Santiago, 12/12/2008 – Entre 2006 e 2008 “praticamente perdemos tudo o que avançamos” desde 1990 em matéria de luta contra a fome na América Latina e no Caribe, disse José Graziano da Silva, representante regional da organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. Apesar dos retrocessos, se mostrou à IPS relativamente otimista em relação ao próximo ano. A quantidade de desnutridos no mundo aumentou este ano em 40 milhões, totalizando 963 milhões, segundo a última edição do informe anual “O estado da insegurança alimentar no mundo”, apresentado esta semana em Roma pela FAO.
Embora esta agência da ONU ainda não conte com cifras por regiões, a situação da América Latina e do Caribe é de evidente retrocesso, “Praticamente perdemos tudo o que conseguimos nos últimos 18 anos”, disse o especialista brasileiro à IPS ao encerrar a apresentação em Santiago do primeiro “Panorama da Fome” na região. Em 1990, a quantidade de desnutridos no mundo somava 841 milhões, 52,6 milhões dos quais eram latino-americanos e caribenhos. Quinze anos depois, o número de pessoas que sofrem fome no mundo aumentou para 848 milhões, mas na América Latina e no Caribe baixou para 45,2 milhões, isto é, 7,4 milhões superaram esta condição.
Desta forma, a desnutrição na região passou de 12% em 1990 para 8% em 2005. com isso, América Latina e Caribe estavam num caminho bom para conseguir o primeiro Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que fala em redução pela metade, até 2015, da porcentagem de pessoas que sofrem pobreza extrema e fome, tomando por referência os indicadores de 1990. os outros sete ODM acordados em 2000 pelos governos na Organização das Nações Unidas são sobre compromissos em matéria de educação, saúde materna e infantil, meio ambiente, igualdade de gênero, combate contra Aids e outras doenças, além do fomento à associação mundial para o desenvolvimento.
O promissor cenário da região variou em 2007, quando a carestia dos alimentos aumentou o número de famintos para 51 milhões, quase igualando os 52,6 milhões de 1990, embora “tudo indique” que esse número já o alcançou ou o superou em 2008, disse Graziano. “Podemos pensar que a situação atual é como a de 1990 ou pior”, disse o encarregado da FAO, considerando que a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) informou na terça-feira que este ano três milhões de pessoas pobres da região passaram a ser indigentes devido à inflação no preço dos alimentos.
Por outro lado, Graziano lamentou que neste ano os países em desenvolvimento, sem contar Brasil, China e Índia, diminuíram em 1,6% sua produção de cereais, ao contrário das nações desenvolvidas que a aumentaram em 11%. Apesar do acúmulo de más notícias, Graziano espera “um panorama melhor para a questão da fome na região em 2009”. A “América Latina é a região que melhor enfrenta a crise financeira e de alimentos”, afirmou.
“As projeções que temos da Cepal indicam que a América Latina entrará em seu sétimo ano de crescimento econômico consecutivo. Se isto ocorrer, será vital para garantir melhores rendas e empregos na região”, afirmou. além disso, “com a queda dos preços dos produtos da cesta básica espera-se uma inflação alimentar menor. Então, há um duplo beneficio: mais empregos e renda e um custo menor dos alimentos”, disse Graziano.
A melhoria da situação também dependerá da vontade dos países manterem e ampliarem as medidas que já aplicam para enfrentar o encarecimento dos alimentos, as quais Graziano dividiu em três grandes grupos. Por um lado está a redução das tarifas de importação de produtos da cesta básica, implementada por nações como Brasil, Bolívia Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua e El Salvador. Em segundo lugar, os países conseguiram “estabelecer e ampliar redes de proteção social para os mais pobres”, destacando-se os programas de transferências condicionadas de renda e os subsídios diretos à alimentação.
Nesse sentido, as creches e a merenda escolar são indispensáveis para combater a desnutrição crônica (baixa estatura para a idade) nas crianças, que tem efeitos físicos e cognitivos irreparáveis. Na América Latina e no Caribe há mais de nove milhões de crianças desnutridas. A prevalência deste grave problema crônico duplica a situação global a respeito, com 15,6% e 7,3%, respectivamente. Por fim, Graziano valorizou o estímulo dado à agricultura familiar.
Neste contexto, recomenda-se aos governos garantir o crédito, estender os prazos para cancelar dividas, estabelecer preços de referência, reorientar recursos para setores produtores de alimentos básicos e efetuar compras, por exemplo, para restaurantes escolares, com a intenção de incentivar a produção nacional. “Muitos países inclusive iniciaram significativos programas de substituição de importações, principalmente de trigo”,por produtos originários da América, acrescentou o representante da FAO para a América Latina.
Segundo Graziano, é imperativo erradicar a fome entre a população da América Latina, já que esta é uma região “exportadora de alimentos, inclusive apelidada de celeiro do mundo”. A região produz 30% mais de alimentos do que o que necessita para atender as necessidades energéticas mínimas de todos seus habitantes, segundo a FAO. (IPS/Envolverde)

