FOTOGRAFÍA-EUA: Fotos da guerra para acabar com a guerra

Portland, EUA,, 11/11/2008 – O artista Jim Lommasson odeia a guerra. Sua mostra de 1.500 fotografias, feitas por soldados norte-americanos que combateram no Iraque, traz para dentro dos Estados Unidos essas imagens de uma maneira que – ele espera – possa ajudar a por fim à invasão. “Trata-se da vida dos soldados depois que voltam para casa. Quero que as pessoas os ouça, que apóiem os veteranos, prestem atenção ao que têm a dizer sobre o Iraque e o que fizeram aos civis”, disse Lommasson à IPS.

As fotos, selecionadas entre milhares arquivadas nos computadores pessoais dos soldados que serviram no Iraque, estão exibidas em duas paredes. Colagens de imagens rodeiam as fotos maiores dos soldados que as fizeram, acompanhadas com trechos das entrevistas que Lommasson fez com eles no último ano. “Mamãe, não desejaria a guerra nem ao meu pior inimigo”, diz uma citação. Próximo a ela pode-se ver fotos de bombas explodindo, crianças iraquianas olhando quem faz a foto e outra que mostre a visão de um franco-atirador através de sua mira telescópica, onde aparece a cabeça de um iraquiano parado diante de uma porta.

Enquanto olhava esta foto assinada “ex-fuzileiro da marinha John”, Mary Geddry, a mãe desse soldado, disse que “ele me disse o mesmo, frente a frente. Meu filho está totalmente incapacitado agora, com um severo estresse pós-traumático e dano cerebral”, acrescentou Geddry, membro da organização não-governamental do Estado do Oregon As Famílias dos Soldados se Fazem Ouvir. Lommasson disse que a intenção da mostra é expor temas que têm a ver com uma geração de soldados que esta se tornando crescentemente invisível para o público norte-americano. “Penso que todos acreditam na honestidade dos soldados, no que estão dizendo. Todos devem ouvi-los”, afirmou.

Enquanto Lommasson falava, uma mulher se aproximou enxugando as lagrimas… “Meu irmão me mostrou fotos com estas ao voltar do Iraque. O trouxe a esta exposição para as visse. Agradeço muito que faça isto, é necessário ver para saber que não se está sozinho”, afirmou. O “meu objetivo com este projeto é mostrar quanto são devastadoras estas guerras, o que se fez em nosso nome e os reais efeitos no longo prazo em termos econômicos e humanos para todos nós”, disse Lommasson. “Quero falar com as pessoas que estão do outro lado. Eles não me ouvirão, mas se construiu um fetiche sobre as tropas, por isso estarão obrigadas a prestar atenção aos soldados. Se o fizerem ouvirão uma história diferente da que receberam dos meios de comunicação tradicionais”, acrescentou.

Lommasson conheceu histórias de guerra da boca dos soldados. “Me falaram de atos desumanos que cometeram ou dos que foram testemunhas e o que fizeram aos civis no Afeganistão e no Iraque. O público norte-americano não tem muita informação sobre isto. A maioria dos norte-americanos não conhece um soldado ou não tem uma ligação pessoal. Temo que desde que a guerra do Iraque se tornou muito impopular haja uma infeliz confusão entre a guerra e o guerreiro. São duas coisas muito diferentes”, ressaltou.

A mostra inclui várias “fotos de troféus”: corpos viscerados, pés calcinados, um pedaço de braço no meio da estrada. Há fotografias que mostram uma mesquita, um veiculo militar norte-americano completamente destruído, poças de sangue sobre o asfalto e o canhão de um tanque onde foi escrito que “o tamanho importa”. Perto dessas imagens aparece o testemunho de um soldado-fotógrafo. “Quando voltei para os Estados Unidos bebia muito, tentando afogar tudo. Acordava dando socos no travesseiro. Gritava em meu quarto. Colocava armas em pontos estratégicos da casa. Se alguém quebrasse uma janela estaria preparado”, contou.

Tanto as fotos como as citações transmitem a angústia que os soldados levam em suas mochilas quando regressam ao lar. “Agora assumi a enlouquecedora tarefa de recordar aos meus apáticos concidadãos civis que existem guerras em andamento, gente que morre, que ninguém faz nada para que seu governo suspenda esta atrocidade”, acrescentou. A renda obtida com a mostra, que estará em exibição até o próximo dia 30, será destinada aos veteranos norte-americanos e às crianças iraquianas. Lommasson está convidando outros ex-combatentes a cederem suas fotos. “Espero levar a mostra por todo o país. Creio que é uma terapia para os veteranos cujas fotos e palavras estão em exibição, bem com para nosso país”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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