ROMA, 10/12/2008 – (Tierramérica).- A segurança alimentar do Haiti requer disponibilidade de sementes e melhorias nas colheitas e na irrigação, afirma nesta entrevista o vice-presidente do Fida, Kanayo Nwanze.
TERRAMÉRICA: Qual era o compromisso do Fida com os agricultores pobres do Haiti antes dos desastres climáticos dos últimos meses?
KANAYO NWANZE: Trabalhamos em projetos de médio e longo prazos, com o apoio à irrigação em pequena escala, para melhorar a segurança alimentar e ajudar os agricultores a criarem resiliência às condições voláteis, especialmente os que vivem em áreas isoladas ou marginais. A participação dos grupos mais vulneráveis no planejamento e na administração dos programas de desenvolvimento é muito importante para o Fida. Isto significa capacitar o pessoal dos programas, beneficiários e sócios públicos e privados, e fortalecer o diálogo entre os pobres das áreas rurais e o governo local. Nos últimos 30 anos de trabalho com os pobres de zonas rurais do Haiti, o Fida financiou sete projetos com empréstimos aprovados de US$ 84,3 milhões e concedeu subsídios a organizações locais no valor de US$ 2,2 milhões.
TERRAMÉRICA: Como o pacto de US$ 10,2 milhões ajudará a agricultura?
KANAYO NWANZE: A prioridade é um rápido impacto na produção local e aumentar a disponibilidade de alimentos básicos nos mercados. Com nossa agência irmã, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), distribuiremos, para cerca de 240 mil pequenos agricultores, um pacote com sementes de hortaliças e cereais, mandioca, batata e banana. A capacidade nacional de produzir sementes se fortalecerá em um esforço para melhorar a segurança alimentar.
TERRAMÉRICA: Como isto se vincula com outros projetos de longo prazo para ajudar os pobres das áreas rurais do Haiti?
KANAYO NWANZE: O mais recente, de US$ 27 milhões, se fixou em reabilitar sistemas de irrigação coletiva usados por milhares de pequenos agricultores em duas das áreas mais pobres, as províncias Nordeste e Noroeste. O Fida está respondendo a uma clara necessidade de melhorar práticas, especialmente no manejo da água. Apesar da enorme erosão e do grande desmatamento, ainda há muito potencial nos solos haitianos. Se conseguirmos levar água às pequenas propriedades, mesmo sem fertilizantes os agricultores poderiam melhorar significativamente o rendimento, passando de uma para três colheitas ao ano. Esse projeto ajudará 18 mil famílias de áreas rurais remotas, permitindo aos agricultores se dedicarem a uma gama maior de cultivos e estimulando a produção com melhor manejo da água. O Fida continuará trabalhando com associações de usuários de água para compartilhar a responsabilidade administrativa do sistema de irrigação e ajudará a criar um programa nacional de manejo hídrico para a agricultura. Também apoiamos iniciativas para que os minilatifundiários haitianos melhorem os sistemas combinados de cultivo e intensifiquem as plantações de alimentos e hortaliças com vistas a enfrentar a mudança climática.
TERRAMÉRICA: As remessas familiares pelos emigrantes haitianos, a maioria nos Estados Unidos, são vitais para muitos pobres. Porém, preocupa o fato de a crise financeira poder alterar o fluxo dessa ajuda.
KANAYO NWANZE: Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, após crescimento de dois dígitos durante anos, o valor das remessas enviadas dos Estados Unidos para a América Latina e o Caribe cairá este ano em termos reais. Isto é muito preocupante para muitas famílias haitianas que dependem do dinheiro enviado por amigos e familiares para atender suas necessidades cotidianas. Uma maneira de cumprir este desafio é a inovação. O Fida apoiou o banco alternativo Fonkoze (ombro a ombro, em língua creole), que atende os que não podem ter acesso aos bancos tradicionais. Atualmente, apoiamos uma iniciativa de um cartão pré-pago, para os haitianos que trabalham nos Estados Unidos. Funciona no circuito da bandeira Visa, custa apenas um dólar por mês e permite que o empregador do trabalhador titular do cartão deposite diretamente fundos de seu salário sem encargos na “conta de investimentos” do Fonkoze, para a família que vive em uma área rural do Haiti. Ao abrir a conta, o cliente autoriza o Fonkoze a investir o saldo em microempréstimos para iniciativas de comunidades rurais. O cartão é um mecanismo integrado mais eficiente do que canalizar o dinheiro, e custa menos do que as transferências tradicionais.
* A autora é correspondente da IPS.


