobre a decisão dos Estados Unidos de ativar, após 60 anos, sua IV Frota e manter uma base ali mesmo, em Curação (ilha holandesa a 50 quilômetros da costa venezuelana)”, disse Chávez.
Teodoro Petkoff, dirigente da oposição e forte crítico de Chávez desde seu jornal Tal Cual, lamentou que o presidente “agora queira atravessar a guerrinha fria entre Estados Unidos e Rússia”, e citou o ditado popular segundo o qual “em luta de tigres os burros não se intrometem”. Chávez “acusa a Geórgia, com razão, de agir como peão de George W. Bush, mas, irrefletidamente, se oferece, em uma disputa que nos é completamente alheia, a agir gratuitamente como peão do primeiro-ministro Vladimir Putin, que se agarra a esse “baixinho”, criticou Petkoff.
Em sua opinião, Chávez atua “levado por seus complexos, devido à falta de uma épica pessoa, quer viver o clima da Crise dos Foguetes de 1962, entre União Soviética e Estados Unidos, vendo a si mesmo no papel planetário que teve na época Fidel Castro”, então presidente de Cuba. Em outubro de 1962, em plena Guerra Fria, Washington forçou a retirada de foguetes com capacidade nuclear, que Moscou instalava em Cuba, em troca de um compromisso de não invadir essa ilha socialista e retirar foguetes norte-americanos da fronteira da Turquia com a União Soviética. (IPS/Envolverde)

