Ramalá, Palestina, 16/01/2009 – Apesar da negociação dos Estados Unidos, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, confirmou ontem que interveio pessoalmente para garantir que Washington se abstivesse de votar a resolução 1860 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Segundo Olmert, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, foi obrigada a se abster de votar a resolução, que cobrava um imediato cessar-fogo em Gaza, e que ela foi em grande parte responsável por sua redação. Na segunda-feira, Olmert disse em uma entrevista coletiva na localidade israelense de Ashkelon, perto da fronteira com Gaza, que fez um telefonema ao presidente George W. Bush momentos antes da votação do cessar-fogo.
Olmert disse que tentou convencer Bush a vetar a resolução. Como o mandatário não havia lido o texto, o primeiro-ministro o informou de seu conteúdo e pediu que o vetasse. Bush, então, instruiu Rice para se abster de votar, após negar-se a exercer o direito de veto. Olmert é o único membro da troika no gabinete israelense (que inclui a chanceler Tzipi Livni e o ministro da Defesa, Ehud Barak) que resiste à implementação de um imediato cessar-fogo.
Barack quer uma “trégua humanitária” de uma semana na Faixa de Gaza. Por sua vez, Livni pediu o fim da operação, mesmo sem haver um acordo com o Hamás. Ela acredita que “o fator dissuasivo” já foi estabelecido uma vez mais diante dos numerosos inimigos árabes de Israel. O fator dissuasivo não está destinado apenas ao Hamás, mas também ao movimento xiita libanês hezbolá, contra o qual guerreou no Líbano em 2006.
Cerca de mil palestinos morreram em Gaza desde 27 de dezembro e mais de 4.500 ficaram feridos, cerca da metade deles são civis. Pelo menos 10 israelenses morreram. Os argumento prévio de Israel para sua Operação Chumbo Derretido vão desde a necessidade de deter os mísseis que o Hamás lança constantemente contra suas localidades próximas de Gaza, o que não cessou, até destruir politicamente a organização islâmica, o que tampouco parece ter ocorrido. Desde o início da ofensiva, o Hamás disparou como resposta cerca de 700 mísseis, alguns mais avançados do que os usados antes, ainda mais dentro de território israelense. A cúpula de liderança da organização permanece intacta.
Olmert adia uma reunião com os ministros enquanto dá às Forças de Defesa Israelenses o maior tempo possível para derrotar o Hamás. A troika por si só não pode autorizar uma expansão ou a continuação da ofensiva terrestre em Gaza, necessitando do apoio do gabinete. A atitude de Israel com o Conselho de Segurança da ONU oscila entre críticá-lo quando emite resoluções contrárias ao Estado Judeu e cooperar com ele quando o apoio.
O Estado de Israel foi criado em 1948, depois de obter sua legitimidade internacional através da resolução 181 do Conselho de Segurança, de 1947, que dividiu o Mandato Britânico da Palestina (administração da zona encomendada a Londres) em um Estado árabe e outro judeu. Israel, porém, continua ocupando a Cisjordânia e construindo assentamentos judeus ali. Também continua controlando as fronteiras de Gaza, sua costa e seu espaço aéreo. Tudo violando a resolução 242 do Conselho de Segurança, que cobra de Israel a retirada dos territórios ocupados após a Guerra dos Seis Dias em 1967.
Recentemente, Israel se queixou ao Conselho de Segurança dos foguetes Qassam disparados pelo Hamás, porém, quando esse organismo da ONU se reuniu para discutir o assunto, o governo israelense negou-se a enviar sua chanceler a Nova York. Enquanto isso, Israel pressiona regularmente o Conselho de Segurança para impor sanções ao Irã devido ao seu suposto programa para fabricar armas nucleares. Também pediu que seja castigada a Síria por contrabandear armas para o Hezbolá e, simultaneamente, pede que Teerã e Damasco sejam punidos por ignorarem as resoluções da ONU.
Há cerca de um mês, Livni elogiou o Conselho de Segurança por aprovar a resolução 1850, que apóia os resultados da conferência de paz realizada na cidade norte-americana d e Annapolis em 2007, onde se promoveu a chamada “solução dos dois Estados”, mas Israel resiste em aprovar a resolução 1860 porque vai contra seus interesses. Enquanto isso, a situação humanitária em Gaza continua se deteriorando rapidamente. O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários informou que um crescente número de palestinos estão presos em suas casas e não podem sair, enquanto os fornecimentos de comida e água escasseiam.
Equipes de médicos se esforçam para retirar os cadáveres e ajudar os feridos, com o risco de também se converterem em vítimas dos ataques israelenses. Os palestinos também têm dificuldades para enterrar seus mortos, já que temem sair às ruas para chegar aos cemitérios. Muitos foram obrigados a enterrar vários corpos em uma única cova. (IPS/Envolverde)

