Cairo, 09/01/2009 – As escassas declarações com que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, rompeu seu silêncio de mais de 10 dias desde o começo dos ataques israelenses contra Gaza mostram a mesma falta de igualdade para a causa Palestina de seus antecessores, segundo analistas egípcios. “O silêncio que Obama manteve revela uma tendência em relação a Israel igual à de George W. Bush”, disse à IPS Ibrahim Mansour, analista político e chefe de edição do jornal independente Al-Dustour. “Como Bush, o unico papel que Obama desempenhará na região será o de implementar as instruções de Israel”, explicou.
No dia 27 de dezembro, Israel lançou um devastador bombardeio aéreo contra a Faixa de Gaza e no sábado avançou por terra sobre esse território palestino, onde encontrou dura resistência por parte de combatentes em zonas estratégicas do território. Funcionários israelenses alegam que a Operação Chumbo Derretido, que incluiu milhares de ataques aéreos e bombardeios navais, é uma represália contra os mísseis disparados contra seu território pela resistência palestina. Morreram mais de 600 pessoas, 40% mulheres e crianças, segundo as estimativas, e cerca de três mil ficaram feridas.
Os foguetes palestinos mataram quatro civis israelenses desde o início do confronto e se desconhece a quantidade de soldados mortos devido às diferenças entre fontes militares de Israel e a resistência palestina. A comunidade internacional está cada vez mais escandalizada com o desproporcional uso da força por Israel contra a população majoritariamente civil. Por sua vez, Obama apenas expressou sua “profunda preocupação” pela morte de civis. Assessores próximos a Obama já haviam afirmado que não faria comentários antes de assumir a presidência, no próximo dia 20.
“O presidente eleito acompanha os fatos de perto, incluída a situação em Gaza”, afirmou Brooke Anderson, a porta-voz para segurança nacional de Obama, em um comunicado do do 28 de dezembro. “Há um único presidente por vez e nos propusemos respeitar isso”. A reticencia de Obama em fazer comentários mais significativos, e nem falar em condenar a mão dura de Israel, não deveria ser uma surpresa, segundo analistas egípcios. A causa palestina nunca ocupou um lugar de destaque na agenda de Obama, liderada por Iraque, Afeganistão e Irã, além da crise financeira internacional”, afirmou Mansour. “Além do mais tudo o que diz respeito a Israel é Israel que decide, não o presidente dos Estados Unidos”, acrescentou.
Quando Obama esteve em Israel, em julho, decepcionou muitos observadores árabes ao expressar seu apoio total a esse país e aos seus métodos para lidar com o “terrorismo” palestino. “Estou aqui para reafirmar a relação especial entre Israel e Estados Unidos e meu compromisso com sua segurança”, disse Obama ao presidente israelense, Shimon Peres. Inclusive, chegou a expressar “inquebrantável apoio à segurança de Israel”.
Obama também visitou a meridional localidade israelense de Sderot, objetivo ocasional de mísseis de curto alcance lançados desde a Faixa de Gaza, onde reafirmou “o direito de Israel se defender”. Também ali expressou seu apoio à posição desse país em se negar a negociar com o Movimento de Resistência Islâmica (Hamás), apesar de sua vitória nas eleiçoes legislativas realizadas de forma democrática em junho de 2006. No ano seguinte, se deu o direito de controlar a Faixa de Gaza pelas armas.
O aberto apoio de Obama a Israel levou numerosos observadores árabes a perderem as esperanças de que os Estados Unidos possam ser um árbitro imparcial no conflito palestino-israelense. “Como seu antecessor na Casa Branca, Obama nunca estará contra Israel”, disse à IPS Iglal Raafat, especialista em política da Universidade do Cairo, uma visa compartilhada por muitos de seus colegas. “Poderá declarar seu apoio ao chamado processo de paz, mas somente enquanto beneficiar Israel”, acrescentou.
Analistas egípcios também ficaram decepcionados com algumas figuras do governo de Obama, especialmente Hillary Clinton, como próxima secretária de Estado, e Rahm Emanuel, com chefe de gabinete. Hillary é conhecida por seu fervoroso apoio a Israel como senadora por Nova York. Em junho, disse ao Comitê de Assuntos Públicos Norte-americanos-Israelenses (Aipac), do lobby israelense, que o próximo presidente “deve estar preparada para dizer ao mundo que a posição dos Estados Unidos não muda, nossa determinação é inflexível e que nossa postura não se negociam”.
Por outro lado, os vínculos de Emanuel com Israel não ser mais diretos. Além de ser figura de trajetória do Partido Democrata, é filho de um ex-integrante da organização militante sionista Irgun – alguns diriam organização terrorista – que operou na Palestina nos anos 30 e 40. Além de assassinar palestinos, a Irgun atacou funcionários civis e militares britânicos antes da criação do Estado de Israel em 1948.
“Os últimos governos norte-americanos, sejam democratas ou republicanos, mostraram seu total apoio a Israel”, disse Mansour. “Isso se reflete nas designações para o gabinete, sejam cidadãos com dupla nacionalidade ou judeus norte-americanos leais a Israel. No que se refere ao Oriente Médio, Israel impõe a agenda política dos Estados Unidos, seja no grau de antagonismo entre Washington e Irã ou a aproximação com seus aliados árabes”, acrescentou.
por sua vez, Raafat concorda com ele de que, pelo menos em relação ao Oriente Médio, Obama não representará nenhuma mudança significativa. “Poderá retirar soldados do Iraque ou mostrar certa disposição em negociar com Síria e Irã, mas nada fará que não sirva as interesses dos Estados Unidos. E os interesses dos Estados Unidos e os de Israel parecem estar do mesmo lado da moeda”, acrescentou.
(IPS/Envolverde)

