Poznan, Polônia, 15/12/2008 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, reclamou um acordo “verde” que funcione para todos os países, ricos e pobres, e conjugue as preocupações pela mudança climática e a crise financeira mundial. Na reunião de alto nível da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (CMNUCC), que começou dia 1º e terminou na sexta-feira, Ban defendeu uma “solidariedade mundial” nessa área. As atuais crises climática e financeira oferecem uma oportunidade para enfrentar os dois desafios de uma vez. “Lidar com a crise financeira exige um grande estímulo internacional. Grande parte do gasto deve adotar a forma de investimentos. Deve-se investir em um futuro verde”, afirmou o secretário-geral da ONU. “Os recursos devem visar a luta contra a mudança climática, criar milhões de empregos verdes e impulsionar o crescimento verde”, acrescentou Ban. “Também precisamos com urgência de um acordo climático que propicie um contexto político, legal e econômico para liberar fundos de forma sustentada. Isto é, nossa resposta ao descalabro financeiro deve promover objetivos climáticos e a resposta à crise climática deve ser por metas econômicas e sociais”, ressaltou.
“É preciso que a União Européia — que parece estar acomodando seus objetivos nessa área em função de seus interesses industriais -¬- e os Estados Unidos assumam um papel de liderança”, disse Ban. O secretário-geral da ONU também felicitou o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, por sua “proposta de incluir a energia alternativa, o meio ambiente e a mudança climática dentro do próprio conceito de segurança nacional, recuperação econômica e prosperidade”. Mas, também houve sinais positivos em outros países e regiões, afirmou Ban.
O Brasil conseguiu um dos crescimentos mais “verdes” do mundo e criou milhões de empregos nesse processo. A China dedica um quarto de seu plano de estímulo econômico a fomentar os combustíveis renováveis, à proteção do meio ambiente e à conservação da energia. A Dinamarca, onde acontecerá a próxima Conferência da ONU sobre mudança climática, objetiva um crescimento que não prejudique o ambiente. Desde 1980, seu Produto Interno Bruto cresceu 78% com um aumento mínimo na energia consumida. A Índia lançou um amplo Plano de Ação Nacional sobre Mudança Climática que incentiva as fontes renováveis de energia, especialmente solar e eólica, e está em quarto lugar mundial em termos de seu desenvolvimento.
Ministros de 189 países se reuniram nesta cidade polonesa pela primeira vez desde a conferência de 2007, em Bali, para discutir os passos a serem dados com vistas a um novo acordo que minimize a mudança climática. Depois de Ban, falou Yvo de Boer, secretário-executivo da CMNUCC: “O tempo está acabando. É preciso dar a estas negociações um começo positivo. Podemos conseguir porque não começam do zero”. México, Indonésia e África do Sul têm novas estratégias para enfrentar a mudança climática, afirmou. China, Egito e Índia contam com planos e programas a respeito. Angola, Nigéria e Paquistão estão criando os seus.
“Todos eles e outros mais identificaram medidas adicionais de contenção que podem ser implementadas de maneira a ser possível medir, verificar e relatar seus êxitos”, disse de Boer. Além disso, recordou aos ministros que o mapa do caminho de Bali, acordado há um ano, versa sobre “assuntos atuais, não para serem adiados”, e nessa época os sinais de urgência já eram claros. “Mauritânia já sofre um estrangulamento tríplice: um deserto aumentando, águas oceânicas invadidas e inundações cada vez mais graves. Nas Maldivas já se economia para o êxodo devido à elevação do nível do mar. Esses são assuntos para serem tratados agora”, insistiu.
A conferência em Poznan, que reuniu 11.600 participantes, é o passo intermediário das negociações para o desenho de uma resposta internacional, ambiciosa e efetiva em matéria de mudança climática, que se aprovará em Copenhague em 2009, tornando-se efetiva em 2013, o ano seguinte ao vencimento da primeira fase do Protocolo de Kyoto. “O acordo deverá motivar compromissos das nações industrializadas, incluídos objetivos de redução de emissões de gases de efeito estufa no médio prazo, e as obrigará a chegarem a um acordo sobre a forma de arrecadar fundos e destiná-los de forma efetiva e transparente para apoiar os esforços paliativos do Sul em desenvolvimento”, disse de Boer.
“Necessitamos de um contexto de políticas que detalhem objetivos, apoio financeiro e instituições de forma inequívoca. Temos de conseguir resultados que possam ser ratificados para entrarem em vigor em 2013”, disse o secretário-executivo da CMNUCC. “As discussões de Poznan avançaram, de elementos de consenso para acordos concretos, surgiram áreas de convergência de idéias e propostas, foram exploradas opções para lidar com as divergências e identificar os vazios que devem ser preenchidos para conseguir-se um resultado de conformidade em Copenhague”, diz um documento da CMNUCC. “As partes acordaram que um texto sobre o consenso será submetido a consideração na próxima reunião da Convenção Marco, em junho próximo”, acrescenta.
A mesa-redonda de sexta-feira foi uma reunião-chave dedicada a medidas cooperativas de longo prazo, informou a CMNUCC. “Os delegados discutiram assuntos importantes no curto prazo, até 2012, especialmente para as nações em desenvolvimento, incluindo adaptação, financiamento, tecnologia e redução de gases liberados pelo desmatamento e pela degradação de florestas”, diz uma declaração de Yvo de Boer. “A mesa-redonda foi uma importante oportunidade para ministros e outros funcionários analisarem os mecanismos a serem implementados em relação a questões financeiras, tecnológica e conhecimentos no sentido de reduzir as emissões, impulsionar um crescimento verde e lidar com as conseqüências inevitáveis da mudança climática”, acrescenta. (IPS/Envolverde)

