UNIÃO EUROPÉIA: Prêmio aos piores lobistas

Bruxelas, 12/12/2008 – Uma cerimônia de premiação pouco convencional reconheceu esta semana as empresas que recorrem a táticas de engano na tentativa de torcer as leis da União Européia em seu beneficio. Depois de uma pesquisa via Internet da qual participaram 8.500 pessoas, o lugar de honra do “Prêmio aos piores lobistas da UE” foi compartilhado por três empresas que tentam convencer os políticos de que os biocombustíveis são ambientalmente inócuos.

Abengoa Bioenergy, subsidiaria norte-americana de uma companhia espanhola; a Associação da Indústria Açucareira do Brasil, Unica, e o Conselho Malaio do Óleo de Palma (MPOC) foram condenadas pelos seus anúncios publicitários. Abengoa referiu-se, em um aviso, a um suposto informe da ecologista Federação Européia para o Transporte e o Meio Ambiente (T&E) segundo o qual o etanol elaborado à base de açúcar, por exemplo, era a única solução ao “vicio do petróleo” da sociedade atual. A T&E jamais fez tal avaliação.

Também foi muito crítica dos esforços da União Européia para aumentar o consumo de biocombustíveis como pretexto para evita medidas que incentivem a eficiência energética nos automóveis. Outro anúncio, da MPOC e qualificado de enganoso pela Autoridade Britânica de Padrões Publicitários, sugeria que as plantações de palma beneficiavam o meio ambiente. Uma organização de cientistas conservacionistas denunciou à Autoridade que a publicidade insinuava que as plantações tinham um valor de biodiversidade semelhante ao das florestas originais às quais substituíam.

A europarlamentar finlandesa Piia-Noora Kauppi foi a ganhadora do prêmio ao “pior conflito de interesses”. Kauupi, que costuma participar de todo debate sobre regulamentações financeiras, foi contratada pela Federação de Serviços Financeiros Finlandeses, que reúne bancos e firmas de seguros. O acordo foi confirmado em junho passado, um ano antes do fim de seu período como legisladora. Kauupi ainda figura na folha salarial do parlamento Europeu. Ela confirmou ter proposto projetos de lei sobre lavagem de dinheiro redigidos por bancos europeus.

Kauupi está em licença maternidade. “Não quero discutir questões de trabalho. Fiquei sabendo do prêmio e estou muito contente”, disse, ao ser consultada por telefone. “O prêmio para Kauppi reflete a preocupação pelo estreito alinhamento de europarlamentares com interesses corporativos”, disse Olivier Hoedeman, do Observatório Europeu de Corporações, organização que convocou a cerimônia de premiação. “São necessárias normas mais rígidas para impedir conflitos de interesse, incluído um período de esfriamento até que o ex-europarlamentar possa fazer lobby industrial.

A realização chegou a ser adiada devido a uma demanda legal iniciada por um dos candidatos. Fritz-Harald Wenig, alto funcionário comercial da Comissão Européia, foi identificado pelo jornal britânico The Sunday Times este ano como disposto a oferecer informação delicada em troca de cem mil euros (US$ 129 mil). Segundo a versão do jornal, Wenig fez a oferta diante de jornalistas que se fizeram passar por representantes de uma empresa fictícia. O funcionário alegou que sua reputação foi prejudicada e processou os organizadores da cerimônia, em uma tentativa de anular sua indicação.

Mas um tribunal de Bruxelas determinou que a liberdade de expressão é mais importante do que qualquer dano que pudesse sofrer Wenig, hoje investigado pelo escritório anticorrupção da Comissão Européia. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, os cerca de 15 mil lobistas em Bruxelas não estão submetidos a normas obrigatórias em matéria de transparência. Um registro de lobistas aberto pela Comissão Européia em junho tem caráter voluntário. nenhum está obrigado a fornecer seus dados.

“Não há obrigação de se inscrever”, disse William Dinan, da SpinWatch, organização que analisa a conduta da indústria das relações públicas. “Pensamos que qualquer um que se dedique ao trabalho de lobista enganoso evitaria o registro”, acrescentou. apenas 5% dos lobistas se registraram até agora. Burson-Marsteller, uma das poucas firmas de relações públicas já registradas, apenas informou que suas atividades lhe renderam cerca de sete milhões de euros no ano passado. A companhia não deu detalhes sobre quanto recebeu de cada cliente, entre os quais estão os laboratórios Pfizer, Novartis e Roche, a alimentar Kfrat Foods, a mineira De Beers e a empresa aérea Continental. (IPS/Envolverde)

David Cronin

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