Pequim, 18/02/2009 – A China aguarda com uma estranha mistura de apreensão e ansiedade a primeira visita da secretária de Estado norte-americana, Hillary Rodham C. Clinton, que prometeu ampliar o enfoque de Washington em relação a Pequim, antes concentrado na economia, para assuntos delicados como direitos humanos e mudança climática. Isso reaviva a esperança dos ativistas, mas causa receio entre observadores políticos. Em seu primeiro discurso no cargo, Hillary dedicou-se muito a destacar a importância da estabilidade nas relações entre os dois países.
“Alguns acreditam que uma China em crescimento é, por definição, um adversário. Pensamos o contrário, que Estados Unidos e China se beneficiam – e contribuem com – o êxito do outro”, afirmou às vésperas de sua viagem no auditório do centro de estudos Ásia Society, em Nova York. Seu enfoque para a China, que combina preocupações econômicas-chave com questões de segurança, ambientais e de direitos humanos, ficou em destaque na segunda-feira logo que chegou a Tóquio, primeira escala de sua viagem pela Ásia. “Temos uma agenda muito ampla para tratar na China. Nesta viagem buscamos um caminho para seguir em frente”, afirmou a secretária.
Quase imediatamente, surgiu uma constatação da seriedade de suas palavras quando foi anunciado em Pequim o reinicio do diálogo militar entre as duas potências. Um porta-voz do Ministério da Defesa Nacional da China disse, segundo o jornal em inglês China Daily, que a nova fase dessas deliberações acontecerão em Pequim depois da visita de Hillary, entre os dias 20 e 22. A China suspendeu estes contatos no último outono, depois que o governo de George W. Bush decidiu vender armas no valor de US$ 6,5 bilhões a Taiwan, que Pequim considera como província renegada.
“O governo de Obama estabeleceu um tom positivo para trabalhar com o território continental”, disse o China Daily citando o contra-almirante Yang Yi, especialista militar da Universidade de Defesa Nacional. É provável que em outras áreas surjam tensões. O governo Bush manteve silêncio a respeito da situação dos direitos humanos na China. Hillay, por sua vez, prometeu se referir a essas questões quando participar de uma reunião na prefeitura da capital chinesa. Em seu discurso feito em Nova York, a secretária não evitou dizer que os tibetanos têm direito a praticar sua religião sem serem perseguidos.
Sua iminente reunião com as autoridades chinesas evoca recordações incomodas de sua visita anterior à China, quando participou da quarta Conferência Mundial sobre a Mulher,em 1995, na qualidade de mulher do então presidente Bill Clinton (1993-2001). Hillary fez um inflamado discurso sobre o valor universal dos direitos humanos e criticou a China por negar-se a enfrentar os abusos em seu próprio solo. “Liberdade significa o direito de as pessoas se reunirem, se organizarem e debater abertamente. Significa respeitar os pontos de vista de quem discorda dos pontos de vista de seus governos. Significa não afastar cidadãos de seus entes queridos nem prendê-los, maltratá-los ou negar-lhes sua liberdade e dignidade por causa da expressão pacífica de suas idéias e opiniões”, disse Hillary aos seus anfitriões naquela oportunidade.
As autoridades chinesas censuraram seu discurso na rádio e na televisão oficiais naquele momento, mas uma reiteração de suas críticas agora – quando praticamente tudo está disponível na Internet – pode ter uma grande repercussão pública. Especialistas chineses consideram prematura o compromisso de Hillary de ampliar o diálogo bilateral aos direitos humanos. “Nem China nem Estados Unidos estão preparados para iniciar conversações tão amplas”, disse Sun Zhe, especialista nas relações entre os dois países da Universidade Tsinghua, em Pequim. “Há muita retórica por parte do Partido Democrata norte-americano sobre direitos humanos, direitos das mulheres e direitos trabalhistas, mas nem um único choque real”, acrescentou.
“A China não se opõe a um diálogo exaustivo”, afirmou Chu Shulong, professor de ciência política na mesma universidade. Os dois países têm um contexto bilateral especifico para o diálogo sobre direitos humanos e discutiram a respeito durante anos, assegurou. “Colocar os direitos humanos e a mudança climática na mesma onda que a economia e a segurança não ajudará a conseguir muito, porque as duas partes apresentam sérias discrepâncias”, disse Shulong.
Porém, muitos observadores estão entusiasmados com o novo clima bilateral. Zhang Guoqing, especialista na Academia Chinesa de Ciências Sociais, acredita que a determinação do governo de Barack Obama para se afastar do unilateralismo de Bush e reclamar mais responsabilidades estratégicas de seus aliados e sócios representa uma oportunidade para a China. “Na mesma medida em que isto é uma viagem de escuta que busca compreender as opiniões na Ásia, também é uma oportunidade para que os Estados Unidos reclamem compartilhar mais”, escreveu Guoqing no Beijing Youth Daily.
Organizações ambientalistas aplaudiram os anúncios sobre a presença da mudança climática entre as prioridades da agenda de Hillary em Pequim. Em sua visita, prevê visitar uma geradora de eletricidade eficiente perto da capital, construída pela General Electric em cooperação com um sócio chinês. Obama propõe o desenvolvimento de tecnologias de energia não-contaminante como uma das principais ferramentas para reanimar a economia dos Estados Unidos. Por sua vez, a China espera receber dinheiro e tecnologia em troca de impor-se um limite às suas emissões de gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento do planeta.
“A viagem de Hillary à China é um marco no lançamento de um diálogo sobre a mudança climática entre esse país e os Estados Unidos”, disse Li Yan, ativista do Greenpeace. “O mundo inteiro está esperando que os dois países liderem o planejamento do caminho para depois do Protocolo de Kyoto”, acrescentou. Cerca de 190 países correm contra o tempo para elaborar um acordo que substitua o Protocolo a tempo para uma conferência da Organização das Nações Unidas sobre mudança climática programada para dezembro em Copenhague. (IPS/Envolverde)

