ELEIÇÕES-EUA: Leve brisa de mudança em relação à América Latina

Nova York, 03/11/2008 – A possibilidade de mudanças na política dos Estados Unidos em relação à América Latina caso o senador Barack Obama seja eleito presidente no próximo dia 4 é motivo de certo debate entre especialistas. “Não creio que Obama esteja destinando muita energia à América Latina”, disse à IPS Forrest Hylton, autor de “Evil hour in Colombia” (Hora do mal na Colômbia) e “Revolutionary horizons: past and present in Colombia” (Horizontes revolucionários: passado e presente na Colômbia). “Isto pode ser em razão da crise econômica. Mas não perco a esperança porque ele é muito racional e pragmático”, afirmou.

As pesquisas prevêem uma cômoda vitória de Obama, do opositor Partido Republicano, sobre John McCain, candidato pelo Partido Republicano, no poder, tanto em quantidade de votos em termos absolutos como em cadeiras no colégio eleitoral. Pesquisadores e especialistas em assuntos latino-americanos estão muito preocupados pelo papel dos Estados Unidos na região nos últimos anos, e esperam mudanças, disse Hylton, também professor da Universidade de Nova York. “Aproveite a oportunidade histórica para melhorar as relações com a América Latina”, diz a carta que Hylton e outros especialistas na matéria enviaram terça-feira a Obama. “Seja um sócio, não um adversário, das mudanças que estão em andamento” no continente, acrescenta a carta.

A carta, que dá como certa a vitória eleitoral de Obama, foi assinada por quase 400 especialistas, entre eles Eric Hershberg, presidente da Associação de Estudos sobre América Latina, a maior organização mundial de especialistas em assuntos da região no mundo. “O felicitamos por sua campanha”, diz o texto. “Assim como os cidadãos dos Estados Unidos começaram a discutir assuntos básicos sobre que tipo de sociedade querem graças, em parte, à sua própria candidatura, também o fazem os da América Latina”, acrescenta a carta.

Os especialistas traçaram um paralelo entre o lema da campanha de Obama, “esperança e mudança”, e as aspirações de milhões de latino-americanos que ganharam batalhas por justiça econômica e social em seus próprios países. “O ímpeto de mudança na América Latina é uma rejeição ao modelo de crescimento econômico imposto na maioria dos países a partir dos anos 90 e que concentrou a riqueza, baseando-se, sem sucesso, nas forças ilimitadas do mercado para resolver problemas sociais profundos, que afetaram o bem-estar da população”, segundo os signatários. Esta mensagem está, mais ou menos, em consonância com a posição expressa por Obama ao longo de sua campanha.

De fato, o senador democrata foi atacado por sua proposta de aumentar os impostos para os ricos e melhorar a condição da classe média. Isso lhe valeu os adjetivos de “socialista” e “marxista”. Obama prometeu diminuir de imediato algumas das sanções impostas pelo presidente George W. Bush a Cuba nos últimos anos e defendeu uma “nova aliança das Américas” na qual os vizinhos do sul não sejam tratados como “sócios menores”. Também é a favor de um “aumento substancial” da ajuda norte-americana à região, mediante mecanismos que reduzam a “diferença esgotadora” entre ricos e pobres e a promoção de “um desenvolvimento de baixo para cima”.

Entretanto, fez esta promessa antes da mais recente fase da atual crise financeira e econômica. “Em lugar de envolver a população da região, agimos como se ainda pudéssemos lhes dar pautas de forma unilateral”, disse Obama em maio, em um discurso sobre a América Latina. O grupo de especialistas também rechaça a atual política dos Estados Unidos na América Latina, aplaudiu o papel dos novos governos democráticos e disse que os atuais “movimentos por mudança” na região obtêm sua força da ativa participação de trabalhadores, camponeses, mulheres e comunidades indígenas. “Não são títeres nem estão cegos por um fanatismo ou uma ideologia, como os caricaturizam alguns meios de comunicação. Ao contrário, esses movimentos merecem nosso respeito e amizade”, diz a carta.

Em seus discursos Obama prometeu reformar a política externa dos Estados Unidos, incluindo o vínculo com países latino-americanos para os quais Bush teve uma atitude hostil. A imprensa de direita o atacou por expressar sua inclinação ao diálogo com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Para a maioria do público latino-americano, os Estados Unidos são “um agressor e garantia de um sistema econômico internacional que funciona contra eles e não para eles, a antítese da esperança e da mudança”, disse Hershberg.

Nos anos 70 e 80, ditaduras militares apoiadas por Washington cometeram graves violações de direitos humanos, incluindo a execução extra-judicial de opositores, prisão em massa e desaparecimento de dirigentes políticos e sindicais. A retórica pró-democrática e libertária de Washington não condiz com sua hostilidade contra países com Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela, cujos governantes chegaram ao poder com apoio de vastas maiorias eleitorais. Há pouco, Bolívia e Venezuela expulsaram os embaixadores dos Estados Unidos, acusados de conspirar contra a oposição dessas nações.

Os Estados Unidos devem enfrentar de forma ativa os direitos humanos em todos os países, incluídos seus aliados na região como Colômbia, México e Peru, afirmaram na carta os especialistas. Além disso, disseram que “infelizmente, aos olhos de muitos latino-americanos, os Estados Unidos se converteram em defensor de regimes injustos”. Também reclamaram novas medidas para garantir a liberdade de pesquisa acadêmica no âmbito local e levantar a proibição do intercâmbio de idéias com especialistas cubanos. Têm esperanças de que Obama possa promover acordos e cooperação no hemisfério. Embora para Hylton nada disso será possível se não aparecer nos Estados Unidos um movimento de base que vigie o governo. “Um forte movimento progressista de trabalhadores obrigaria Obama a implementar nossa agenda, mas não vejo isso no horizonte”, admitiu. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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