ISRAEL: A violência inevitável

Ramalah, Palestina, 23/10/2008 – A difícil coexistência entre judeus e árabes israelenses se complicou ainda mais depois de uma série de distúrbios na cidade de Acre, norte de Israel. A violência da semana passada, a pior já vista no país há muitos anos, era inevitável, segundo organizações de direitos humanos, que acusam o Estado de tratar os árabes israelenses como cidadãos de segunda classe. A Associação para os Direitos Civis em Israel em seus últimos informes revela que o racismo contra os árabes israelenses cresceu de “forma drástica”, assim como os “incidentes antiárabes”.

O parlamentar árabe Mohammad Barakeh acusou a policia israelense de discriminação em seu trato com os cidadãos árabes e acusou os políticos judeus de “usarem uma linguagem racista às vésperas das eleições municipais”. Setenta por cento da população de Acre são judeus e o restante árabe. É uma das várias cidades israelenses com população mesclada árabe-judia. Os árabes, de ascendência Palestina, representam cerca de um quinto da população total do país, de sete milhões de habitantes. Na violência de cinco dias, várias casas árabes foram incendiadas, ambulâncias atacadas, propriedades judias saqueadas, mais de 60 pessoas foram detidas e outras dezenas ficaram feridas.

Os combates começaram depois que Tawfiq Jamal, um árabe, foi atacado quando viajava em seu automóvel por uma área predominante judia de Acre no começo do Dia do Perdão, um dos mais sagrados do judaísmo. Um grupo de judeus ortodoxos acusou Jamal de não respeitar a celebração. O carro foi apedrejado e bateram em Jamal. Logo se espalharam os boatos nos bairros árabes de que havia um assassinado, motivando centenas de jovens a saírem às ruas com bastões e facas para enfrentar os judeus. A política declarou estado de emergência, e centenas de policiais foram espalhados pela cidade. Os distúrbios finalmente foram controlados, mas a tensão continua.

Enquanto a cidade tentava se recuperar do dano físico e psicológico causado pelos enfrentamentos, analistas e políticos enchiam páginas dos jornais com teorias sobre as causas do ocorrido. A discriminação foi apontada como um dos fatores mais importantes. Na teoria, os árabes israelenses têm exatamente os mesmos direitos dos judeus israelenses. Tanto a declaração de independência quanto as leis fundamentais de Israel destacam oficialmente a igualdade para todos os cidadãos, sem importar sua religião. Mas, na pratica isso não acontece.

Pesquisas feitas nos últimos anos mostram que uma significativa maioria de israelenses não está disposta a viver no mesmo edifício com árabes, nem a convidá-los a suas casas. Muitos israelenses inclusive pedem sua expulsão. Lucy Mair, autora do informe “Folra do mapa: as violações dos direitos de terra e moradia nas aldeias beduínas não reconhecidas de Israel”, da organização Human Rights Watch (HRW), diz que um dos setores mais marginalizados neste país é justamente esse grupo nômade. Muitos beduínos, apesar de integrarem o exército e exercerem a advocacia ou a medicina, vivem em casas em ruínas e carecem de serviços básicos como luz e água.

“As autoridades israelenses deliberadamente elaboraram planos nos anos 60 para ignorar as aldeias beduínas e considerá-las ilegais, e, portanto, sem direito a serviços básicos ou a permissões de construção”, diz o estudo. Muitas das casas foram em seguida demolidos por não terem autorização. O desemprego é mais alto entre os árabes israelenses, em comparação com seus colegas judeus. Isto é tanto conseqüência da discriminação no trabalho quanto do sistema educacional desigual.

Há vários anos a HRW fez um estudo sobre estas diferenças, baseando-se principalmente em estatísticas oficiais. A investigação descobriu que os árabes tinham de estudar sob péssimas condições ideais, com classes superlotadas, e que os professores dessa origem tinham um salário muito menor comparado com seus colegas judeus. O Ministério da Educação reconheceu que investia menos no sistema educacional árabe do que no judeu, e prometeu equilibrar a situação. Os árabes israelenses também sofrem discriminação na hora de adquirir terras. O Fundo Nacional Judeu controla a maior parte do território israelense e estipula que apenas os judeus podem comprar terras.

Os árabes tampouco podem viver em Israel com esposas procedentes dos territórios palestinos ocupados, mas suas mulheres judias originárias de outros países têm direito automático à cidadania, explicou a organização de direitos humanos B’Tselem. As casas dos palestinos construídas sem autorização em Jerusalém oriental são mais propensas a serem demolidas do que as dos judeus que o fazem na mesma condição em Jerusalém ocidental. Também têm mais dificuldades para obter permissões, disse Jeff Halpfer, do Comitê Israelense Contra as Demolições de Casas.

“Israel também pratica uma política de judaização de Jerusalém oriental, dificultando aos moradores palestinos obter o status de residência, para, assim, criar uma maiooria judia”, explicou à IPS Suhail Khalilieh, chefe da Unidade de Assentamentos do Instituto de Pesquisa aplicada de Jerusalém. Há vários anos, o Grupo Internacional de Crise, organização para a resolução de conflitos, aconselhou Israel a trabalhar contra a discriminação. A maioria de suas recomendações ainda não foi implementada.

Muitos árabes sentem-se alienados também politicamente, já que não participam da missão sionista, que foi a base da criação do Estado de Israel. O analista Walid Sharaffa, professor de cultura e mídia da Universidade de Birzeit, alertou que haverá mais violência. “A menos que se faça mais para reduzir a brecha cultural e ideológica entre as populações árabe e judia, Israel sofrerá uma rebelião interna no futuro próximo”, disse Sharaffa à IPS. (IPS/Envolverde)

Cherrie Heywood

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