ÁGUA: Banheiros em lugar de celulares

Uxbridge, Canadá, 22/10/2008 – É uma característica do século XXI algumas das regiões mais pobres do mundo terem uma cobertura de telefonia celular, mas carecerem de banheiros ou de água segura para beber. Instalar banheiros onde são necessários e garantir fornecimentos hídricos seguros contribui mais para combater a pobreza e melhorar a saúde do mundo do que qualquer outra medida possível, conforme consta de uma análise apresentada ontem pela Universidade das Nações Unidas (UNU).

“As dificuldades da água, causadas em grande parte por uma terrível ausência de banheiros adequados em muitos lugares, contribuem para alguns dos problemas mais graves do mundo, como os males relacionados entre si da má qualidade da saúde e da pobreza crônica”, disse Zafar Adeel, diretor da Rede Internacional de Água, Meio Ambiente e Saúde, com sede no Canadá e vinculado à UNU. A análise feita pela universidade conclui que melhores serviços hídricos e de saneamento reduzem a pobreza, ao estimular a produtividade individual, reduzindo os custos públicos e criando novas oportunidades de negócios para os empreendedores locais.

Assim, por que há redes de telefonia celular e não de saneamento? “Os especialistas não fazem um bom trabalho ao explicar as conseqüências do mau saneamento ao público ou aos políticos”, disse Adeel. Por essa razão os países em desenvolvimento estão mais interessados em gerar exportações ou desenvolvimento econômico. As nações doadoras e as agências de assistência têm um objetivo semelhante: preferem melhorar a entrega de remédios ou desenvolver novos medicamentos em lugar de fazer do saneamento uma prioridade. A Fundação Gates tenta desenvolver uma vacina contra a cólera, quando a maneira fácil e rápida de reduzir a propagação dessa doença é melhorar o tratamento da água, disse Adeel. “Foi assim que o mundo industrializado deteve a cólera. Há uma desconexão real aqui”, ressaltou.

Em todo o planeta, quase 900 milhões de pessoas carecem de fornecimentos hídricos seguros, e 2,5 bilhões de pessoas vivem sem acesso a um saneamento melhorado. Delas, pelo menos 80% vivem em áreas rurais. Instalar banheiros em cada comunidade é algo que pode ser feito a um custo relativamente baixo, afirmou Corinne Wallace, pesquisadora do Instituto Internacional de Água, Meio Ambiente e Saúde. “As comunidades locais não vêem isto como uma prioridade porque as pessoas não estabelecem uma ligação entre água segura e doenças. Ter diarréia é visto como algo normal, por isso as pessoas não pensam que existe um problema”, disse Wallace à IPS.

Em 2002, o número total de mortes atribuídas à água de má qualidade, problemas de saneamento e higiene foi de aproximadamente 3,5 milhões. Por ano, cerca de quatro bilhões de pessoas contraem doenças diarréicas, e se considera que 94% desses casos podem ser prevenidos. A saúde ruim, especialmente com as enfermidades crônicas, pode colocar um lar abaixo da linha da pobreza, conclui a análise da UNU. Isto se perpetua, porque um lar afetado pela pobreza é mais propenso a uma saúde ruim. Os baixos níveis educacionais e a falta de conhecimento fazem com que este ciclo se mantenha. A educação é necessária para mostrar os vínculos diretos entre a água segura e o saneamento com melhor saúde e produtividade, enfatizou Wallace.

A demografia cambiante também torna mais urgentes os problemas do saneamento, já que as pessoas fluem em manadas para as áreas urbanas, pressionando cada vez mais uma infra-estrutura que já é velha e inadequada. Isto cria condições para futuros focos de doenças muito mais graves, disse Adeel. Além disso, a mudança climática colocará os sistemas existentes sob uma pressão ainda maior, por meio do incremento das inundações, das temperaturas e do nível do mar, reduzindo a disponibilidade de água doce nas áreas costeiras. Nenhum destes problemas é novo, mas se continua sem saber onde se necessita de ajuda com mais urgência.

“É assombroso que, apesar de toda a atenção dada a estas questões durante décadas, o mundo não tenha traçado adequadamente um mapa dos problemas de água e saneamento”, disse Adeel. Os especialistas em água da UNU trabalham com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros organismos para desenvolver uma ferramenta mundial que permita determinar a situação do saneamento, dando ênfase às regiões mais necessitadas. O delta do Mekong, no sudeste asiático, é a primeira região estudada, e os resultados atualmente estão sendo verificados no terreno. Adeel disse esperar que o estudo esteja completo no prazo de dois anos.

O saneamento continua sendo uma espécie de tabu. Nenhum país o considera prioridade. Por isso, Adeel considerou relativos os êxitos anunciados pela ONU neste Ano Internacional do Saneamento. Houve várias reuniões e uma maior conscientização sobre o assunto, mas não respostas diretas nem compromissos importantes. Estima-se que o custo mundial de levar água limpa e saneamento a quem não os tem varia de US$ 12 bilhões a US$ 20 bilhões ao ano.

Não é uma quantia enorme considerando que os Estados Unidos acabam de comprometer US$ 700 bilhões para resgatar seu setor financeiro em crise. “Os norte-americanos gastam US$ 22 bilhões ao ano para ir ao cinema. E os europeus gastam US$ 12 bilhões comprando água engarrafada”, comparou Adeel. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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