FINANÇAS: ONU estudará novo sistema internacional

Nova York, 03/11/2008 – Economistas e delegados de governos questionaram na Organização das Nações Unidas as políticas neoliberais de desregulamentação do mercado, implementadas a instancias de organismos multilaterais de crédito, e reclamaram uma nova arquitetura financeira, mais inclusiva. “Devemos aproveitar a crise para analisar os acordos globais e as doutrinas imperantes”, destacou na quinta-feira o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz em um painel da Assembléia Geral da ONU sobre o assunto. Stiglitz vai dirigir uma nova equipe de trabalho das Nações Unidas que analisará o sistema financeiro internacional, incluídas suas grandes instituições, e apresentar propostas de funcionamento para uma ordem econômica mais estável. Os demais integrantes da equipe serão conhecidos em breve.

O economista criticou duramente o atual sistema financeiro internacional por agir em “detrimento das nações em desenvolvimento”. A liberalização do mercado financeiro e de capital nos países pobres, impulsionada pelo Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, “muitas vezes não conseguiu os benefícios prometidos de maior crescimento, mas aumentou a instabilidade”, segundo Stiglitz. Após acusar o FMI de ser causa dos problemas atuais a não parte da solução, propôs criar uma nova instituição financeira internacional com fundos de países com grandes reservas como China, Índia, Japão e nações exportadoras de petróleo.

Os votos na direção do FMI são calculados com base na contribuição econômica dos países à instituição. Assim, as nações em desenvolvimento têm uma representação muito magra em relação à sua população. “O FMI cria dificulta para aqueles que não podem erguer sua voz devolver o dinheiro” em um contexto em que é necessário um fórum internacional para facilitar a liquidez das nações em desenvolvimento, disse o economista. Diante da falta de representação dos países de renda média e baixa, nem o FMI nem o Banco Mundial são os meios adequados para promover um novo consenso internacional sobre assuntos econômicos importantes. A única instituição que atualmente goza de ampla legitimidade é a ONU”, ressaltou Stiglitz.

A razão do atual descalabro econômico se encontra nos países ricos, tal como ocorreu em outras oportunidades, mas as conseqüências podem ser ainda mais devastadoras nas nações pobres, destacou Sakiko Fukuda-Parr, professora de relações internacionais da New School Graduate Program in Internacional Affairs, de Nova York. “Quando uma crise golpeia afeta a vida de pobres e marginalizados, que são os que mais custam a se recuperar e, muitas vezes, nunca voltam à posição que tinham antes”, afirmou. Como outros que falaram no painel, Fukuda-Parr defendeu um afastamento das políticas econômicas neoliberais de desregulamentação e liberalização, voltando-se para as keynesianas.

As políticas do economista britânico John Maynard Keynes (188301946), a favor da intervenção do Estado mediante medidas fiscais e monetárias para evitar as recessões, se basearam em suas observações da crise de 1919 nos Estados Unidos. “As medidas promovidas sob o guarda-chuva ideológico do neoliberalismo impediram os países de implementar as políticas” keynesianas, disse a professora à IPS. O presidente da Assembléia Geral, Miguel D’Escoto, também criticou as associações de países ricos, com o Grupo dos Oito mais poderosos, e ressaltou que “é hora de deixar de ver a economia mundial como a parte privada de um clube exclusivo”.

Junto a diplomatas das nações em desenvolvimento, D’Escoto cobrou a criação de uma nova arquitetura financeira internacional com adequada representação de todos os países e destacou o papel fundamental da Assembléia Geral da ONU, onde todos os Estados gozam do mesmo direito de voto.”Apenas uma participação total em um contexto com verdadeira representação devolverá a confiança dos cidadãos em nossos governo e nossas instituições financeiras disse o presidente da Assembléia Geral. O representante norte-americano na reunião não mencionou explicitamente a necessidade de reformar o FMI e o Banco Mundial, instituições criadas na Conferência Monetária e Financeira da ONU de 1944 em Bretton Woods. Mas, disse que “essas instituições têm possibilidades de ajudar as nações que precisam de assistência”.

Os Estados Unidos são o único país com poder de veto para muitos assuntos na estrutura do FMI e do Banco Mundial, pois esse direito depende da contribuição econômica de cada Estado. Stiglitz responsabilizou esse país pela crise financeira e destacou que “os mercados financeiros norte-americanos contaminaram o mundo com seus créditos hipotecários envenenados e causaram uma desaceleração mundial e agora deve pagar para consertar” a situação. Além disso, rechaçou o enfoque de Washington sobre a crise: o resgate dos bancos com problemas e a ajuda a outras empresas a um custo de US$ 1,5 trilhão. “Se fez muito pouco sobre as causas subjacentes do problema, os lançamentos, como ajudar os proprietários que perderam suas casas e os trabalhadores que ficam sem emprego e ajudar a economia que acabou sendo afetada”.

Os participantes do painel da ONU têm esperanças de que na cúpula do Grupo dos Oito em Washington, dia 15 próximo, e na Conferência Internacional de Acompanhamento sobre o Financiamento para o Desenvolvimento, que começa em Doha (Qatar) no dia 29 deste mês, ajudem a impulsionar as reformas do sistema financeiro internacional. O G-20, criado em 1999 em resposta às crises financeiras do final dos anos 90, é a união do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo, as grandes economias emergentes e a União Européia como bloco. (IPS/Envolverde)

Wolfgang Kerler

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