Boston, 17/11/2008 – Cinco semanas depois da aprovação legislativa do resgate para as instituições financeiras norte-americanas ao custo de US$ 700 bilhões, ainda não foi implementada nenhuma medida para ajudar famílias em risco de perder suas casas. “Estão dadas as condições para um verdadeiro desastre econômico”, alertou na semana passada Susan Wachter, da Escola de Economia Wharton, da Universidade de Pennsylvania, em uma audiência da Comissão de Bancos, Habitação e Assuntos Urbanos do Senado norte-americano. “Não esqueçamos que o problema é a moradia”, ressaltou. Ainda não está claro como se ajudará os proprietários de imóveis que deixam de pagar os empréstimos que fizeram para comprá-los em uma proporção sem precedentes. O problema das execuções hipotecarias está se agravando, em lugar de melhorar”, disse na mesma audiência Martin Eakes, diretor de Autoajuda e Centro para os Empréstimos Responsáveis, organização de desenvolvimento comunitário sem fins lucrativos. O Congresso se reunirá nesta semana para decidir se destina US$ 25 bilhões, ou mais, para ajudar a indústria automobilística. É provável que também elabore um projeto para incentivar a criação de emprego e ajudar os desocupados. Mas, não existe nenhuma iniciativa para atender os problemas dos proprietários de casas. Depois da reunião desta semana o Congresso pode entrar em recesso até janeiro.
O secretário do Tesouro, Henry Paulson, encarregado da administração do pacote de US$ 700 bilhões, disse na quarta-feira que os próximos setores a receberem ajuda seriam os de créditos ao consumo, empréstimos estudantis e empréstimos para compra de automóveis, mas não os que estão perdendo seus lares. “Continuamos explorando alternativas para reduzir o risco de execução hipotecaria”, disse Paulson aos jornalistas, e mencionou um novo programa, pelo qual os prestamistas dariam aos devedores novos créditos a uma taxa de juros menor.
Cheia Bair, presidente da Corporação Federal de Seguros de Depósitos, elaborou um agressivo plano para ajudar os proprietários de imóveis em má situação, baseado na proposta de que o pagamento mensal das hipotecas não represente mais do que 31% da renda familiar. Mas esse plano parece estar patinando, possivelmente até que o presidente eleito, Barack Obama, assuma o cargo no dia 20 de janeiro. A partir dessa data seu gabinete terá o controle sobre o remanescente do pacote de US$ 700 bilhões, que segundo estimativas poderá ser de aproximadamente US$ 350 bilhões.
Não se sabe se Obama recorrerá a esses fundos para ajudar os proprietários de imóveis, embora apóie a idéia de os tribunais de falências modificarem as condições dos créditos que caíram em inadimplência, o que poderia determinar a execução hipotecaria. Eakes disse apoiar a proposta de Bair e a idéia de Obama sobre os juizes modificarem os termos das hipotecas. Os prestamistas, acrescentou, não oferecerão voluntariamente condições mais favoráveis. O banco Credit Suisse modificou os termos de apenas 3,5% de sua carteira de créditos morosos em agosto, afirmou Eakes.
Enquanto não se contém o problema das execuções hipotecarias, a economia em seu conjunto não poderá sair da recessão, alertou Wachter. Inclusive, pode agravar, pela interação dos problemas do setor financeiro, queda nos preços das moradias e deterioração da economia, acrescentou. As execuções hipotecarias aumentaram 5% em outubro, segundo a consultoria RealtyTrac, que indicou que a maior taxa se registra nos Estados de Arizona, Califórnia, Florida, Geórgia, Michigan, Nevada, Nova Jersey, Ohio e Texas. Quase três milhões de famílias perderam suas casas e 2,3 milhões estarão nessa situação até o final de 2009, segundo uma análise de dados da Associação de Banqueiros Hipotecários realizado pela organização de Eakes.
A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, com sede em Paris, anunciou na semana passada que as economias de 30 países ricos caíram em recessão, incluindo Estados Unidos, Japão e a maioria das nações européias. Segundo a análise da OCDE, o produto interno bruto desses países se contrairá no próximo ano, mais severamente nos Estados Unidos. A organização disse que é a primeira vez que observa uma recessão simultânea em um grupo tão grande de nações desde que começou a analisar a situação econômica nos anos 70.
O estudo foi divulgado às vésperas da reunião do Grupo dos 20, que inclui nações ricas e emergentes, que aconteceu neste final de semana na Casa Branca, com a finalidade de coordenar esforços destinados a aliviar a crise, como incentivos fiscais e regulamentações. O presidente George W. Bush disse que se oporia a tentativas de regular a economia. “Seria um terrível erro permitir que uns poucos meses de crise apagassem 60 anos de sucesso”, disse Bush aos jornalistas na quinta-feira.
Uma das causas da atual crise econômica internacional foi o comportamento irresponsável de alguns prestamistas, que concederam milhões de créditos hipotecários a taxas de juros exorbitantes, as quais os tomadores, mais tarde, não puderam honrar. “A atual crise é um momento de práticas destrutivas no concessão de créditos, jamais vista antes em tal escala e com tão pouca supervisão. Infelizmente, todo o país está sofrendo as conseqüências”, disse Eakes.
Os bancos compraram e venderam essas hipotecas de alto risco e criaram complexos instrumentos financeiros que colocaram em todo o mundo, acumulando ganhos sem precedentes e sem nenhum tipo de regulamentação. Agora que os proprietários estão deixando de pagar as prestações de seus empréstimos e os preços das casas estão em queda livre, muitos desses títulos em poder dos bancos são pedaços de papel quase sem valor.

