METAS DO MILÊNIO: Um modelo global, aldeia por aldeia

Seattle, Estados Unidos, 17/11/2008 – Trabalhar pelo desenvolvimento sustentável no Quênia é uma tarefa de enormes proporções. Este país figura no posto 148 entre os 177 analisados no Índice de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV, causador da aids) afeta 6,1% de seus 37 milhões de habitantes. Aproximadamente 60% dos quenianos vivem com menos de dois dólares por dia. Como se faz para melhorar a saúde e as condições de vida da população do Quênia? Trabalhando aldeia por aldeia, afirmam ativista.

“As comunidades são as que têm os conhecimentos, e os usamos para melhorar o que estão fazendo bem”, disse Loyce Mbewa Ong’udi, fundadora e diretora do Projeto da Aldeia de Rabuor, onde ela nasceu, e que dirige desde a cidade norte-americana de Seattle. Seu enfoque se baseia em uma estreita relação com os membros da comunidade que participam em todo nível de planejamento. São eles os especialistas, os que definem suas prioridades e os que identificam seus problemas e as soluções.

O projeto nasceu com reação diante do crescente número de órfãos devido à epidemia de aids, que devastou a comunidade. Ong’udi começou enviando dinheiro para ajudar sua mãe, Rosemell, que havia começado a alimentar as crianças que necessitavam de cuidados adequados. “Vimos que o problema era enorme. Poucas mulheres estavam disponíveis para cuidar dos órfãos menores. Não tinham tempo para conseguir comida e água. Os que estavam doentes enfrentavam perigos muito graves”, recordou.

Depois, quando uma clinica local começou a realizar testes para detectar o HIV e a entregar medicamentos contra a aids surgiram outros problemas. As pessoas doentes e desnutridas tinham dificuldades para ingeri-los, ou não podiam chegar à clinica por falta de transporte. Em resposta, o projeto criou um número maior de centros para realizar os exames. Meia centena de mulheres e homens receberam treinamento básico em cuidados com a saúde.

Mas, além disso, estão concentrando esforços no desenvolvimento de atividades econômicas: produção de tijolo, óleo de girassol e criação de cabras, além da implementação de um programa de microcréditos. Outras das muitas iniciativas incluem garantir o acesso à água potável e as oportunidades educativas de crianças e jovens. “Estes modelos são uma forma de levar serviços de forma direta a lugares onde existem boas relações”, disse Susan Bolton, professora-adjunta de engenharia do ambiente civil da Universidade de Washington. “Não recorremos a especialistas externos. A maioria dos fundos vão diretamente par ao projeto. Contratamos especialistas locais”, disse Ong’udi.

O modelo ganhou forte apoio. Em 2004, a Organização das Nações Unidas lançou seu Projeto de Aldeias do Milênio (MVP), que se baseia em uma filosofia similar. O objetivo do programa é eliminar a pobreza extrema trabalhando na África subsaariana para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015. A primeira Aldeia do Milênio, em 2004, foi a de Sauri, no Quênia ocidental. A ONU destacou que após dois anos a região “passou da fome crônica a triplicar suas colheitas” e que seus habitantes puderam vender seus produtos no mercado nacional pela primeira vez em muitos anos. Já existem 12 Aldeias do Milênio na África subsaariana.

Alguns especialistas consideram que reduzir as brechas culturais e entender as prioridades locais são a chave para conseguir um desenvolvimento sustentável. “Em meu trabalho na Bolívia com a organização Engenheiros Sem Fronteiras é vital conhecer o que pensa a comunidade sobre suas necessidades, para ajudar as pessoas a atendê-las de uma forma que possam manter e operar novos sistemas, físicos ou sociais”, disse bolton. Shana Greene, fundadora da organização humanitária Village Volunteers, com sede em Seattle, compartilha esse ponto de vista. “Trabalhamos com líderes que entendem suas comunidades. A atuação das pessoas está mais relacionada com a oportunidade de encontrarem suas próprias soluções do que em dizer a elas o que nós pensamos”, afirmou

Ong’udi “entende profundamente os fios entrelaçados que devem formar a rede de segurança que livre sua aldeia do HIV/aids e da pobreza”, disse Tim Costello, fundador e diretor da Slum Doctors, organização sem fins lucrativos que trabalha para melhorar as condições dos doentes de aids na África. Costello ajuda economicamente o projeto de Ong’udi, de quem é amigo. Viaja a Rauor a cada ano e se diz impressionado com os avanços que constata. Mas, acredita que o objetivo fundamental deve ser reduzir a necessidade de contar com doadores. “Creio que este tipo de desenvolvimento apenas funcionará quando as comunidades virem a si mesmas como as que podem realizar as mudanças em suas vidas”, afirmou. Ong’udi gostaria que seu modelo fosse aplicado em outras partes, pois considera que os desafios apresentados pela pobreza são semelhantes em outras nações em desenvolvimento. IPS/Envolverde

Michael J. Carter

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *