ÁGUA-ÁFRICA: Camadas subterrâneas, o recurso invisível

Gaborone, 21/11/2008 – As camadas subterrâneas são uma fonte de água segura que, manejada adequadamente, pode durar séculos. O desafio é como localizá-las e controlar as conseqüências de sua extração. “Como é um recurso em boa parte invisível, a água subterrânea costuma ser vulnerável e às vezes está contaminada por atividades realizadas na superfície e por falta de saneamento”, disse Willi Struckmeier, presidente eleito da Associação Internacional de Hidrogeólogos.

“Para proteger a água subterrânea são necessárias não apenas leis, mas que estas sejam aplicadas”, afirmou em um painel sobre manejo deste recurso na região da Comunidade de Desenvolvimento da África austral (SADC) que aconteceu nos dias 18 e 19 em Botswana. Struckmeier disse que a África deveria considerara a água subterrânea como uma prioridade da agenda política. Dos debates participaram cerca de 50 pessoas com variados graus de perícia no manejo de água subterrânea, da SADC e de outras regiões do mundo.

O secretário-executivo do bloco, Tomaz Salomão, disse em mensagem aos participantes que essas camadas de água continuam sendo pouco consideradas na região apesar de serem uma fonte notável para aproximadamente 60% dos cerca de 240 milhões de habitantes da região. Esta água constitui “um importante recurso que, embora pouco compreendido, deveria ser bem manejado e conservado para garantir sua disponibilidade em termos de quantidade e qualidade”, afirmou Salomão em um discurso lido em seu nome por Remmy Makumbe, diretor de infra-estrutura e serviços da secretaria da SADC.

Salomão disse que não estava em dúvida a centralidade da água para a SADC. “O Protocolo da SADC sobre cursos hídricos compartilhados reconhece a água subterrânea como parte integral do manejo integrado dos recursos hídricos, que é nosso programa-chave”, acrescentou. Explicou que na SADC as camadas subterrâneas estavam sendo incorporadas aos programas de manejo de rios, sob os programas de Manejo Integrado de Recursos Hídricos (IWRM), especialmente o Plano Indicativo Regional de Desenvolvimento Estratégico da SADC.

“Nossa resolução de cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio como região é uma obrigação, e hoje este processo é um dos meios para esse fim”, disse Salomão. “Nossa pontuação sugere que estamos encaminhados, mas devemos fazer mais. Com o fantasma da mudança climática, espera-se que a SADC enfrente desafios em relação à disponibilidade de recursos hídricos no futuro, e a água subterrânea terá um papel crítico, já que a maioria das populações rurais depende das camadas subterrâneas como fonte de água potável”, acrescentou.

Portanto, é preciso maior compreensão da água subterrânea, de seu manejo, uso e proteção para se preparar para os desafios futuros em matéria de disponibilidade de água. “Uma das coisas mais difíceis da água subterrânea é que se trata de um recurso escondido, por isso seu manejo é mais complexo do que o da água de superfície”, disse Richard Owen, especialista em questões hídricas da Universidade de Zimbábue. “Quando há um corpo de água superficial pode-se ver que está vazio e com essa informação usuários como municipalidades, agricultores, etc, podem planejar. Não ocorre o mesmo com a água subterrânea”, acrescentou Owen.

Segundo Struckmeier, a SADC tem especialistas em hidrologia bem treinados. Mas, admitiu que não é fácil retê-los,especialmente no setor público. Muitos estão em empresas privadas, onde o salário é maior. Um participante do painel disse que entre os maiores desafios do manejo da água subterrânea são falta de consciência e dificuldades na hora da fornecer acesso à mesma em assentamentos rurais onde as pessoas mais precisam. “Necessitamos criar uma consciência entre os políticos, que são catalizadores em termos de elaborar programas de água subterrânea. A falta de recursos também é um desafio, especialmente em relação à exploração das camadas. É preciso um programa coordenado e com um centro claro. Necessitamos mobilizar recursos do setor público e dos doadores”, afirmou.

O painel foi organizado pelo Conselho de Ministros Africanos sobre Água, pela Universidade do Cabo Ocidental através da cadeira de Hidrologia da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), pela SADC e pela agência alemã para o desenvolvimento sustentável GTZ, com financiamento do Ministério Federal para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento, da Alemanha. (IPS/Envolverde)

Moses Magadza

Winner of the prestigious SADC Media Award (2008) and nine other journalism awards, Moses Magadza is a Zimbabwean journalist and editor. He lives in Windhoek, Namibia, where he is studying further.

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