Cabul, 05/11/2008 – Forças ocidentais consideram estratégias distintas para acabar com a insurgência no Afeganistão e pacificar este país, desde negociar com o movimento islâmico Talibã até armar milícias que o enfrentem. Este ano a violência atingiu seu ponto máximo, e o risco de vida para a população civil é maior do que no Iraque. Os insurgentes estão ativos em zonas próximas à capital Cabul, e a popularidade do governo está em seu mínimo histórico. A situação levou Washington a analisar diversas estratégias com vistas à possível mudança de política após a posse, em 20 de janeiro próximo, do novo presidente dos Estados Unidos, que será eleito hoje.
Alguns funcionários norte-americanos consideram a possibilidade de armar grupos tribais, estratégia já usada no Iraque e à qual se atribui a diminuição da violência nesse país. “Estamos considerando seriamente entregar a segurança a milícias de tribos e comunidades locais”, reconheceu um oficial de inteligência dos Estados Unidos que trabalha com as forças internacionais. “Não ser fará igual em Ambar, a província iraquiana onde primeiro se implementou a estratégia de armar milícias tribais, mas fará parte de um enfoque comunitário geral”, explicou. Se tratará de reforçar a governabilidade local e entregar às tribos a segurança em suas áreas de influência, acrescentou o militar.
A idéia é conseguir apoio de alguns setores do governo afegão. Uma comissão do Senado anunciou há pouco que trabalha sobre a proposta de aumentar as faculdades reconhecidas às arbakais, forças de autodefesa tradicionais da etnia pashtun (patana), sob o mando de Cabul. Mas, algumas pessoas consideram que o plano é difícil e perigoso. Somente poderá funcionar em algumas províncias do país, com as Paktia e Paktika, na fronteira sudeste com o Paquistão. Ali, onde a estrutura tribal é forte e a influência do governo central débil, as tribos locais já criaram suas próprias arbakais. Mas em outras áreas, como Kandahar e Helmand, a guerra, a influência do Talibã e o cultivo de ópio reduziram a independência das tribos.
“O que sei, após estudar a história afegã, é que as arbakais apenas funcionam em especial em Paktia e no sul de Paktika, mas não em outras zonas’, disse à imprensa o general Dan McNeil, chefe da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) neste país, no começo deste ano. Outro assunto que preocupa muito é o fato de armar organizações não-governamentais em um país repleto de senhores da guerra e com uma história violenta protagonizada por milícias armadas. Esse tipo de solução militar não trará paz porque se baseia na distribuição de mais armas, disse o analista político Habibullah Rafeh, da Academia de Ciências do Afeganistão.
Ramazon Amon, um vendedor de Cabul, recorda a última vez que milícias e senhores da guerra perambulavam livremente pelo Afeganistão. “Dispararam foguetes contra minha casa e a destruíram”, contou, referindo-se aos combates durante a guerra civil que assolou este país em meados dos anos 90. “Muitos de meus vizinhos foram mortos. Nossas famílias tiveram que abandonar suas casas. Não quer mais armas nem milícias, apenas trarão mais enfrentamentos”, acrescentou Amon. Os Estados Unidos estudam essa possibilidade, enquanto políticos de Washington e Cabul consideram negociar com o Talibã.
Em outubro, o governo afegão se reuniu com ex-líderes talibãs na Arábia Saudita para analisar a possibilidade de manter conversações de paz com a insurgência. O diálogo não pode ser considerado como o início de negociações porque os ex-integrantes desse movimento não representam os rebeldes, mas alguns funcionários afegãos e ocidentais esperam que seja o início do caminho para chegar a um acordo negociado entre as facções beligerantes. A possibilidade de figuras do Talibã integrarem o governo preocupa algumas organizações de mulheres e de moderados, que temem o retorno de um regime fundamentalista.
“Se o Talibã voltar, regressaremos ao feudalismo”, afirmou Sheila Samimi, diretora da Rede de Mulheres Afegãs. Mas a maioria dos afegãos considera que um acordo negociado com a insurgência pode ser a única possibilidade de conseguir a paz. “Estamos contra a política (do candidato presidencial opositor dos EUA) Barack Obama de enviar mais soldados”, disse Fatana Gailani, do Conselho de Mulheres afegão. “Queremos uma reconciliação com o Talibã mediante uma loya jirga” (grande assembléia tribal). “Se negociar com o Talibã trouxer a paz, estou a favor”, disse Shaferazeen, um pintor que perdeu uma das pernas em um ataque com foguete na época da guerra civil, na década de 90.
A atual política de Washington é contrária às negociações com a maioria dos líderes rebeldes, que foram colocados em uma lista negra. Por sua vez, o governo afegão se mostrou disposto a negociar com qualquer representante da insurgência, incluindo o mulá Omar. “Todos os afegão que figuram na lista negra devem ser eliminados”, afirmou o senador afegão Bakhtar Aminzai, grande defensor das negociações. Alguns líderes da insurgência, com o comandante Jalahuddin Haqqani, mantêm estreita relação com a rede islâmica Al Qaeda, mas outros, como os do círculo do ex-líder supremo Mulá Mohammad Omar, são mais independentes.
O funcionário norte-americano de inteligência que falou em reserva disse que há tensões entre Al Qaeda e o círculo do mulá Omar. Outros analistas disseram que os Estados Unidos poderiam tentar se aproveitar dessas diferenças para isolar a rede islâmica de Osama Bin Laden. Mas, segundo Waliullah Rahmani, do Centro de Estudos Estratégicos de Cabul, não é factível distanciar a Al Qaeda do Talibã, porque este não é independente nem do ponto de vista ideológico nem do econômico. Em 2001, o mula Omar negou-se a entregar Bin Laden até o último minuto, por isso não parece factível que vá fazê-lo agora, acrescentou. A possibilidade de haver grandes diferenças entre Al Qaeda e Talibã pode ser apenas um boato ou uma manobra dos governos ocidentais para criar uma brecha entre eles, especulou Rahmani. (IPS/Envolverde)

