AMBIENTE-CHILE: Suspensas represas da Patagônia

Santiago, 21/11/2008 – Organizações não-governamentais comemoram no Chile a decisão do consórcio HidroAysén de suspender por nove meses a tramitação ambiental do projeto que busca construir cinco represas na Patagônia, sul do país.

Río de la Patagonia chilena - Credit:John Spooner/Flickr.com

Río de la Patagonia chilena - Credit:John Spooner/Flickr.com

“Estamos contentes, principalmente porque se reforçou nossa opinião de que era um projeto ruim e um mau Estudo de Impacto Ambiental (EIA)”, disse à IPS Sara Larraín, integrante do Conselho de Defesa da Patagônia, formado por 50 organizações chilenas e estrangeiras contrárias à iniciativa por causa de seus impactos ambientais, sociais e turísticos.

A empresa solicitou na quarta-feira a Comissão Nacional do Meio Ambiente (Conama) de Aysén adiamento ate agosto de 2009 da tramitação do EIA, decisão que foi aceita no mesmo dia. O consorcio, formado pelas firmas geradoras Endesa e Colbún, pretende construir cinco megacentrais hidrelétricas em dois rios caudalosos da austral região de Aysén, Baker e Pascua. O investimento estimado é de US$ 3,2 bilhões. As centrais, que inundarão 5.910 hectares, pretendem injetar 2.750 megawatts no Sistema Interligado Central, que abastece mais de 90% da população chilena. Para isso é necessário instalar uma rede elétrica de 2.000 quilômetros atravessando oito regiões do país. O EIA correspondente às centrais foi apresentado no dia 14 de agosto. O texto de 10.500 páginas, e custo de US$ 12 milhões, foi preparado durante três anos pelas empresas chilenas Poch e EPS e pela sueca Sweco.

Dos 36 serviços públicos que receberam o projeto, 32 fizeram observações que foram reunidas no Informe Consolidado de Solicitação de Esclarecimentos, Retificações e/ou Ampliações (Icsara). Embora o governo informasse que foram mais de três mil as observações, a empresa disse ter recebido apenas 2.643. A Conama de Aysén notificou a companhia no último dia 13 de que o prazo para responder ao informe terminaria ontem, levando a empresa a optar por pedir a suspensão na quarta-feira. Além disso, na próxima segunda-feira termina o processo de participação da cidadania.

“Este é o projeto de maior envergadura e complexidade enfrentado pela institucionalidade de meio ambiente do Chile”, disse Hernán Salazar, gerente-geral da HidroAysén, em um comunicado de imprensa. “Como é de enorme relevância para o futuro energético do país”, a iniciativa “deve ser amplamente conhecida por organismos técnicos, autoridades e cidadania de Aysén e de todo o Chile”, acrescentou. “Neste contexto, solicitar uma suspensão é uma alternativa totalmente habitual neste tipo de processo e servirá para contar com o tempo necessário a fim de complementar a informação do EIA”, disse o executivo.

A ministra do Meio Ambiente, Ana Lya Uriarte, disse em outubro que o EIA não “estava à altura” do exigido. Estas declarações foram moderadas por outros funcionários que se manifestaram a favor da construção das represas, como os ministros de Energia, Marcelo Tokman, e o do Interior, Edmundo Pérez Yoma. Tokman disse que o “problema” do projeto não eram as represas, mas a linha de transmissão de dois mil quilômetros, cujo estudo ambiental será apresentado no próximo ano. A empresa, em lugar de fazer uma autocrítica, questionou a idoneidade dos serviços públicos.

O gerente-geral da Colbún, Bernardo Larraín Matte, disse que “se fizermos uma analogia, o SAG (Serviço Agrícola-Pecuário) usou uma régua de papelaria para estimar a superfície inundada, enquanto a HidroAysén lançou mão de um instrumento de medição com precisão laser”. Antes que a Conama notificasse à empresa sobre o Icsara, a estatal Direção de Águas (DGA) já havia questionado a possibilidade de execução do projeto ao rejeitar um pedido de direitos de água apresentado pela companhia, tema que poderia ser dirimido paralelamente nos tribunais.

“O estudo apresentado à Avaliação Ambiental sofre de informação relevante e essencial que permita: entender o projeto; caracterizar corretamente os diferentes componentes ambientais; prever e avaliar seus impactos e em conseqüência verificar que o Titular se encarregue deles”. A “informação geológica, hidrogeológica, geomorfológica e os estudos de riscos naturais associados a fenômenos geológicos, apresentados na Linha de Base, são insuficientes para avaliar ambientalmente o projeto”, disse, por sua vez, o Serviço Nacional de Geologia e Mineração (Sernageomin).

“Nos chamou a atenção positivamente que houvesse tal consistência e consenso entre os serviços públicos, que fizeram um tremendo trabalho. Este processo serviu para legitimá-los. Houve uma recuperação da confiança”, disse Sara Larraín. Mas, o Conselho de Defesa da Patagônia questionou que o governo decidisse continuar a tramitação do projeto em lugar de rejeitá-lo, considerando que 11 serviços públicos concluíram que o EIA “carece de informação relevante e essencial”.

Neste momento, as represas estão no centro do debate nacional. Alguns atores dizem que, caso a iniciativa não se concretize, haverá risco para a segurança energética do Chile, que importa 72% da energia que consome em forma de gás, carvão e petróleo. “A HidroAysén é um projeto estratégico, que pretende dar ao Chile energia limpa, renovável e de menor custo, contribuindo para o desenvolvimento sustentável”, argumenta a companhia. Uma pesquisa encomendada pela própria empresa, divulgada em outubro, indica que 51% dos entrevistados estavam a favor da construção das represas e 29 contra.

Por outro lado, no último dia 16 o jornal local La Tercera afirmou que o reputado assessor de imagem contratado pelo governo, o britânico Simon Anholt, chegou à conclusão de que as centrais vão contra o conceito que o Chile quer projetar como país que protege sua riqueza natural. A tese teria sido apresentada em uma reunião privada que manteve com empresários e líderes de opinião no Chile. Entretanto, os cálculos da empresa indicam que a decisão definitiva será tomada no próximo governo, que substituirá o de Michelle Bachelet a partir de 11 de março de 2010. “Enquanto o projeto não for absolutamente rejeitado e deixado de lado como parte do futuro energético do país, o Conselho de Defesa da Patagônia continuara trabalhando”, disse Sara Larraín. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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