RELIGIÃO: Em busca de uma cultura de paz

Nova York, 11/11/2008 – Mais de uma dezena de líderes políticos se reunirão na Organização das Nações Unidas para impulsionar uma “cultura de paz”, insistindo em combater os equívocos em torno das religiões, especialmente o islã, e contra o crescimento do racismo, da xenofobia e da intolerância no mundo. A grande maioria dos chefes de Estado e de governo que participarão do encontro, marcado para quarta-feira e quinta-feira (10 e 11/11), serão dirigentes de países muçulmanos como Arábia Saudita, Barein, Egito, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Marrocos, Paquistão e Qatar.

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, também fará parte do encontro de dois dias, no contexto da Assembléia Geral da ONU, de 192 membros, na que será sua segunda visita à sede das Nações Unidas este ano depois das sessões de setembro. “Será uma conferência muito importante”, assegurou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmando que a ONU é o centro dos esforços mundiais no sentido de impulsionar respeito mútuo, compreensão e diálogo. A iniciativa da reunião foi do rei Abdulá bin Abdulaziz, da Arábia Saudita, guardião de duas mesquitas sagradas.

Com esta e outras iniciativas objetivando promover a compreensão e o reconhecimento entre religiões, diferentes confissões e culturas, a comunidade internacional poderá promover mais diálogo, harmonia e reconciliação, disse Ban. “Estou certo de que darão um bom impulso”, ressaltou. A reunião de alto nível dedicada a uma cultura de paz é a continuação de outra realizada em Madri, em julho de 2007. O encontro acontece em um contexto de crescente islamofobia, especialmente na Europa, onde foi agravado pela publicação de algumas caricaturas do profeta Maomé em um jornal dinamarquês e pelo aumento de ataques suicidas no Afeganistão, Iraque e Paquistão.

“O Islã nada tem a ver com ataques suicidas, nem do ponto de vista religioso nem de sua jurisprudência”, afirmou Ekmeleddin Ihsanoglu, secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica (OCI), com 57 membros e uma delegação permanente na ONU. “Por que um homem ou uma mulher se suicidam? Qual objetivo é mais valioso do que a própria vida. Quais razões psicológicas, políticas e sociais levam a esse tipo de ação?”, perguntou. Enquanto essas perguntas não encontrar uma resposta para essas perguntas e se lidar com o problema, o terrorismo e os atentados suicidas continuarão aumentando, disse Ihsanoglu em uma conferência da ONU.

Em março, Ban Ki-moon condenou “com duros termos” um filme que ofende o islã, divulgado na Holanda. “Não há nenhuma justificativa para um discurso de ódio que incite à violência”, ressaltou. “O direito à livre expressão não está em jogo aqui. A liberdade sempre deve vir acompanhada de responsabilidade social. Também temos de reconhecer que o verdadeiro problema não é entre muçulmanos e ocidentais, como alguns querem nos fazer crer, mas entre pequenas minorias de extremistas, dos dois lados, interessadas em incitar a hostilidade a o conflito.”, disse Ban.

O presidente da Assembléia Geral da ONU, o sacerdote católico nicaragüense Miguel d’Escoto, afirmou que a questão da reunião não é a religião. Se falará sobre os valores comuns das diferentes culturas, sejam religiosos, de civilizações, éticos ou filosóficos, acrescentou. Na semana passada os países-membros das Nações Unidas divulgaram o documento “Combater a difamação das religiões”. O conceito de “difamação das religiões” não é contemplado pelo direito internacional e os esforços para combatê-la costumam terminar em restrições à liberdade de pensamento, de consciência, de religião e de expressão, segundo os Estados Unidos.

Esse país reconhece que do ponto de vista legal o conceito de “difamação das religiões” é “muito problemático porque a legislação em matéria de direitos humanos existe para proteger as pessoas, não as religiões nem as ideologias e nem as crenças. Mas, o conceito visa a expressar a idéia de que a religião pode ficar amparada pela legislação de direitos humanos, o que pode prejudicar a proteção das pessoas”.

Quanto à liberdade de expressão, os Estados Unidos afirmam que os governos não devem proibir nem castigar declarações, mesmo quando forem ofensivas o incitarem ao ódio, com base em uma confiança subjacente de que em uma sociedade livre esse tipo de idéia não prosperará por sua falta intrínseca de méritos. Os Estados Unidos também consideram que se deve fazer mais para promover a compreensão inter-religiosa,que devem ser tomadas medidas concretas para fomentar a tolerância e que os direitos das pessoas são o melhor instrumento para combater os abusos e as ideologias de ódio. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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