EUA-ISRAEL: O peso da comunidade judia em Washington

Washington, 16/01/2009 – O Departamento de Estado dos Estados Unidos negou categoricamente a fala do primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, a respeito de sua influência sobre o presidente George W. Bush. O incidente reviveu um velho debate relaiconado aos fios que manejam a política externa de Washington.As declarações de Olmert voltaram a por na mesa a questão do poder que Jerusalém e o lobby da comunidade judia nos Estados Unidos têm na política norte-americana no Oriente Médio.

Olmert se vangloriou de solicitar e obter de imediato uma conversa com Bush por telefone que, segundo ele, o teria convencido a frustrar as intenções da secretária de Estado, Condoleezza Rice, de votar pela resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que pediu na sexta-feira um imediato cessar-fogo em Gaza. O porta-voz da chancelaria, Sean McCormack, respondeu na terça-feira que a afirmação de Olmert foi “totalmente errada”. Este departamento não quis responder às perguntas da IPS a respeito. Olmert deu as declarações na cidade israelense de Ashkelon, onde caíram vários foguetes lançados desde a Faixa de Gaza. O primeiro-ministro assegurou que telefonou para a Casa Branca ao saber do conteúdo da resolução do Conselho de Segurança.

Pedi que “me comunicassem com o presidente Bush”, contou Olmert. “Me disseram que estava fazendo um discurso na Filadélfia e eu respondi: não me importa. Preciso falar com ele. Bush deixou o palanque e conversou comigo”. Depois dessa conversa, o presidente Bush – sempre segundo Olmert – chamou Rice e a obrigou a não votar a resolução, que ela mesma havia contribuído para a redação. “Deu uma ordem à secretária, que não votou o texto que ela mesma havia redigido, organizado e promovido. Ficou bastante envergonhada e se absteve de aprovar uma resolução que ela havia proposto”, garantiu o primeiro-ministro israelense. A resolução foi aprovada por 14 votos a favor, nenhum contra e apenas os Estados Unidos se abstendo.

Washington foi rápido em rebater os comentários de Olmert. Além da resposta do Departamento de Estado, o porta-voz McCormack também denunciou “inexatidões” no relato. Independente da veracidade das afirmações de Olmert, o fato é uma vergonha para o governo Bush, criticado por seu apoio incondicional às posições de Israel. A maioria dos aliados de Washington na Europa e em outras regiões reclamam um imediato cessar-fogo desde que começou o bombardeio israelense em Gaza, no dia 27 de dezembro, mas a adestração Bush não foi categórica em condenar a operaçao ou, inclusive, sugerir um prazo. O Congresso dos Estados Unidos também expressou seu forte apoio às ações de Israel em Gaza. Na semana passada, a Casa Branca e o Senado aprovaram por maioria esmagadora resoluções não vinculantes de apoio à ofensiva militar israelense.

Mas, há estudos sugerindo que, em geral, os integrantes das duas câmaras do Congresso e a população são cépticos a respeito do ataque israelense, o que indica a posição oficial do governo. Uma pesquisa anônima feita pelo National Journal com 60 congressistas concluiu que 30¨% dos membros do Partido Democrata e 12% do Partido Republicano pensam que Israel se excedeu “demasiadamente” no uso da força em Gaza. Mas isso não impediu que mais de 90% dos representantes votassem a favor da resolução da Câmara de representantes, que responsabiliza o Hamás pelas vítimas civis.

Outro estudo feito no final de dezembro por Rasmussen concluiu que a população norte-americana apoiava a ofensiva israelense, mas por uma estreita margem¨44% dos consultados disseram que apoiavam, contra 41% que disseram não. Entre os democratas, 55% consideraram que Israel primeiro deveria tentar uma saída diplomática. A questão diplomática criada pelos comentários de Olmert e a suposta discrepância entre a opinião pública dos Estados Unidos e as políticas do governo a respeito do conflito palestino-israelense deram novos brilhos e velhos debates.

Não apenas o governo Bush foi criticado por suas posições favoráveis a Israel. Também a administração de Bill Clinton (1993-2001), e em especial seu mais alto negociador, Dennis Ross, por priorizar as reclamações israelenses nas negociações de paz no final dos anos 90. Ross, de quem se diz que pode ser o próximo enviado para o Oriente Médio do presidente eleito Barack Obama, foi acusado por negociadores árabes e norte-americanos de não ter sido um “mediador honesto” no processo de paz, segundo um livro publicado por DanKurtzer, ex-colega seu.

Em 2005, o ex-negociador Aaron David Miller queixou-se de que “muitos funcionários norte-americanos que participaram do processo de paz árabe-israelense, incluindo eu mesmo, agimos com advogados de Israel, em coordenação com os israelenses, em prejuízo do sucesso das negociações”. No âmbito local, o esmagador apoio dado pelo Congresso à ofensiva militar contra Gaza, apesar do pouco entusiasmo da população, é considerado mais uma prova da existência de uma política promovida pelo “lobby de Israel” para posições de linha dura.

O fato foi sugerido pelos especialistas políticos John Mearsheimer e Stephen Watl em um artigo publicado em 2006 na London Review of Bookds, intitulado “O Lobby de Israel”, que depois deu lugar a um livro. As organizações que integram o lobby israelense, especialmente o influente Comitê de Assuntos Públicos Norte-americanos-Israelenses (Aipac), influi há décadas na política externa de Washington prejudicando os interesses norte-americanos.

A tese de Measrcheimer e Walt provocou muita polêmica. Para os críticos foi simplesmente a última manifestação das teorias conspiratórias de longa data sobre uma dominaçao encoberta dos judeus na política nacional dos Estados Unidos. Por outro lado, os defensores afirmam que o conceito de “lobby israelense” não inclui toda a comunidade judia, porque as políticas de organizações com a Aipac não representam a maioria, mais moderada, e porque, também, está integrada por muitos evangélicos cristãos. Desde a publicação do artigo de Measrcheimer e Walt houve um debate mais aberto sobre a forma com Washington leva adiante a política em relação a Israel.

Os analistas Jeffrey Golberg, da Atlantic, e Joe Klein, do Time, que tentaram distinguir, não sem alguma dificuldade, suas posições da de Measrcheimer e Walt, disseram que as organizações judias de linha dura que integram os círculos políticos nacionais exercem sua influência na política em relação a Israel em uma direção não saudável. A polêmica mundial pelo ataque israelense contra Gaza continua sendo dura e é pouco provável que essas diferenças sejam caladas num futuro próximo.

Walt, por sua vez, interpretou os últimos acontecimentos como mais uma prova para sua tese. “A maioria dos norte-americanos apóia a existência de Israel e tem mais simpatia pelos israelenses do que pelos palestinos”, escreveu no último dia 5 em resposta ao estudo de Rasmussen. “Mas, não pedem que os políticos norte-americanos apóiem sempre Israel, independentemente do que faça. Embora isso seja o que a maioria dos políticos deste país fazem”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Daniel Luban

Daniel Luban is a doctoral student in political science at the University of Chicago and a former IPS correspondent in the Washington, D.C. bureau. He continues to write for Lobelog.com.

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