REPORTAGEM: Mapa Verde contra furacões

LOS PALACIOS, Cuba, 13/01/2009 – (Tierramérica).- O Mapa Verde, um retrato dos recursos culturais, sociais e ecológicos de um lugar, permitiu que as pessoas de um município cubano reconstruíssem, por elas mesmas, a escola destruída por um furacão.

Alunos da restaurada escola de La Vigia e outros membros da rede do Mapa Verde. - Dalia Acosta/IPS

Alunos da restaurada escola de La Vigia e outros membros da rede do Mapa Verde. - Dalia Acosta/IPS

As telhas de sua casa voavam, seu sogro dizia que a carne tremia debaixo da pele e seu marido tentava protegê-la com uma mesa e colchões, mas a professora cubana Gladis San Jorges tinha apenas uma preocupação, no pior momento de sua vida: “Ai, a escola, ai, a escola.”, gritava. Terminava agosto de 2008 e o Furacão Gustav arrasava a província de Pinar del Rio, no extremo leste de Cuba. “Havíamos guardado tudo da escola, mas não podíamos impedir que o Furacão levasse o teto. Eu só pensava que minhas crianças iam ficar sem casa e também sem aula”, conta esta professora de 41 anos, que trabalha no centro escolar do bairro La Vigia, no município de Los Palacios.

Gladis não é uma professora qualquer. Sua vida mudou há alguns anos quando sua escola se integrou à rede nacional do Mapa Verde e ela começou a coordenar um projeto que ia além de localizar áreas de interesse em um papel, para ter uma incidência real na comunidade e em seu entorno. “O Mapa Verde mudou minha vida, a de minha escola e a dessas crianças”, diz, tentando explicar os laços que unem a construção de uma única sala que ficou sem teto, com as paredes úmidas, e as áreas de recreação e a horta totalmente destruídas. “Tivemos que mudar a escola temporariamente para um terraço”, conta Gladis.

Surgido a partir de uma metodologia criada pela ecodesenhadora norte-americana Wendy E. Brawer em 1992, o Sistema do Mapa Verde promove a participação comunitária na elaboração de “retratos” dos recursos culturais, sociais e ecológicos de um lugar. Desde sua promoção como sistema global, em 1995, o Mapa Verde se estendeu a 400 cidades, povoados e bairros de 50 países, a partir de uma rede de núcleos regionais e de projetos locais, que funcionam de acordo com as necessidades de cada lugar e com independência da iniciativa central.

O projeto nacional cubano, coordenado pelo não-governamental Centro Félix Varela, está presente em todo o país e envolve em torno de mil pessoas de escolas de todos os níveis educacionais, inclusive universidades. “Os coletivos recebem assessoria técnica e materiais para o trabalho”, explica ao Terramérica Liana Bidart, coordenadora de Projetos do Centro e encarregada nacional do Mapa Verde. “Após a capacitação metodológica, propiciamos a participação dos integrantes da rede em oficinas sobre comunicação e acordos. A idéia é que estejam preparados para negociar, enfrentar os conflitos e encontrar soluções para um problema da comunidade junto com outros atores sociais”, afirmou.

Um mapa para agir Uma das primeiras coisas que Gladis e as demais professoras da Escola Primária Rafael Morales aprenderam sobre o método de trabalho da Rede Nacional do Mapa Verde foi que os problemas não tinham de ser necessariamente resolvidos pelo governo local, mas que a comunidade poderia solucioná-los. “Gotinha por gotinha, se vai conseguindo”, esta é a filosofia do coletivo que conseguiu, por exemplo, que uma cooperativa agropecuária vizinha deixasse de usar as águas de uma lagoa contaminada para irrigação, eliminasse microdepósitos de lixo e acabasse com a queima da cana-de-açúcar antes do corte.

“O Mapa Verde nos dotou de conhecimentos que não tínhamos, e também nos mudou como pessoas. E as crianças estão felizes. Elas participam da confecção do Mapa e também de todo o processo de enfrentamento dos problemas. Muitas vezes são elas que vão conversar com alguém, convencer”, conta Gladis. Quando o Furacão Gustav atingiu a região, o coletivo da escola decidiu que a magnitude do desastre poderia atrasar as soluções estatais e que era hora de aplicar o que haviam aprendido. “Vimos o estado da escola e decidimos não esperar os recursos do Estado. Fomos à cooperativa próxima, conseguimos as telhas e as colocamos com nosso próprio esforço”, conta a professora, convencida de que nada disso teria ocorrido sem a incorporação da escola à rede do Mapa Verde.

O Centro Félix Varela doou a pintura das paredes. Professores, pais, colaboradores do Centro e alguns alunos uniram-se em uma jornada de trabalho voluntário que deixou a escola pronta. Pode ser que a umidade acumulada nas paredes reapareça, mas, no momento, “as crianças estão de volta às aulas”. No começo de novembro, a escola La Vigia era a única recuperada em Los Palacios, um município onde a combinação de dois furacões afetou as 43 escolas primárias existentes. Nesse momento, o governo já contava com recursos para recuperá-las, mas, o processo apenas começava.

Menos vulneráveis Após destruir a Ilha da Juventude, no sul de Cuba, o Furacão Gustav passou, na noite de 30 de agosto e na madrugada de 31, por Pinar del Rio. Na estação meteorológica de Paso Real de San Diego, em Los Palacios, uma rajada de vento quebrou o anemômetro nos 340 km/h, um recorde nacional. Não havia se passado nem oito dias do ciclone tropical mais violento que já atingiu esta ilha do Caribe nos últimos 50 anos, quando a população de Pinar del Rio soube da ameaça do Furacão Ike. O Ike, que entrou pelo leste cubano e afetou quase todo o território nacional e saiu de Cuba por onde o Gustav saíra, o norte de Los Palacios.

“Depois do Gustav, o Ike pareceu um ventinho, mas ainda assim causou danos”, afirma Gladis. Mais do que a destruição material, a professora pensa na angústia desses dias, no terror de pensar que o desastre se repetiria e que as árvores e as casas que ficaram de pé poderiam cair. Mais de dois mil centros educacionais foram danificados em todo o país pelos dois furacões. Fontes do Sistema das Nações Unidas em Cuba asseguram que o desastre causou consideráveis danos psicossociais e estresse pós-traumático na população, especialmente em quase 390 mil crianças e adolescentes cujas escolas foram destruídas.

“Essas crianças vivem um trauma imenso. O que vimos foi muito duro para os adultos, imagine para elas. A maioria quase não pode dormir em suas casas, muitos perderam tudo, sua única saída para estar melhor é a escola”, conta Gladis, que agora trabalha com seu grupo para reelaborar o Mapa Verde. A perspectiva terá de ser diferente. “Vamos utilizar o Mapa Verde como uma ferramenta comunitária para promover práticas alternativas e reduzir o risco diante de desastres naturais”, afirma Bidart.

Ela e Gladis repassam juntas o Mapa de antes do Gustav: a paisagem mudou. Os locais que um dia foram de interesse talvez já não sejam mais. É necessário localizar as zonas de inundações, os abrigos e os lugares de reflorestamento, e propor espécies que possam suportar os ventos. “As crianças vão ter trabalho”, diz a professora.

* A autora é correspondente da IPS.

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

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