HARARE, 01/12/2008 – Denzil Maruva (8): “Não temos ido à escola porque os professores estão em greve.” Crédito: Stanley Kwenda/IPS A Escola Primária de Glen View 5, situada num dos bairros de elevada densificação de Harare, está deserta. As salas de aula estão vazias, as carteiras e cadeiras encontram-se empilhadas nos cantos e os quadros de ensino estão a desprender-se das paredes. Contudo, o terceiro período escolar está em plena actividade. Os alunos zimbabueanos faltaram à escola durante a maior parte do ano porque os professores se encontram em greve devido a baixos vencimentos, más condições de trabalho, resultados eleitorais e subsequente violência política. As hostilidades contínuas também impediram as crianças de ir à escola, particularmente nas zonas rurais e semi-rurais onde o partido ZANU-PF do Presidente Robert Mugabe acredita que os professores sejam simpatizantes do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), partido da oposição.
“A prestação de serviços de ensino foi gravemente compometida e está à beira do colapso,” declarou o presidente da Associação de Professores do Zimbabué (ZIMTA), Tendai Chikowore.
Desde Março, os professores têm-se recusado a ir trabalhar devido aos baixos vencimentos que, segundo eles, mal dão para pagar o seu transporte até ao trabalho. O seu rendimento mensal tornou-se irrisório devido à taxa de inflação que se encontra fora de controlo – o Zimbabué tem a taxa de inflação mais elevada do mundo, 231 milhões por cento.
Devido à greve de professores, muitos pais resignaram-se a educar os filhos em casa. “A minha filha fez os exames do sétimo ano este ano, mas não passou de pura formalidade porque não aprendeu nada [em casa] daquilo a que estava a ser posta à prova. No próximo ano terá de repetir o ano,” disse Wilson Mponda, um preocupado pai de uma das alunas de Glen View.
Explicou que optara por educá-la em casa porque tinha perdido a esperança no sistema educativo. Outros pais recorrem à contratação de professores para aulas particulares.
Mas outro órgão representativo dos professores, o Sindicato dos Professores Progressistas do Zimbabué (PTUZ), afirmou que educar as crianças particularmente não ajudará a recuperar o atraso no ensino visto que isso apenas serve para transferir a responsabilidade do ensino do governo para os pais.
O secretário-geral do PTUZ, Raymond Majongwe, avisou que os pais, e até mesmo os professores particulares, pouco sabem sobre como ensinar as crianças, que tópicos devem ensinar e que cadeiras são apropriadas à sua idade. “Não serve de nada recorrer a estas soluções tipo atalho porque as crianças vão aprender coisas que não são compatíveis com os programas nacionais,” disse à IPS, lamentando a desintegração do sistema educativo do país.
Na Escola Primária de Glen View 5, há muitos meses que não há aulas. O edifício escolar está degradado, as casas de banho não têm água corrente e há vários dias que não funcionam os autoclismos. Os habitantes dizem que a situação na escola traz riscos a nível de saúde e alguns responsabilizam a escola por um recente surto de cólera que ceifou mais de 15 vidas até agora, na sua maioria crianças de um bairro contíguo à escola.
” Não podemos manter os nossos filhos numa escola onde não há água e a sua saúde está em risco,” apontou Mponda.
Em frente da escola, Denzil Maruva, aluno do segundo ano, joga futebol com os amigos durante o dia, quando as crianças da sua idade estariam normalmente na escola. Diz que não se lembra da última vez que esteve nas aulas. “Já foi há muito tempo. Não temos ido à escola porque os professores estão em greve,” conta o miúdo de oito anos.
A professora principal na Escola Primária de Glen View 5, que não quer que o seu nome seja citado porque receia as represálias, afirma não antever que a situação melhore em breve. “Não há qualquer instrução,” acrescenta.
Considera que só “por milagre” o Zimbabué conseguirá alcançar a educação primária universal até 2015, objectivo a que o país se comprometeu quando subscreveu os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.
Uma professora acusada de ser apoiante do MDC, Susan Gumbo (não é o seu verdadeiro nome), que vive na zona rural de Rusape, a cerca de 128 quilómetros de Harare, teve de abandonar o ensino devido à falta de ordenado. “Tornou-se muito difícil sobreviver como professor. O vencimento não dá para comprar nada. Mal chega para ir à cidade comprar comida. Portanto, não tenho qualquer razão para continuar a ensinar,” disse.
Até agora, Gumbo não encontrou trabalho alternativo e, consequemente, não consegue sustentar-se a ela e ao filho de nove anos.
Gumbo, que costumava ensinar na Escola Primária de Matsika em Makoni West, diz que as crianças não vão à escola desde Agosto, quando os professores iniciaram a greve. Antes dessa altura, ela e os outros professores tinham de pedir às crianças que lhes pagassem com baldes de milho como retribuição por as ensinarem, porque não lhes era pago o vencimento há meses.
A Junta de Marketing de Cereais (GMB), o órgão governamenrtal de distribuição de cereais, excluira os professores da distribuição gratuita de milho porque aqueles eram suspeitos de serem apoiantes do MDC. “Acusaram-nos de termos envenenado os aldeões para que votassem pelo partido da oposição mas, tal como toda a gente, estamos a sofrer, temos fome, estamos a morrer à fome,” acrescentou Gumbo.
Prevê que leve muito tempo até que o sistema de ensino readquira o anterior vigor, que a Divisão de Estatística das Nações Unidas descreveu no seu relatório de 2004 sobre literacia como a “jóia de África”.
“Lamento porque tenho um filho que devia estar na escola, e sei que quando ele regressar à escola terá de começar novamente do zero. Esta conversa de atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, já não tenho esperança alguma que isso aconteça,” queixou-se Gumbo.
Em Karoi, 200 quilómetros a norte de Harare, Tapiwa Mapudzi não vai à escola desde Abril deste ano e tem passado a maior parte do tempo a vender fruta a passageiros que passam por Chikangwe, um terminal para autocarros de longa distância.
“Vendo fruta para ajudar a minha mãe que tem uma banca aqui. Não temos dinheiro para comprar comida ou roupa. Costumávamos ter comida nos intervalos da escola mas agora não há nada,” Mapudzi contou à IPS.
Juntamente com outras crianças, encontra-se ao longo da estrada para Karoi, a vender uma variedade de artigos durante os dias em que devia estar na escola.
Apesar de diversas dificuldades a nível da educação, a Ministra Interina da Educação do Zimbabué, Flora Bhuka, insiste que está tudo bem nas escolas do país. “Tal como acontece em todos os outos países que atravessam problemas, existem desafios, mas não há motivos para entrar em pânico,” disse Bhuka, que assumiu a responsabilidade pelo Ministério há três meses, temporariamente, até que exista um novo governo.
Não obstante este desmentido, prometeu resolver a situação difícil dos professores, aumentando os seus vencimentos e melhorando as condições de trabalho. Contudo, refutou o facto de os alunos já não poderem ir às aulas, apesar dos crescentes testemunhos em contrário das próprias escolas.

