LOS CACAOS, República Dominicana,, 10/12/2008 – (Tierramérica).- Comércio justo, produção orgânica, igualdade de gênero e educação fazem parte das estratégias de milhares de cafeicultores dominicanos para sair da pobreza.

Trabalhadores de cafezais em Los Cacaos, comunidade do sul da República Dominicana. - Valeria Villardo/IPS
O Banco Central afirma que foram exportados 90.880 quintais de café orgânico em 2007, com preço unitário de US$ 35 acima do da Bolsa de Nova York. Os produtores estão nas regiões montanhosas deste país caribenho, onde a pobreza é mais grave. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), 74% da população das montanhas é pobre. A renda por pessoa dos pequenos agricultores de café chega a apenas US$ 0,80 por dia, o que os coloca abaixo da linha de pobreza.
Nos últimos anos, a situação dos mercados internacionais e as pragas obrigaram muitos cafeicultores dominicanos a emigrar ou substituir o café por cultivos de ciclo curto. Segundo diagnóstico do estatal Conselho Dominicano de Café, em 20 anos, aproximadamente 25 mil famílias abandonaram esta produção e migraram em busca de melhores condições de vida. Diante destes desafios, a Federação de Cafeicultores da Região Sul (Fedecares) trabalha para representar os pequenos e médios produtores de dez províncias. Formada por 7.500 cafeicultores agrupados em 215 associações, a Federação produz entre 10% e 12% do total de café do país. Os pequenos produtores do sul e do norte produzem em conjunto 30% do café nacional.
A Fedecares coleta o café verde (selecionado e descascado antes de ser torrado) para vendê-lo principalmente aos mercados do Canadá, Espanha, Estados Unidos e França. “Toda produção do nosso café se enquadra em iniciativas de comércio justo, e 90% da nossa produção é orgânica e amigável com o meio ambiente”, porque não emprega produtos químicos sintéticos para fertilizar nem combater pragas, disse ao Terramérica o dirigente da Fedecares, Refino Herrera. Os membros da Federação produziram, este ano, entre 20 mil e 25 mil quintais de café. O salário mínimo no setor, tanto para homens quanto para mulheres, ainda é muito baixo, cerca de US$ 185 mensais. Melhorar as condições de vida implica esforços educacionais.
Para promover a formação universitária dos filhos das famílias produtoras, sobretudo dos que têm menos recursos, a Fedecares criou um programa de bolsas financiado por universidades dominicanas e cubanas. Em 2007, foram entregues dez bolsas de centros de estudos dos dois países, das quais 25% para trabalhadores do setor cafeeiro e de desenvolvimento rural. “Foi extremamente importante ter acesso a essa bolsa, não apenas pela minha educação e inserção no mercado de trabalho, mas porque estou utilizando meus conhecimentos para impulsionar o desenvolvimento da minha comunidade”, disse ao Terramérica Cesarina Encarnación, gerente comercial da Agroesa, empresa cafeeira do município de Los Cacaos, a 70 quilômetros de Santo Domingo.
Para incentivar boas práticas produtivas, a Fedecares iniciou um concurso anual de comércio justo para pequenos produtores. O prêmio consiste em uma quantia extra de dinheiro, além da parte que cabe a cada cafeicultor pelas exportações. “Este dinheiro não vai para o ganhador, mas é utilizado para obras sociais, para o desenvolvimento da comunidade, como infra-estrutura, educação e saúde”, afirmou ao Terramérica Juan Lugo Franco, que trabalha no setor cafeeiro desde os 13 anos de idade. “Fazemos reuniões mensais na Fedecares onde nos informam sobre o andamento do mercado. Homens e mulheres decidem nesses encontros as políticas a serem implementadas”, disse Franco.
As mulheres estão ocupando um papel mais ativo na produção e venda. “Capacitamos 40 famílias par que houvesse uma distribuição igual das terras entre homens e mulheres”, explicou ao Terramérica Viviana Martes Lorenzo, ativista da Associação de Mulheres em Ação (AMA). “Quando começamos com a AMA, decidimos tentar obter de nossos maridos parte das terras. Falamos com eles explicando que com o trabalho em conjunto poderia haver mais progresso”, disse ao Terramérica Felicia Lorenzo, de 53 anos e proprietária de cafezais. “Desde que tenho minha terra para cuidar, sou mais autônoma e sinto que meu trabalho é mais reconhecido”, explica esta mãe de oito filhos. A AMA colabora com a Fedecares para fomentar projetos femininos de café e dar poder às mulheres. Hoje, 50 mulheres já são proprietárias de terras e 25 fazem parte do programa feminino de café em Los Cacaos, Barahona, Polo e San Cristóbal, no sul do país. “Um dos melhores resultados de nosso trabalho é o maior poder das mulheres. Antes, elas não manejavam os recursos. Agora, têm a oportunidade de gerir seu trabalho e administrar sua renda”, disse Herrera ao Terramérica.
As exportações de café de nove dos principais produtores da América Latina, com exceção do Brasil, cresceram, em média, 3,77% ao fim do ano cafeeiro, entre outubro de 2007 e setembro de 2008, informou a Associação Nacional do Café da Guatemala. Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Colômbia, México, Peru e República Dominicana exportaram nesse período 29,3 milhões de sacas de 60 quilos, superando em quase 4% as vendas ao exterior no período anterior.
* A autora é correspondente da IPS.

