UE-ISRAEL: Mil mortes palestinas não mudam o rumo

Bruxelas, 16/01/2009 – Altos funcionários da União Européia mantêm seus planos de fortalecer os vínculos com Israel, mesmo depois da morte de mais de mil pessoas nos bombardeios contra Gaza. Dois pronunciamentos contraditórios sobre as relações UE-Israel foram feitos ontem, quando a operação contra Gaza entrava em sua terceira semana com um crescente saldo de vÍtimas mortais, um terço delas crianças. O enviado da Comissão Européia, braço executivo do bloco a Jerusalém, Ramiro Cibrián-Uzal, alertou que a proposta de garantir as relações com Israel não “poderia continuar com se nada tivesse acontecido”.

Porém, o chanceler da República Checa (no exercício da presidência rotativa da UE), Karem Schwarzenberg, o contradisse rapidamente em uma reunião com membros do Parlamento Europeu. O funcionário recordou que os governos do bloco acordaram em junho fortalecer o vínculo, que essa decisão só pode ser revista pelos próprios governos e “não se deve mudar pelo que diz um muito respeitado representante em Jerusalém”.

A resolução dE junho promove o oferecimento a Israel de uma “aliança privilegiada” com a UE, o que lhe permitiria integrar-se ao mercado único e a uma ampla gama de programas. Schwarzenberg, que se considera um “amigo de Israel de longa data”, disse, entretanto, “não estar muito feliz com o que esse país está fazendo agora”. Muitos europarlamentares pediram ao ministro checo uma resposta firme da UE ao massacre em Gaza.

O liberal britânico Chris Davies, que visitou a zona de guerra no final de semana, disse que o exército israelense “transformou Gaza em um inferno” ao atacar a área incessantemente com “mÁquinas assassinas do século XXI. Estamos sendo indulgentes com Israel como não o fomos com nenhum outro país”, afirmou. “A União Européia não apoiou com ações em nenhuma ocasião suas críticas ao tratamento dado aos palestinos”. Essa omissão “deu luz verde a Israel” para realizar seus ataques, disse Davies. Mas, “não planejamos condenar Israel, mas recompensá-lo”, lamentou.

O vínculo econômico e diplomático entre Israel e a UE é regido pelo acordo de associação vigente desde 2000. O artigo 2 do tratado obriga as duas partes a respeitarem os direitos humanos básicos. Numerosas organizações humanitárias recopilaram, mesmo antes da atual operação contra Gaza, voluma quantidade de evidências de abusos cometidos por forças israelenses nos territórios árabes ocupados e na guerra contra o Líbano de 2006. Mas, a UE nunca invocou o artigo 2 do acordo bilateral para impor sanções econômicas ou políticas ao Estado judeu.

A eurodeputada francesa Helène Flautre, do partido Verde, disse que a débil postura da UE perante Israel afeta os valores básicos de respeito pelos direitos fundamentais compartilhado, ao menos no papel, por todo o bloco. “Se agirmos como se nada estivesse acontecendo, estaremos enterrando o projeto europeu. Estamos enterrando os direitos humanos”, disse Flautre. Uma minoria dos europarlamentares presentes na audiência com Schwarzenberg afirmou que Israel somente se defende dos disparos de foguetes feitos por milícias do Movimento de Resistência Islâmica (Hamás) desde Gaza contra o sul do território israelense.

O norte-irlandês Jim Allister disse que Israel recorre “a açoes de represália necessárias” e sugeriu que os informes sobre os sofrimentos dos palestinos não passam de propaganda. “Quando Israel contra-ataca – aposse conter muito – o Hamás usam as vitimas, e eu lhes digo: a resposta está em suas mãos. Deixem de disparar contra Israel”, afirmou. Muitos outros europarlamentares insistiram, de todo modo, que a escala maciça da operação israelense não tem comparação com os ataques do Hamás.

A irlandesa Kathy Sinnott disse que o intercâmbio comercial entre Israel e UE chegou a 25,7 bilhões de euros (US$ 33,9 bilhões) em 2007. “Se não o sancionarmos, nos converteremos em cúmplices do massacre”, ressaltou. A europarlamentar italiana esquerdista Luisa Morgantini disse: “Não se trata apenas de gente morrendo. Estão morrendo os direitos humanos. O sonho europeu que fossem respeitados universalmente está morrendo”. O conservador espanhol José Ignácio Salafranca disse que a guerra “fortalece os radicais frente aos moderados”, e garantiu que nenhuma solução militar é possível para o conflito. “Pode-se ganhar todas as batalhas de uma guerra, mas perder a mais importante: a batalha pela paz”, disse.

O socialista austríaco Hannes Swoboda disse aa IPS que foi errado negar-se a dialogar com o Hamás após sua inesperada vitória nas eleições legislativas palestinas de janeiro de 2006, o que redundou no fracasso da coalizão de unidade naiconal que esse partido formou com se rival, o secular Fatah. “Ajudamos a destruir o governo de unidade nacional. Éramos. Não gosto do Hamás: é uma organização terrorista. Mas, porque a população votou nele? Por que o viam como a última oportunidade para sobreviver”, concluiu. (IPS/Envolverde)

David Cronin

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