MULHERES-PARAGUAI: Emigração seletiva

Assunção, 18/02/2009 – A enfermeira Graciela Samaniego está de malas prontas. Até o fim deste mês trabalhará em um hospital estatal da capital paraguaia, depois viajará para o norte da Itália, onde fará parte de uma equipe técnica de um instituto para idosos. “Vou porque quero construir uma casa. Com o que ganho aqui, apesar dos anos de trabalho, é simplesmente impossível”, disse à IPS. Assim justifica sua viagem, junto com outras colegas. Diferentes são os motivos para a emigração destas profissionais, desde o sonho da casa própria até garantir uma estabilidade econômica para os filhos, tudo com base na possibilidade de melhores salários, longe do país.

Embora não se trate de uma atividade ilegal, os preparativos das futuras viajantes são feitos com muito hermetismo. Desde 2005, uma atraente oferta de trabalho se espalhou no âmbito das profissionais de enfermagem. Representantes de empresas italianas chegaram ao Paraguai com a intenção de conseguir interessados em trabalhar na área da saúde nesse país. Uma delas é a Obiettivo Lavoro, maior grupo especializado em gestão de recursos humanos da Itália. O primeiro contingente de emigrantes foi de mais de cem profissionais, na maioria mulheres.

Cerca de 95% dos profissionais que partiram de 2006 em diante eram enfermeiras com certo grau de antiguidade em seus locais de trabalho e com títulos de reconhecidas universidades locais. “Esta é uma profissão eminentemente feminina em nosso país, que diariamente enfrenta a discriminação de gênero”, disse à IPS Maria Concepción Chávez, presidente da Associação Paraguaia de Enfermagem. Agora, novos grupos se preparam para a travessia que lhes promete melhores condições de trabalho, e não apenas para enfermeiras especializadas, mas também para recém-formadas.

“Um dos motivos para a emigração é a falta de reconhecimento da profissão neste país, com salários e benefícios bem abaixo do que exige a atividade”, disse Chávez. Uma licenciada em enfermagem, com cerca de 20 anos na profissão e com títulos de mestrado, recebe salário mensal de US$ 750. A oferta que chega da Itália oscila entre US$ 2.300 e US$ 2.600 de remuneração.

No setor público do Paraguai é pago um bônus por título acadêmico, mas não às enfermeiras. Além disso, os salários das que trabalham sob contrato com o Estado são inferiores em até 50% ao que recebem as profissionais nomeadas. Estas têm benefícios de aposentadoria que não possuem as contratadas, também sujeitas à renovação do contrato. Nesse contexto surge um cenário propício para catapultar a emigração. Mas, a partir da emigração maciça de 2006, foi aprovado importante aumento salarial para o setor.

“Houve um aumento que era adiado por cerca de duas décadas, mas mesmo assim ainda insuficiente”, disse à IPS Blanca Mancuello, diretora da Direção de Enfermagem do Ministério da Saúde Pública e do Bem-estar social (MSPBS). Mancuello contou que desde o ministério estão sendo adotadas medidas para desestimular o êxodo, porque isso repercute diretamente na atenção médica qualificada. Instituições como os hospitais de Clínicas e Nacional e o Instituto de Previsão Social estão entre os mais afetados com a partida das profissionais.

Serviços críticos com os de terapia intensiva são alguns dos que mais se ressentem com o êxodo gente especializada. Exemplo disso é que no hospital estatal de Luque, município próximo de Assunção, não se pode inaugurar a sala de cuidados intensivos por falta de recursos humanos, uma situação semelhante à de vários centros assistenciais de diferentes localidades do país. “Quando quisemos realizar a ampliação da sala de pediatria do Hospital das Clinicas (hospital-escola da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional) e a sala de terapia, não encontramos terapeutas pediátricas, pois já não existem no país, e foi preciso incorporar recém-formadas”, disse chaves.

As correntes maciças desde o Sul de enfermeiras, parteiras diplomadas e médicas que vão para países mais ricos é um dos problemas mais graves apresentados atualmente pela emigração internacional. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa), as mulheres e os homens qualificados recorrem cada vez mais à emigração como meio de melhorar sua vida e de suas famílias. Em contraposição, seus países pobres de origem sofrem crises no serviços de saúde sem precedentes no mundo moderno.

A Organização Mundial da Saúde recomenda uma proporção mínima de cem enfermeiras para cada cem mil pessoas, mas muitos países pobres não contém nem com metade dessa quantidade. O Paraguai tem uma média de quase dois enfermeiros para cada 10 mil habitantes, enquanto em países vizinhos onde também se fala de um grande déficit de profissionais há 20 para cada 10 mil. Para Samaniego, a decisão não foi fácil. Tem dois filhos pequenos que ficarão com o pai e avó. “Mas é uma oportunidade que não quer perder e vejo que muitas colegas e amigas minhas a veem bem”, afirmou.

Em 1020, aquele primeiro grande contingente de enfermeiras completará quatro anos de permanência na Itália, para onde viajaram com contrato que então caducará. “Agora, se preparam para terem acesso a um contrato de trabalho permanente que lhes assegurará uma aposentadoria, férias diferenciadas, entre outros benefícios”, explicou Chávez. A Associação Paraguaia de Enfermagem realiza um acompanhamento especial da situação surgida no âmbito profissional. Atualmente, são mais de 300 as profissionais que prestem serviços na Itália, especialmente no norte do país.

Em março de 2007 Chávez se reuniu com seus colegas em um hospital da cidade italiana de Parma para uma troca de idéias, ver em que condições trabalham e comentar os avanços trabalhistas no Paraguai, onde em maio passado foi promulgada a Lei da Enfermagem. “Aquele encontro foi muito positivo. Nos permitiu maior aproximação com a realidade que vive cada uma delas”, recordou. A presidente da associação disse que, na maioria dos casos, o fim do casamento foi uma das consequências da viagem e, embora muitas tenham conseguido levar seus filhos, muitas crianças ainda sofrem a ausência. “Eles são minha maior preocupação, meus filhos, mas, também é por eles que decidi partir”, concluiu Graciela Samaniego. Para ela não há retorno. As malas, a documentação necessário, tudo está pronto para a viagem. (IPS/Envolverde)

Natalia Ruiz Diaz

Natalia Ruiz Díaz escribe para IPS desde Paraguay, como periodista free lance. Ejerce la profesión desde 1995, y ha trabajado en los diarios Noticias y La Nación de su país, cubriendo noticias sociales y políticas. En su calidad de comunicadora social, desarrolla acciones de difusión y comunicación institucional para organizaciones no gubernamentales y agencias de cooperación internacional en materia de derechos humanos, ambiente y género.

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