Nova York, 05/11/2008 – A cada ano uma milhão de pessoas cometem suicídio, duas a cada minuto, quando se trata de uma atitude que pode ser prevenida, segundo especialistas em saúde mental. “É trágico que em um mundo onde o número de suicidas é maior do que o de mortes em guerras, ataques terroristas e homicídios, se dê tão pouca atenção à prevenção do suicídio”, disse à IPS Brian Mishara, presidente da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio (Iasp). “Apenas uma dezena de países contam com uma estratégia nacional de prevenção”, ressaltou.
Ex-repúblicas soviéticas como Lituânia, Estônia, Bielorússia e a Federação Russa são os países com maior quantidade de suicidas por habitante. Mas é na Ásia onde se registra o maior número de suicídios, com 60% de todo o mundo. No continente, 40% ocorrem na China, Índia e Japão. As causas e os métodos variam muito de país para país. Para criar uma estratégia nacional é preciso ter em conta padrões culturais de suicídio, explicou Mishara. As causas não são tão simples de identificar. Mas, observou-se que na Ásia – por exemplo – as tensões familiares são a principal razão, ao contrário do Ocidente, onde a depressão clinica representa 90% dos casos.
“A principal diferença entre os suicídios na Europa, América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e outros lugares é que mais de 90% das pessoas que tiram a própria vida nesses nessas regiões e nesses países têm algum problema de saúde mental, enquanto, pelo menos na Ásia, isso ocorre em menos de 50% dos casos”, disse Mishara. “Nesse continente, há mais suicídios compulsivos em situações de crise”, afirmou. “Existem fatores de risco e de proteção específicos de cada cultura. Por exemplo, o fácil acesso a pesticidas letais aumenta o perigo de suicídios impulsivos em muitas zonas rurais, enquanto viver em um ambienta familiar estendido é uma forma de proteção e diminui os riscos”, explicou Mishara. O consumo de pesticidas foi o método empregado por um em cada três suicidas na Ásia. Já no Ocidente, isso é raro.
Essas diferenças fazem com que os programas de prevenção sejam muito diferentes de um lugar para outro. Os estudos comunitários sobre as determinantes sociais, culturais e psicológicas das tentativas de suicido e uma compreensão melhor das causas subjacentes são a chave da prevenção, disse à IPS Alexandra Felischmannn, especialista em saúde mental e abuso de substancias da Organização Mundial da Saúde (OMS). Um programa-piloto implementado na China, Índia e no Sri Lanka limita o acesso a pesticidas e exige que suas caixas sejam herméticas. Na Europa, os serviços de ajuda ao suicida por telefone são poderosas ferramentas para reduzir sua incidência.
A prevenção pode ter uma dimensão social e outra local. “O planejamento nacional facilita uma liderança e um contexto político que são muito importantes para manter um financiamento contínuo e de alto perfil para a pesquisa e a prevenção”, explicou Mishara. “No âmbito local, há muitos programas práticos que traduzem declarações políticas e resultados de pesquisas em medidas efetivas” concretas, acrescentou. “nos lugares onde são adotadas políticas com dimensão nacional observamos uma redução significativa da quantidade de suicídios em cinco ou oito anos”, ressaltou o especialista. Estatísticas e dados oficiais sobre suicídios são enviados à OMS pelos ministérios da Saúde. “Os dados costumam estar subestimados, embora a margem seja bastante variável”, explicou à IPS.
Algumas nações em desenvolvimento, como Cuba e Nicarágua, por exemplo, contam com dados bastante precisos, mas não são todas. Não é comum s países africanos enviarem esse tipo de dado à OMS. Informes das prefeituras e dos hospitais são outras fontes que permitem ter noção do problema. Um estudo no Estado indiano de Tamil Nadu procurou obter uma estimativa mais precisa da quantidade de pessoas que se suicidavam. Foram feitas “autópsias verbais” por meio de entrevistas com familiares de mais de 39 mil mortos. A pesquisa concluiu que os suicídios eram 10 vezes maiores do que os números oficiais enviados à OMS. Se o resultado pudesse ser extrapolado para outros países, a quantidade de casos no mundo chegaria quase a um milhão.
Os atacantes suicidas costumam ser contabilizados em separado dos suicídios que podem ser atribuídos a causas psicológicas e são considerados atos de guerra. Os países onde costuma haver esse tipo de atentado, em geral, não mandam informações à OMS, disse Mishara. “É necessário fazer mais em matéria de prevenção ao suicídio”, concluiu. A Iasp foi criada em 1960 como uma espécie de associação de pesquisadores, pessoal sanitário, profissionais, voluntários e organizações nacionais e locais de diversos tipos. Junto com a OMS, a Iasp se dedica a divulgar a idéia de que o suicídio é evitável, e colabora no desenvolvimento de estratégias de prevenção nacional.
A divulgação de casos de suicídio pode ter conseqüências negativas ou positiva sem sua ocorrência. As iniciativas da Iasp e da OMS incluem a criação de pautas sobre como informar a respeito. Outras de suas iniciativas incluem prevenção nas prisões, assistência às famílias afetadas por um suicídio e também oferecem tratamento e acompanhamento adequado a pessoas que tentaram tirar a própria vida. (IPS/Envolverde)

